Gina Gotthilf
Gina Gotthilf, cofundadora da Outsmart College (Foto: Divulgação | Arte por Startups.com.br)

Gina Gotthilf já esteve dos dois lados da mesa. Participou da expansão de uma das maiores edtechs do mundo, ajudou a moldar o olhar de investidores sobre startups na América Latina e agora volta a apostar na educação como ferramenta de mudança sistêmica. Ex-VP de growth e marketing do Duolingo e cofundadora da Latitud, fundo focado em startups early stage na região, ela inicia um novo capítulo como cofundadora e CMO da Outsmart College.

A empresa, apoiada por fundos como Khosla Ventures e Lightspeed, ainda opera em modo stealth, mas nasce ancorada na tese de que a inteligência artificial pode destravar gargalos históricos do ensino superior e ampliar o acesso à educação de qualidade. Fundada ao lado de Daniel Falabella e Jorge Mazal, a startup já captou US$ 38 milhões desde sua criação, em 2024.

Nesta conversa, Gina revisita o caminho entre operar empresas e avaliá-las como investidora, fala sobre os aprendizados – e frustrações – do venture capital e explica o que a levou a voltar para a linha de frente como empreendedora. Ela também reflete sobre trabalho, ambição e liderança, com foco em impacto e propósito, a partir de uma perspectiva mais pessoal sobre impacto e propósito. Confira:

Você já esteve na operação, no investimento e no empreendedorismo. Quando alguém pergunta “o que você faz?”, qual Gina responde?

Normalmente, essa pergunta surge em lugares como um consultório médico ou situações parecidas. Nessas horas, respondo simplesmente “marketing”, para não precisar explicar muito. Se a pessoa demonstra interesse, digo que trabalho com startups e tecnologia. Se a conversa avança, explico melhor, falo dos aplicativos,como o Duolingo, ou menciono os investimentos.

Isso também depende do que estou fazendo naquele momento. Quando estava na Latitud, por exemplo, provavelmente diria que era investidora, sempre deixando claro que trabalhava com startups e tecnologia, para não passar a imagem de que eu era uma mulher de Wall Street. Hoje, digo que sou cofundadora de uma startup de tecnologia apoiada por fundos de venture capital.

O que mais te surpreendeu ao sair da operação do Duolingo e passar a investir com a Latitud?

Apesar de o Duolingo ter levantado muito dinheiro, eu não estava tão envolvida com a parte de captação de recursos. Meu foco era marketing e a missão da empresa, então não entendia praticamente nada sobre venture capital.

Em inglês, se fala muito em steep learning curve, que descreve uma situação em que o aprendizado inicial exige muito esforço e é bastante desafiador. No começo, eu não sabia nem o que era equity. É difícil entender como funciona todo um ecossistema, como os diferentes players competem e, ao mesmo tempo, colaboram entre si.

Por outro lado, eu sabia o quanto é difícil fazer uma startup crescer e dar certo. Tenho amigos empreendedores, como o Mike Krieger, brasileiro e um dos fundadores do Instagram. Fui uma das primeiras usuárias a testar a plataforma e lembro de compará-la com o Foursquare, enquanto ele tentava me explicar as diferenças.

Como investidora, um dos momentos mais difíceis é olhar alguém nos olhos e dizer que você não acredita no sonho que aquela pessoa está tentando construir. Essa decisão exige um esforço constante de leitura de mercado, entendimento do setor, da tese e de uma série de outros fatores que vão além da intuição. No fim das contas, quando um investidor decide não colocar dinheiro em uma startup early stage, é porque não acredita que aquele negócio vai dar certo – pelo menos não naquele momento.

Também aprendi o quão ilusória uma narrativa pode ser. Há empreendedores que contam uma história incrível e conseguem levantar muito dinheiro, mesmo sem ter nada concreto. Por outro lado, existem ótimos empreendedores, com negócios sólidos, que não sabem como comunicar seu case.

O que a gente mais precisa no mundo é educação. Para mim, tudo começou a ficar mais claro quando passei a entender como os cálculos são feitos.

Que lacuna você sentia no ecossistema latino-americano quando decidiu criar a Latitud?

Falta de capital. Naquela época, havia pouco dinheiro disponível para startups early stage na América Latina, por causa do risco e das baixas chances de retorno. É muito mais seguro investir em um negócio que já está sólido. Convencer um investidor a apostar em algo que ele não entende, com pessoas que não conhece e em um universo que não faz parte, é complicado. Foi para preencher esse vácuo que criamos a Latitud.

Sua empreitada mais recente é a Outsmart College. O que te motivou a empreender em educação?

Minha experiência com edtechs vem do Duolingo. Eu não era empreendedora, era funcionária, e mesmo assim esse foi o melhor investimento da minha vida. Conheci pessoas que queriam fazer o bem, transformar realidades. Educação e saúde são áreas com potencial de impacto muito alto na vida das pessoas, independentemente de quem elas sejam, quanto dinheiro tenham ou da idade.

Na América Latina, incluindo o Brasil, esses temas ainda são grandes gargalos. Existem iniciativas boas, mas a maioria da população não tem acesso. Falar inglês, por exemplo, abre muitas portas no mercado de trabalho e pode mudar a posição socioeconômica de alguém. Ao mesmo tempo, para aprender inglês ainda é preciso ter dinheiro. Isso cria um ciclo difícil: você precisa aprender inglês para ganhar mais, mas precisa ganhar mais para aprender inglês.

Desde nova, entendia o privilégio de ter estudado em uma escola americana em São Paulo. Então, entrei no Duolingo com a missão de levar o aprendizado de inglês, de forma gratuita, para milhões de pessoas – algo que não existia antes. Hoje, o Duolingo é uma das empresas de educação mais relevantes do mundo e é aceito, inclusive, como prova de proficiência por muitas universidades norte-americanas.

Recentemente, alguns fatores convergiram para a criação da Outsmart College. O principal deles é a inteligência artificial, que está mudando tudo – especialmente a educação, por causa da democratização do acesso. É como a criação de uma biblioteca, depois a internet, e agora um salto ainda maior no acesso à informação e às possibilidades de aprendizado.

Ficou claro para mim que este é o momento de criar soluções que ajudem a evoluir a forma de ensinar. Acredito que muitos dos gaps do setor podem ser resolvidos com IA. Por isso, quando o Jorge Mazal me contou sobre a Outsmart College, senti que meu papel não deveria ser apenas o de investidora. Queria estar ao lado dele, tocando o negócio.

Fazia sentido como aposta de venture capital, mas, principalmente, como uma oportunidade real de transformar o mundo, aplicando nossos conhecimentos em uma nova empresa.

Quando teremos novidades sobre a Outsmart?

Seguimos atuando em modo stealth, sem compartilhar muitas informações sobre o negócio enquanto focamos no desenvolvimento, na validação e no planejamento. Para mim, que venho do marketing, é difícil não poder contar tudo o que estamos fazendo.

Já captamos US$ 38 milhões com fundos de venture capital reconhecidos no mercado norte-americano, incluindo Khosla Ventures, Karman Ventures, Latitud Ventures, Lightspeed Ventures e 20Growth.

Hoje, temos 21 pessoas na equipe e seguimos contratando, com escritórios em Utah e em Los Angeles. Já contamos com uma versão alpha, que está sendo testada internamente, mas ainda não posso dar detalhes sobre o produto. Após uma temporada em Nova York, agora estou de mudança para a Califórnia, me sentindo confiante em relação a essa aposta e segura do que estamos construindo.

Os últimos meses trouxeram mudanças importantes na sua vida – gravidez, luto, cidade nova. Isso mudou de alguma forma a maneira como você olha para trabalho, ambição ou liderança?

Gostaria de dizer que sim, que tive uma grande epifania sobre o que realmente importa na vida, mas, sinceramente, acho que não. Acredito que, se minha filha tivesse nascido, a mudança teria sido muito mais radical e provavelmente teria me feito repensar muitas coisas. Não quero ser a workaholic que sou para sempre, porque quero dar amor e atenção a um filho.

Fiquei cerca de um mês e meio sem fazer nada de útil para a sociedade, tentando voltar para a vida. Os meses seguintes também foram lentos. Mas, mesmo que eu tivesse todo o dinheiro do mundo, não conseguiria ficar sem fazer nada. Gosto muito de ler, estudar, pintar, correr e brincar com o meu cachorro.

Acredito que, se a gente pode, deve contribuir para o mundo de alguma forma relevante. Sinto que preciso usar minhas capacidades para algo que gere mudanças significativas para o maior número de pessoas possível. Gosto de trabalhar com gente inteligente, de estar sempre aprendendo.

Do ponto de vista pessoal, posso dizer que eu era agnóstica e hoje sou ateia. Antes, até acreditava em algumas coisas, como fazer um pedido de aniversário, um desejo quando o cílio cai ou pensar que algo bom voltaria para mim. Mas meu ceticismo aumentou. Continuo fazendo coisas boas para o mundo, mas não por uma lógica de causa e consequência. Faço simplesmente porque acredito que isso é importante.

Raio X – Gina Gotthilf

Um fim de semana ideal tem… descanso e alguma atividade de lazer

Livros que você recomenda: “The Goldfinch” e “The Secret History”, de Donna Tartt; “All Fours”, de Miranda July; “The Dutch House” e “Tom Lake”, de Ann Patchett.

Músicas que não saem da sua playlist: “Alatau”, de Otyken; “Overnight”, de Parcels; “212”, de Azaelia Banks; “The Life of a Showgirl”, de Taylor Swift; e “Please Please Please”, de Sabrina Carpenter

Uma mania: roer as unhas

Sua melhor qualidade: determinação