
Quando Carolina Cavalheiro chegou ao Instituto Caldeira, a equipe cabia em uma pequena sala – eram apenas quatro pessoas tentando tirar do papel um projeto que ainda parecia mais sonho do que realidade. Cinco anos depois, o cenário é outro: o Caldeira se consolidou como um dos principais hubs de inovação do país e hoje conta com um time de cerca de 105 pessoas, além de uma comunidade com mais de 500 organizações e milhares de profissionais circulando diariamente pelo espaço, que agora soma mais de 33 mil metros quadrados.
Diretora de Negócios e Gestão de Comunidade, Carolina está no centro dessa construção. É ela quem ajuda a transformar conexões em negócios, encontros em parcerias e ideias em programas que fazem o ecossistema girar.
Antes do Caldeira, passou pela RD Station, Amcham Brasil e US Chamber of Commerce, acumulando mais de 14 anos de experiência no Brasil e no mercado norte-americano. Ao longo da carreira, atuou nas áreas de desenvolvimento de negócios, planejamento comercial, gestão de comunidades e liderança de equipes, transitando entre inovação e construção de redes.
Nesta conversa, Carolina fala sobre os bastidores de liderar uma comunidade diversa, o momento especial do ecossistema gaúcho e os próximos saltos do Instituto Caldeira. Um papo direto, sem roteiro engessado, sobre como se constrói, na prática, um ecossistema que cresce junto. Confira:
Você não chegou ao Instituto Caldeira “por acaso”. Qual foi o ponto de virada que te colocou no ecossistema de inovação?
Carolina Cavalheiro: Acho que foram dois fatores principais. O primeiro tem a ver com algo que fui descobrindo ao longo do tempo, mas que já aparecia desde a minha primeira experiência como estagiária: a minha paixão por conectar pessoas. Quando a gente fala de ecossistema, no fim do dia, estamos falando justamente disso – de conexão.
Os hubs de inovação funcionam como plataformas que permitem que outros façam negócios, adquiram conhecimento e construam relações. Saber articular essas redes é essencial, e esse foi um ponto que fui desenvolvendo ao longo da minha trajetória. Desde o início, percebi que gostava de atuar como uma conciliadora de interesses, criando conexões e gerando oportunidades (muitas vezes, negócios) para as pessoas com quem eu me relacionava
Isso está muito ligado ao que hoje chamamos de gestão de comunidade. É entender como fazer isso com método, processos e escala, garantindo que a comunidade seja diversa, igualitária e capaz de se retroalimentar ao longo do tempo.
Esse olhar começou lá atrás, na minha primeira experiência na Amcham Brasil, que tem uma forte pegada associativista. O conceito de membresia ainda não é tão difundido no Brasil como modelo de negócio, embora esteja em alta, especialmente com o avanço da IA e das tecnologias exponenciais. Nos Estados Unidos, por exemplo, o associativismo é muito mais forte e estruturado do que aqui.
Fiquei cerca de sete anos na Amcham e, depois, trabalhei em uma área semelhante no mercado norte-americano, quando fui para a US Chamber of Commerce, uma das maiores organizações lobistas do mundo. Isso ajudou a consolidar a “sementinha” do ecossistema na minha trajetória.
O segundo ponto são as conexões com as pessoas. A gente nunca sabe quem vai reencontrar ao longo da carreira, sejam clientes, parceiros ou grandes mentores. No meu caso, o Pedro Valério, CEO do Instituto Caldeira, foi meu chefe há 13 anos, ainda na Amcham. Aprendi muito com ele naquela época e mantivemos a relação ao longo do tempo, sem nunca imaginar que trabalharíamos juntos novamente.
Em 2018, já de volta dos Estados Unidos, ele me ligou com um desafio específico em outra empresa, e aceitei muito pela relação de confiança que já existia. Depois, quando ele começou a estruturar o Instituto Caldeira junto com os fundadores, me procurou novamente. A proposta era construir uma comunidade com premissas bem definidas e entender como gerar valor real para quem faria parte dela.
Na época, o prédio ainda era uma torre abandonada, sem nada pronto, mas com um sonho grande: se tornar um espaço capaz de impactar milhares de pessoas. Ele me convidou para ajudar a estabelecer essas bases e fazer a comunidade crescer. Foi assim que cheguei ao Instituto Caldeira, e já estou aqui há cinco anos.
Na prática, como é o seu dia a dia e quais são as suas principais responsabilidades?
CC: Não existe uma rotina fixa – e adoro isso. O dia a dia é muito dinâmico, porque cada membro da comunidade traz novas perspectivas, seja por meio de conexões, ideias de eventos, atividades ou programas que a gente pode criar dentro do Caldeira. Temos bastante autonomia para desenvolver iniciativas que realmente gerem valor para quem faz parte do hub.
Hoje, a comunidade do Instituto Caldeira reúne cerca de 550 organizações. São startups, pequenas e médias empresas da economia tradicional, empresas de tecnologia, grandes corporações dos setores industrial, varejista e financeiro, além de atores do setor público e da academia. Embora os membros sejam CNPJs, a comunidade acontece, na prática, por meio das pessoas – dos CPFs – que circulam, participam e constroem essas relações.
Uma parte central do meu trabalho, junto com o time, é a expansão da comunidade. Isso envolve atrair as organizações e pessoas certas para o Caldeira, aquelas que fazem sentido com o nosso propósito de fomentar o ecossistema de inovação. Não é necessário que a empresa já atue diretamente com tecnologia ou inovação, mas é fundamental que exista o interesse em se conectar com essa agenda, aprender e levar esse olhar para o próprio negócio. Quando falamos de inovação aqui, não estamos falando apenas de tecnologia, mas de novas formas de fazer negócios e de novos modelos de atuação.
Outro eixo importante é a gestão da comunidade e dos seus interesses: entender quem faz sentido apresentar para quem, facilitar conexões que possam gerar negócios, promover trocas de experiências, benchmarks e conteúdos relevantes.
Também está sob a minha responsabilidade a estruturação dos produtos oferecidos aos membros, para além da convivência no hub físico. Isso inclui programas de inovação aberta, iniciativas de fomento a startups, conteúdos e metodologias que ajudam as organizações a avançarem em suas jornadas. Tudo isso se retroalimenta: os eventos, programas e atividades atraem pessoas para o Caldeira e, a partir dessas interações, surgem as conexões e pontes entre os membros.
Na prática, meus dias envolvem muitas reuniões externas e internas. Às vezes estou conversando com uma startup, em outros momentos com representantes do poder público ou com executivos de grandes empresas. Também há um volume significativo de reuniões com o time: hoje são mais de 30 pessoas, o que exige alinhamento constante de foco, estratégia e prioridades.
Qual é o próximo grande salto do Instituto Caldeira e o que precisa virar prioridade agora para ele acontecer?
CC: Estamos vivendo um momento simbólico. Completei cinco anos no Caldeira e, ao mesmo tempo, concluímos a ocupação total do espaço atual, que soma 22 mil metros quadrados. Esse processo já tinha sido finalizado no ano passado, mas a enchente nos obrigou a reconstruir e reocupar o prédio. Por isso, foi um ano de consolidação do modelo que construímos ao longo desses cinco anos, com muitos aprendizados e ainda várias oportunidades de melhoria.
A partir de 2026, o foco passa a ser um novo estágio: contribuir de forma mais direta para a consolidação de um distrito de inovação. A diferença é importante. O distrito deixa de ser apenas um hub e passa a funcionar como um bairro. Não se trata só do Caldeira, mas da chegada de outros atores e players para a região, com serviços, infraestrutura e amenities, criando um destino atrativo para talentos, empreendedores e investidores.
O grande objetivo é que essa região da cidade se torne um centro gravitacional para os melhores talentos, empreendedores e investimentos. Para viabilizar isso, iniciamos um processo de expansão relevante. A partir do próximo ano, o Caldeira passa a contar com mais 33 mil metros quadrados. A primeira etapa, prevista para março, já está 100% comercializada, com empresas confirmadas para ocupar o espaço. A segunda fase, em setembro, já tem cerca de 80% da ocupação encaminhada, com negociações bastante avançadas.
Nos próximos cinco anos, o sonho é que esse território se consolide como um bairro referência em inovação e atração de talentos. Isso se conecta diretamente com iniciativas como a Geração Caldeira, que insere jovens da rede pública na nova economia por meio de capacitação e empregabilidade, conectando esses talentos às empresas do Instituto. A prioridade é ampliar ainda mais esse impacto.
O espaço físico ajuda a materializar essa visão, mas o mais importante é o impacto urbano e social. Estamos falando de uma região que estava abandonada e que hoje começa a ganhar nova vida. Para dar uma dimensão disso, encerramos 2025 com cerca de 360 mil visitantes no Instituto Caldeira. A prioridade é expandir esse bairro de inovação e fortalecer a atração e a retenção de talentos como eixo central dessa transformação.
Relacionamento é o coração do seu trabalho. O que você aprendeu sobre pessoas e negócios liderando uma comunidade tão diversa?
CC: Aprendi, sobretudo, que quando as pessoas são genuínas nas conversas e nas intenções, as coisas realmente acontecem. Isso aparece tanto em quem chega com um forte senso de give back, disposto a contribuir com a comunidade, quanto em quem é transparente ao dizer que está buscando uma solução específica, com critérios bem definidos. Quando essa clareza existe, o diálogo flui melhor e ninguém perde tempo.
Outra lição importante vem da comparação entre o Brasil e o mercado norte-americano. Aqui, muitas vezes, a gente “doura a pílula” e demora para explicitar o objetivo de uma conversa ou de um negócio. Lá fora, a abordagem costuma ser mais pragmática: qual é o meu interesse e que valor gero em troca? Quando essa troca é colocada de forma honesta e transparente desde o início, as relações tendem a ser muito mais produtivas.
Também aprendi, na prática, o poder da colaboração. Um exemplo claro foi a última edição da Semana Caldeira, nosso maior evento. Recebemos cerca de 20 mil pessoas no Instituto, com 400 atividades e 300 speakers. Seria impossível para o time do Caldeira, sozinho, montar uma agenda dessa dimensão.
O que viabilizou tudo isso foi a força da comunidade e da rede. Um convidado indicava outro, uma conexão abria caminho para a próxima e, assim, o evento foi ganhando escala e relevância, superando até as nossas expectativas. Iniciativas dessa magnitude só se tornam possíveis quando existe colaboração real e uma rede ativa disposta a construir junto.
Como você enxerga o atual ecossistema gaúcho, em desafios e oportunidades?
CC: O Rio Grande do Sul vive um momento especial nos últimos anos. A gente costuma brincar que é um “alinhamento de astros”, mas, na verdade, ele é bastante intencional. Não aconteceu por acaso. Algumas lideranças do ecossistema vêm puxando essa pauta positiva e propositiva há algum tempo, especialmente a partir do Pacto Alegre, que passou a articular de forma mais estruturada a sociedade civil, a academia e as lideranças empresariais.
O Instituto Caldeira é fruto direto desse movimento. Foi o primeiro projeto oficial do Pacto Alegre a sair do papel e, hoje, tem vida própria e impacto concreto. Vivemos um momento em que iniciativa privada, academia e setor público estão mais próximos e alinhados em torno da competitividade dos negócios, olhando tecnologia e inovação como prioridades estratégicas.
Isso se reflete em vários avanços práticos. Porto Alegre, por exemplo, subiu de forma relevante em rankings ligados à facilidade de fazer negócios e inovação, houve redução de burocracias e, ao mesmo tempo, surgiram hubs como o Caldeira. Nesse mesmo contexto, a cidade passou a sediar o South Summit, um dos maiores eventos de inovação e fomento a startups do mundo.
Esse é, na minha visão, o grande diferencial do ecossistema gaúcho hoje. Quando recebemos pessoas de outros estados ou de fora do Brasil, o feedback recorrente é o quanto elas se impressionam com o nível de coesão e colaboração que existe aqui.
Em relação aos desafios, muitos deles não são exclusivos do Rio Grande do Sul. O cenário de negócios é bastante desafiador e a inovação exige investimento de longo prazo. Pensar em sustentabilidade, em novos modelos de negócio e em formas diferentes de operar demanda uma disposição maior ao risco. Esse ainda é um ponto sensível, especialmente em um contexto externo que nem sempre favorece esse tipo de exposição.
Existe, de forma geral, um pensamento muito orientado ao curto prazo. Se as empresas não se permitem arriscar e não garantem a continuidade dos projetos, fica difícil inovar de forma consistente. Um dos papéis que temos buscado exercer no Caldeira, junto com parceiros, é justamente desafiar esse status quo e estimular uma visão mais estratégica e de longo prazo.
Raio X – Carolina Cavalheiro
Um fim de semana ideal tem… Exercício, leitura e, de preferência, sol
Um livro: “O colibri”, de Sandro Veronesi
Uma artista da sua playlist: Dominguinho
Uma mania: Ser viciada em Sorinan
Sua melhor qualidade: Otimismo