
Algumas trajetórias não fazem sentido quando vistas em linha reta. A de Marcelo Loureiro é feita de ciclos, rupturas e mudanças de rota. Da micromobilidade à saúde e bem-estar, suas escolhas nunca foram guiadas apenas por mercado, valuation ou hype, mas por perguntas pessoais que ele buscava responder em cada fase da vida.
Essa lógica aparece na forma como ele pensa o tempo, o controle e o próprio ato de empreender. Depois de viver o crescimento acelerado da Grow, de bicicletas e patinetes elétricos, além da diluição, perda de autonomia e das dores de um negócio que tomou um rumo diferente do imaginado, Marcelo passou a olhar com mais cuidado para o timing e o custo de crescer rápido demais.
Nos últimos anos, esse movimento veio acompanhado de algo mais silencioso: a busca por solitude. Inspirado pela ideia de “cave” – um espaço de isolamento voluntário para reflexão profunda -, ele começou a se afastar do barulho constante do ecossistema para prestar mais atenção nos próprios padrões, no corpo e nas escolhas do dia a dia. Foi desse processo que nasceu sua virada para o universo da saúde e, mais tarde, o Superdash, diário inteligente no WhatsApp que permite aos usuários monitorar hábitos e criar um novo padrão comportamental.
Nesta conversa, ele fala sobre carreira, aprendizados, autonomia, disciplina e por que acredita que enxergar padrões, mais do que acumular dados, pode ser o verdadeiro diferencial no mundo dos negócios e da vida. Confira:
Você já passou por muitos ciclos muito da jornada empreendedora. O que conecta essas escolhas ao longo da sua trajetória?
Falar em ciclos faz todo o sentido, porque não tive uma carreira linear. Fui sempre mudando de projeto em projeto, de acordo com várias situações: ou eu vendia o negócio ou eu perdia o ânimo por aquele mercado. Até tinha inveja de amigos que conseguiam ficar no mesmo ramo por 20, 30 anos, enquanto eu, a cada ciclo de sete, oito anos, mudava completamente de trajetória.
Hoje vejo isso como um grande benefício. Isso me dá uma capacidade de enxergar as coisas de forma mais holística e uma sensação de conseguir lidar com qualquer tipo de situação, muito mais do que se eu fosse especialista. Essa carreira cíclica me tornou um generalista. E, para o mundo de hoje, talvez essa seja uma skill mais importante e mais rara.
Percebi que todos os projetos que estive envolvido sempre nasceram de reflexões pessoais, de questões muito particulares. Notei que, quando trabalhava em questões particulares, a minha conexão com o projeto era tão grande que eu me tornava o melhor vendedor e o melhor porta-voz. Aquilo não parecia trabalho.
Gosto de tentar entender qual é a próxima tendência do mercado, mas isso sempre parte da minha experiência pessoal. Gosto de viver um pouco no futuro, e isso está ligado ao momento em que estou e às perguntas que tento responder.
A experiência com a Ride e a Grow foi intensa e bastante pública. Quais foram os maiores aprendizados desse período?
Eu vinha do setor de mobilidade nos Estados Unidos. Trabalhava com bicicleta compartilhada e tinha uma plataforma chamada SpinLister, que era um modelo tipo Airbnb para bicicletas. Vi nascer a indústria de patinetes e, quando voltei ao Brasil depois de dez anos, quis ser o primeiro a apostar nessa tendência.
Todo mundo falou que eu estava louco, que não ia dar certo no Brasil, que iam roubar os patinetes, que não havia vias adequadas. Eu achava que era uma solução que ajudaria muito o trânsito de uma cidade como São Paulo. Fui contra o consenso e criei a Ride Mobility.
A Ride acabou sendo vendida para a Grin, que depois se fundiu com a Yellow, dando origem à Grow. Eu acreditava muito que o patinete ia revolucionar a mobilidade urbana e sigo acreditando na micromobilidade. Ando de patinete até hoje.
O negócio, porém, virou algo muito maior do que eu imaginava. Tornou-se uma empresa latino-americana, com operação em dezenas de cidades, extremamente capital intensiva. Com isso, veio a necessidade de muito dinheiro, diluição e conselho. Perdi meu lugar no board, perdi voto e acabei fora da empresa que criei. Isso foi muito dolorido, porque o negócio que surgiu não era o negócio que eu tinha iniciado. O meu tinha um tempo de maturação diferente.
A principal lição foi: é melhor ir mais devagar e manter o controle da empresa a todo custo. Quando você perde o controle, você vira a pessoa da foto, mas não toma as decisões. Leva a fama, mas não decide. É o pior dos mundos.
Outra lição importante é o timing. Quando cheguei, ele era certo. Um ano depois, a empresa já valia um bilhão de dólares, mas o momento tinha se tornado errado. Pouco depois, o mercado virou. Também aprendi a importância de escolher sócios e investidores e de saber sair quando há oportunidade. Muitas vezes, a vaidade e a ganância fazem as pessoas perderem o melhor momento de saída.
O que te motivou a investir na área da saúde e criar o Superdash?
A saúde veio de uma reflexão pessoal. Dos 54 para os 55 anos, eu estava saindo do ciclo do patinete completamente estrupiado: dor no ombro, na cervical, placa em artéria, pré-diabetes. Eu era um cara regrado, mas até a página dois.
Percebi que minhas escolhas não estavam legais. Saúde passou a ser um tema que fazia sentido eu me dedicar, porque podia virar business ou, se não virasse, me trazer um benefício pessoal. Diferente da mobilidade, que é uma corrida por market share, saúde é uma aposta de longo prazo. Você lida com comportamento humano, inconsistência, autoengano.
Também entendi que o gap não estava nos dados. Dados a gente já tem: exames, wearables. A lacuna estava na forma como as pessoas se relacionam com a própria vida no dia a dia. Comecei a trabalhar com médicos que olhavam para a saúde do ponto de vista de performance, não só de exames, mas de sono, força, alimentação, humor, estresse e relações.
Foi aí que entendi que a percepção subjetiva é tão importante quanto os dados objetivos. Criei um bot no WhatsApp para me perguntar todos os dias como eu estava, com respostas simples, de zero a dez. Isso criou um momento diário de reflexão.
O Superdash não resolve nada e não manda em ninguém. Ele mostra tudo. Mostra padrões. E quando você enxerga seus padrões, você age. Disciplina não pode ser um fardo. Disciplina é liberdade. Dormir melhor, comer melhor, treinar melhor te dá tempo, saúde e força. Isso é liberdade.
Olhando para o ecossistema hoje, o que mais te chama atenção no momento das startups no Brasil?
Depois da pandemia, quando houve um boom de startups e dinheiro, veio uma crise que testou a qualidade dos empreendedores e dos negócios. Achei que ia ter um banho de sangue maior do que realmente aconteceu. O mercado brasileiro provou resiliência.
Os empreendedores souberam se adaptar a um cenário de pouca liquidez e reestruturaram suas empresas para crescer de forma mais saudável. A qualidade do empreendedorismo brasileiro foi posta em xeque e provou valor.
A grande mudança, hoje quase um clichê, é a inteligência artificial. Virou commodity. Todo mundo usa, incluindo a gente. A grande revolução vai acontecer quando a IA estiver totalmente integrada à vida do consumidor final. No Superdash, a IA turbinou o produto de forma incrível.
Ainda existe o desafio da liquidez no Brasil. O funil de saída é pequeno. Mas as startups brasileiras estão se tornando globais. Hoje, uma startup não tem mais fronteiras. Quem nasce com essa mentalidade global já sai na frente.
Fora trabalho, o que você curte fazer? Quais são seus hobbies?
O esporte é meu hobby, minha paixão e minha salvação. Pelo corpo, você entende que mente e corpo são uma coisa só.
Gosto de pedalar, surfar, andar de snowboard, treinar musculação, funcional. Se me chamar para andar de skate, eu vou. O esporte me conecta comigo mesmo, me traz para o presente e me faz raciocinar melhor.
O outro pilar da minha vida é a família. Tenho dois filhos, sou casado há 20 anos. Minha vida se resume a esses três pilares: família, trabalho e esporte. E isso tem muito a ver com solitude: saber dizer não e dedicar tempo ao que realmente importa para você.
Raio X – Marcelo Loureiro
Um fim de semana ideal tem… esporte e sono
Livro que você recomenda: “Awareness”, de Anthony DeMello
Artista que não sai da sua playlist: The Cure
Uma mania: Incluir esporte em todas as minhas programações
Sua melhor qualidade: Ser honesto comigo mesmo e querer sempre melhorar