Entrevista

5 Minutos com: Wlado Teixeira, diretor executivo do GVAngels

Executivo refletiu sobre sua trajetória, carreira, experiência como investidor-anjo e paixões pessoais, incluindo mergulho, fotografia e um estilo de vida ativo

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Wlado Teixeira, diretor executivo do GVAngels
Wlado Teixeira, diretor executivo do GVAngels (Foto: Divulgação/Arte por Startups)

Nascido em Jaú, no interior de São Paulo, Wlado Teixeira criou uma startup antes mesmo do conceito ganhar força no Brasil. Após décadas de experiência no mercado financeiro, onde atuou em bancos de investimentos com especialização em M&A, ele decidiu, aos 60 anos, mudar seu rumo e abraçar o desafio de ser empreendedor.

Em 2007, Wlado co-fundou a Vivere, uma empresa de soluções tecnológicas para gestão de crédito imobiliário. Sem concorrentes no mercado, a companhia faturou R$ 1 milhão no seu primeiro ano e, em apenas cinco anos de operação, multiplicou a receita em 37 vezes. A startup rapidamente chamou a atenção do BTG Pactual, que em 2011, adquiriu 30% das operações. Em 2013, a Vivere foi vendida para a Accenture, com um retorno de 30 vezes sobre o valor investido. 

Com 64 anos, Wlado não queria parar. “Naquela época, estabeleci como meta de vida trabalhar pró-bono, com dedicação exclusiva para ajudar empreendedores em suas jornadas”, ele conta. Em 2017, entrou para o GVAngels, rede de investidores-anjo focada em startups early stage. Hoje, aos 77 anos, Wlado é membro do conselho e diretor executivo do grupo, além de atuar como mentor, palestrante e investidor, com 57 startups em seu portfólio.

Em um papo de peito aberto com o Startups, Wlado compartilhou sua trajetória de vida e carreira, revelando como sua infância em Jaú e sua formação como engenheiro e mestre em Finanças moldaram tanto o profissional que se tornou quanto sua visão de mundo. Ele também falou sobre suas experiências como investidor-anjo e as lições aprendidas ao longo de sua jornada, além de dividir detalhes de sua vida pessoal, como sua paixão por mergulho, fotografia e seu estilo de vida ativo.

Veja a seguir os melhores momentos da conversa:

Como a sua infância influenciou a pessoa e o profissional que você se tornou?

Nasci no interior de São Paulo, neto de avôs italianos, franceses, portugueses e brasileiros. Sou o caçula de quatro irmãos e cresci em uma família muito unida. Tive uma infância feliz, estudando em uma escola de bairro. Meu pai sempre fez questão de reforçar a importância dos estudos e da faculdade. Para se ter uma ideia, uma das minhas irmãs, que faleceu recentemente devido ao Alzheimer, cursou o ensino superior na década de 1940, numa época em que a universidade ainda estava se estruturando no Brasil.

Casei jovem, aos 20 e poucos anos, e, depois de um tempo, me separei. Mais tarde, casei novamente e tive duas filhas, que hoje têm 34 e 31 anos. Uma delas está empreendendo e montando uma startup com um grupo da Califórnia, enquanto a outra trabalha na Meta, na área de marketing do WhatsApp corporativo. Sempre procurei transmitir valores importantes para elas, como a consciência de que o mundo não é fácil. Me separei pela segunda vez, mas nunca deixei de estar presente na vida delas. Fico feliz em ver que estão construindo carreiras sólidas e trilhando seus próprios caminhos.

Meio que sem querer, encontrei a mulher da minha vida. O destino colocou a Maria Alice (Frontini) no meu caminho e, desde então, seguimos juntos. Sempre fui muito estudioso, e essa foi uma das muitas afinidades que nos aproximaram. Ela é engenheira formada pela Escola Politécnica da USP, tem mestrado pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e também atua como investidora-anjo. Atualmente, é presidente do MIT Alumni Angels of Brazil, do MIT & MIT Sloan Club of Brazil. Hoje, aos 77 anos, me sinto plenamente feliz.

Você mencionou já ter vivido várias aventuras em sua vida. Há alguma experiência que se destaca?

Trabalhei a maior parte da minha vida em banco de investimentos, mas chegou um momento em que já estava farto da rotina, pois o trabalho sempre parecia o mesmo. Atuei em um banco norte-americano que adquiriu uma instituição financeira no Brasil e incorporou uma usina de álcool no Mato Grosso do Sul. Aquilo me chamou muito a atenção, pois era completamente diferente do que eu estava acostumado a fazer. Fui designado gestor do projeto, e essa foi a maior experiência da minha vida.

Naquela época, eu passava metade do mês em São Paulo e o restante no Mato Grosso do Sul. A usina tinha seis mil hectares de cana, mas não havia ninguém para cortar. Perto de lá, havia uma comunidade indígena, e decidi conversar com o cacique para que ele orientasse 200 indígenas a trabalharem no canavial, de forma remunerada. 

Na minha primeira visita à usina, encontrei dezenas de famílias de trabalhadores rurais vivendo em condições sub-humanas, abrigadas sob lonas pretas e sem infraestrutura sanitária. Procurei um amigo, diretor da Caixa Econômica Federal, e pedi sua ajuda para construir moradias para aquelas pessoas – e conseguimos.

Eu fiquei em uma pequena casa com um dormitório e um banheiro. A comida era horrível e o calor, infernal. Em uma certa noite, ouvi batidas na porta e, ao abrir, me deparei com um homem ensanguentado, que pediu para ir até o canavial. Lá, vi um farol de carro que brecou em cima de nós, e dele saiu o gerente agrícola com uma faca enorme. Eles disseram que ele queria me matar. Pelo que entendi, 30 pessoas da equipe dele foram demitidas e ele pensou que eu fosse o responsável por isso. Esse tipo de situação me fez perder o medo de qualquer chefe. No final, o banco vendeu a usina, e foi aí que comecei a segunda parte da minha vida.

Quais foram seus maiores aprendizados como investidor?

O primeiro grande aprendizado foi a quantidade de empresas investidas. A maior burrada da minha vida foi ter investido em 57 startups. Quando entrei no GVAngels, já tinha uns 13 ou 14 investimentos e, conforme encontrava bons negócios, decidia investir. O problema é que é impossível estar próximo de todos. Tem startup em que investi lá atrás e nunca mais vi o empreendedor ou não consegui acompanhar o desenvolvimento do negócio.

Hoje, acredito que o número ideal para um investidor-anjo seja entre 10 e 12 startups. Isso permite uma dedicação real ao portfólio. É muito importante ser comedido nesse aspecto, pois o excesso de investimentos vai te afastar dos bons empreendedores, pois não haverá tempo para gerenciar tudo de forma adequada.

Outro aprendizado importante foi saber o que olhar em uma startup. O modelo de negócio é fundamental, mas também é essencial conhecer os founders e como suas expertises se complementam. Um bom time tem, pelo menos, alguém de tecnologia, marketing e, depois, finanças.

Quais são os seus hobbies e paixões além do trabalho?

Mergulho há muitos anos, desde 1980, e adoro tirar fotos submarinas. Por isso, sempre planejo viagens para lugares propícios. Já explorei Fernando de Noronha e o Caribe, destinos incríveis, mas que infelizmente vêm sofrendo com a degradação dos corais. Com o tempo, comecei a me aventurar pela Ásia, mergulhando nas águas das Filipinas, Indonésia e Nova Guiné – todos lugares espetaculares. Prefiro passar a semana no barco, explorando diferentes pontos de mergulho. Todo ano, reservo um tempo para viajar e me dedicar a essa paixão.

No meu dia a dia, gosto de acordar cedo, por volta das 7h. As manhãs são dedicadas à academia e a encontrar amigos. Meu expediente começa depois do almoço, das 14h às 21h.

Treino há muitos anos, praticamente todos os dias. Aos 15, tive uma infecção séria que poderia afetar meu coração, e o médico recomendou que eu me exercitasse com frequência, fortalecendo os músculos e levantando peso. Desde então, a academia virou parte da minha rotina – vou cinco vezes por semana, sem exceção. Isso faz toda a diferença. Vejo muitas pessoas da minha idade com dificuldades de locomoção, e sei que manter o preparo físico foi essencial para minha qualidade de vida.

Além do esporte e do trabalho, sou um grande frequentador de teatro e cinema. Gosto de filmes que nem sempre são os mais populares. No Belas Artes, em São Paulo, costumo assistir a obras de diretores italianos e de Akira Kurosawa. Apesar de ser uma pessoa agitada, me interesso por filmes mais parados, contemplativos, que falam sobre a vida. Nos fins de semana, também aproveito para estar com amigos e a família.

Mesmo com esse ritmo acelerado, sempre reservo momentos para reflexão. Meditar me ajudou muito ao longo da vida. Quando meu pai faleceu, há muitos anos, tive uma crise de gastrite e acabei encontrando alívio na yoga. Desde então, parar para meditar e refletir se tornou essencial para meu equilíbrio.

Crédito: Wlado Teixeira

Raio X – Wlado Teixeira

Um fim de semana ideal tem… treino, teatro, cinema

Um livro: Adoro os livros de Jorge Amado, e estou relendo pela 5ª vez o “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis

Um filme: “Dersu Uzala” e “Kagemusha, a Sombra do Samurai”, de Akira Kurosawa

Uma mania: Não consigo fazer nada enquanto houver louça suja na pia

Sua melhor qualidade: Empatia