Rodrigo Terron é um nome conhecido no ecossistema de startups. Filho de pedreiro e cozinheira, cresceu em São Paulo e começou sua trajetória profissional como operador de telemarketing, passando por posições de analista, coordenador e gerente de planejamento.
Em 2014, decidiu seguir pelo caminho do empreendedorismo e fundou sua primeira fábrica de software, começando com desenvolvimento de sites e evoluindo para e-commerce e aplicativos. Seu contato com o universo das startups se intensificou em espaços de inovação como o Google Campus, onde prestava serviços de tecnologia para negócios emergentes.
Dois anos depois, participou de seu primeiro hackathon (maratona de programação voltada ao desenvolvimento de para soluções em curto prazo) o que o inspirou a criar a Shawee, empresa especializada em organizar hackathons. Em novembro de 2020, a startup se fundiu com a edtech Rocketseat, posteriormente vendida para a Digital House, e em paralelo Terron iniciou sua trajetória como investidor anjo, aportando em startups como NG.Cash e BeConfident.
Em 2024, lançou a NewHack, gestora de venture capital early-stage, com o objetivo de combinar investimento, comunidade e conteúdo para apoiar novos fundadores. A iniciativa atraiu Paulo Braga (ex-Wayra, Grupo Boticário e Eurofarma), e os dois uniram forças para criar a Entrypoint, somando o fundo de Paulo às iniciativas da NewHack.
Em menos de um ano, o veículo de investimentos já realizou três aportes – ainda não divulgados – e conta com uma comunidade de 1.500 membros, com a meta de dobrar esse número até o fim de 2025. Mais do que números, Terron busca construir uma marca que vá além da sua própria imagem, colocando a comunidade no centro da estratégia.
Em um papo de peito aberto com o Startups, Rodrigo Terron falou sobre os aprendizados dessa trajetória, os planos para expansão da NewHack e a importância de criar uma marca que não dependa apenas dos fundadores.
Confira a seguir os melhores momentos dessa conversa.
Como suas raízes influenciaram sua decisão de empreender?
Rodrigo Terron: Minha decisão de empreender não nasceu de um desejo de resolver um problema específico ou “mudar o mundo”. Foi muito mais uma decisão pessoal, de mudança de vida. Eu olhei para a realidade em que nasci e pensei: não é isso que eu quero para mim.
Comecei minha carreira em posições básicas, como operador e assistente, depois analista, coordenador e gerente de planejamento em um call center. Aos 22 anos, cheguei a ser o gerente mais jovem de uma empresa com 5 mil funcionários. Essa experiência corporativa me deu visibilidade, aprendizado e noção de como funciona uma empresa. Mas chegou um ponto em que percebi que, apesar do reconhecimento profissional, minha vida estava estagnada: eu não estava fazendo o que gostava, não estava impactando ninguém, nem a mim mesmo.
Paralelamente, meu envolvimento com projetos sociais da igreja foi fundamental. Organizávamos acampamentos, congressos, eventos de jovens e trabalhávamos sempre com poucos recursos, muitas vezes precisando criar alternativas para levantar fundos. Ali aprendi sobre comunidade, sobre construir algo do zero e sobre a importância de trabalhar em rede. Inclusive, foi na igreja que conheci meus primeiros sócios. Nossa primeira iniciativa foi uma agência digital, aproveitando o conhecimento que eu tinha em criação de sites. A partir daí fomos migrando para e-commerce, depois para aplicativos, e foi nesse processo que o conceito de startup entrou de vez na minha vida.
Quais foram os principais aprendizados nas experiências de M&A – primeiro na fusão da Shawee com a Rocketseat e depois na venda para a Digital House?
Rodrigo Terron: Passei por dois M&As em menos de um ano. A fusão em si foi bastante tranquila, porque as empresas já trabalhavam juntas e os sócios tinham uma relação de confiança e respeito. As culturas eram parecidas, então quando anunciamos para a comunidade, a reação foi de entusiasmo – teve gente que chegou a brincar dizendo que era como ver “os transformers da tecnologia” se unindo.
Apesar da sinergia, o processo trouxe aprendizados importantes. Tivemos que lidar com toda a estruturação jurídica e, principalmente, com o desafio pós-fusão: as empresas tinham cerca de 15 pessoas cada, e de repente tínhamos um time de 30. Foi necessário criar e fortalecer lideranças. Entendi ali que não dava mais para atuar apenas como founders ou como uma startup em estágio inicial, precisávamos funcionar como uma empresa em crescimento, com gerentes, coordenadores e lideranças bem definidas.
Contratamos alguém especificamente para estruturar a área de cultura, o que foi essencial para consolidar a Rocketseat. Até hoje, mesmo dois anos depois da minha saída, percebo como a cultura permanece forte. Também foi muito especial ver o crescimento de pessoas que estavam conosco desde o início.
Esse processo mostrou como um M&A vai muito além do negócio em si – é uma reorganização completa, que mexe com pessoas, cultura e estrutura. Para mim, foi algo que realmente expandiu a visão sobre gestão e sobre o que significa fazer uma empresa crescer.
Como investidor, seja anjo ou via NewHack, que tipo de startups ou empreendedores te brilham os olhos?
Rodrigo Terron: O foco da NewHack é em investimentos pre-seed, então olhamos muito mais para o empreendedor do que para o negócio em si, porque sabemos que o produto ou modelo provavelmente vai mudar ao longo do tempo.
O que mais me chama atenção é quando o fundador demonstra paixão genuína por empreender – não por dinheiro ou status, mas porque isso faz parte da essência dele. Parece clichê, mas faz toda a diferença. Um exemplo é o Robson Amorim, da BeConfident. Ele veio da periferia, vendeu mais de 15 mil trufas de chocolate para conseguir estudar fora do país e hoje lidera uma empresa que deve faturar R$ 40 milhões neste ano. Esse tipo de trajetória mostra resiliência, propósito e visão de grandeza.
Também valorizo a habilidade de construir comunidade. Observo se o fundador consegue atrair boas pessoas para perto, seja como sócios ou como colaboradores. Pergunto como conheceu seus parceiros, de onde vieram os primeiros talentos, qual o racional por trás de uma contratação. Porque no início, antes mesmo de vender o produto, o founder precisa vender o sonho para a equipe.
Além disso, temos um posicionamento global desde o dia zero. Buscamos teses que já nascem com visão internacional. A BeConfident, por exemplo, já tem esse olhar. Outro caso é a NG.Cash, que foi criada por fundadores com experiência fora do Brasil e que conseguiram captar nos maiores fundos do mundo. Esse tipo de ambição e capacidade de acessar players globais é algo que me atrai muito como investidor.
Qual foi um erro que, mesmo não sendo necessariamente o mais caro, acabou sendo o mais transformador na sua trajetória?
Rodrigo Terron: Tive vários, mas acho que dois pontos foram marcantes. O primeiro é que eu não tinha uma educação empreendedora de base. Não vim de família empreendedora, então no começo não sabia lidar, por exemplo, com gestão financeira. Quando a Shawee já faturava alguns milhões, ainda assim não tínhamos inteligência para planejar o fluxo de caixa. Chegamos a viver momentos em que vendíamos os maiores projetos da nossa história e, ao mesmo tempo, não tínhamos dinheiro em caixa para pagar salários ou fornecedores. Isso trouxe muito aprendizado, e também bastante desgaste.
Outro erro foi relacionado à gestão de pessoas. No início, não sabíamos estruturar planos de carreira, retenção ou avaliação. Isso só foi amadurecer de verdade quando a Rocketseat já tinha quase 70 pessoas. Antes disso, a gente ia muito no instinto, o que é válido até certo ponto, mas faltava planejamento. Aprendi, com isso, que como fundador eu precisava evoluir mais rápido do que o negócio, porque quando o crescimento chega, você tem que estar preparado.
Nesse sentido, um grande calcanhar de Aquiles para mim foi o inglês. Não tinha priorizado, e quando me vi no Vale do Silício percebi o quanto isso me limitava. Lembro de um mentor na Califórnia que, depois de me ouvir pedir desculpas pelo meu inglês por várias sessões seguidas, me interrompeu e disse: “Se é tão importante, por que você ainda não parou tudo para aprender?”. Aquilo me marcou. A partir dali, mergulhei no aprendizado e consegui melhorar bastante minha comunicação.
Outro aprendizado transformador foi em relação ao meu próprio bem-estar. Durante a pandemia, fiquei sedentário, ganhei muito peso e cheguei a ter problemas de saúde. O estalo veio quando, após a fusão com a Rocketseat, saímos numa matéria em um grande veículo nacional. Passei horas criticando as fotos até perceber que o problema não era o fotógrafo, era eu – eu não me reconhecia na imagem. No dia seguinte, comecei a mudar: exercícios, caminhadas, muay thai. Perdi quase 40 quilos. Um ano depois, quando saiu a matéria da venda da Rocketseat, eu já estava outra pessoa, não só fisicamente, mas em energia e postura.
Hoje tenho claro que empreender envolve desequilíbrios programados. Haverá momentos de dormir pouco, comer mal e se jogar no negócio – e tudo bem. Mas isso precisa ser exceção, não regra. Aprendi a respeitar meu tempo, meu corpo e meu bem-estar. Esse talvez tenha sido o erro mais transformador: não me priorizar cedo o suficiente. Felizmente, consegui ressignificar e levar isso adiante.
Olhando para o ecossistema, o que você enxerga como principais tendências e oportunidades?
Rodrigo Terron: Nos quase 11 anos em que empreendo, esse me parece o momento mais promissor para criar, pois as barreiras de entrada caíram muito. A inteligência artificial, por exemplo, democratizou a possibilidade de colocar uma ideia de pé. Antes, para validar um aplicativo no mercado, você precisava gastar milhões. Hoje, com dois, três ou cinco mil reais já é possível colocar um MVP na rua.
Acho que a IA já é uma realidade – está em praticamente todas as empresas e também na mão das pessoas. Entre as tendências que observo, vejo a saúde como uma área que será muito beneficiada pela tecnologia. Também acredito em grandes avanços em robótica, tanto em aplicações industriais quanto em usos residenciais. Não é mais só algo distante: já vemos carros autônomos circulando nos Estados Unidos e robôs domésticos em eventos. O custo está caindo rapidamente, e isso vai chegar ao dia a dia, seja em casa ou em fábricas.
Outro ponto é a unificação dos meios de pagamento via blockchain, que pode facilitar transações entre moedas e até acelerar a consolidação de criptomoedas como o Bitcoin, abrindo espaço para novos modelos de negócio. Na educação, vejo um potencial enorme com o uso da IA. O case da BeConfident, por exemplo, impressiona: eles estão crescendo rápido com um modelo em que as pessoas aprendem outro idioma pelo WhatsApp, conversando por voz com uma inteligência artificial que simula um nativo.
Ao mesmo tempo, teremos grandes desafios em áreas como cibersegurança, fake news e deepfakes. Também olho com atenção para a creator economy e a indústria do entretenimento. Inclusive, esse é o tema da palestra que estou preparando para um TEDx: a busca pela utilidade. Os avanços tecnológicos estão mexendo com um ativo essencial – o senso de utilidade das pessoas. Afinal, todos nós queremos ser úteis. Mas, com a IA assumindo cada vez mais funções, será preciso criar novas formas de utilidade. Acredito que isso abrirá caminhos para áreas ligadas ao entretenimento, ao bem-estar e à saúde.
Ano passado, a NewHack anunciou um fundo de R$ 5 milhões para investir em até 10 startups early-stage até o final de 2025. Em que pé está o projeto?
Rodrigo Terron: Houve uma mudança significativa. Quando desenhei a NewHack, a ideia era tocar tudo sozinho. Conversei com muitos empreendedores próximos e levantei, de fato, R$ 5 milhões para investir em startups.
Na primeira semana após o anúncio, fizemos uma ação de PR e alguns investidores me sugeriram conversar com o Paulo Braga, que estava estruturando algo parecido. Ele já tinha captado em torno de R$ 10 milhões e vimos muita sinergia entre as iniciativas. Ele acreditava na tese da NewHack e no que estávamos construindo, então acabamos fazendo uma fusão antes mesmo de a empresa existir formalmente.
A partir disso, criamos uma nova marca voltada exclusivamente para investimentos: a Entrypoint. Dentro da NewHack, sigo atuando em colaboração com outros fundos – Upload, Monax, Caravellas, Norte – em iniciativas ligadas a apoio, educação e fomento ao ecossistema. Mas senti a necessidade de ter uma marca dedicada apenas à parte de investimentos, e daí nasceu a Entrypoint.
Lançamos oficialmente em abril, no evento Brasil at Silicon Valley, e até saiu uma matéria no dia do meu aniversário, o que marcou ainda mais esse início. Na prática, aquele fundo inicial de R$ 5 milhões se transformou em um veículo muito maior, de R$ 40 milhões, por meio da Entrypoint, para investir até R$ 800 mil por startup. Já a NewHack, hoje, está focada em ser um ecossistema de apoio e educação empreendedora, e não faz investimentos diretos.
Em apenas um ano, impactamos cerca de 8 mil pessoas em nossos programas e eventos, reunimos uma comunidade de 500 membros ativos e já realizamos iniciativas presenciais com mais de 200 startups. Nosso objetivo é claro: construir um ecossistema que seja porta de entrada para empreendedores em estágio inicial, aqueles que ainda não têm acesso a fundos, eventos ou hubs. Queremos nos tornar uma “Y Combinator tropicalizada”, oferecendo não só capital, mas também comunidade, rede e suporte para quem está começando.
Quais são as suas prioridades para o próximo ano?
Rodrigo Terron: Já realizamos três investimentos pelo fundo, ainda não divulgados porque as startups seguem captando, e devemos fechar o ano com algo entre cinco e sete aportes. Além disso, nossa comunidade, que hoje reúne 1.500 pessoas, deve chegar a 3.000 ou 3.500 até dezembro, com apoio de eventos e iniciativas que estão no calendário.
Ao mesmo tempo, já estamos nos preparando para 2026. Estamos planejando quais ações e eventos vamos priorizar e como vamos participar deles. O ritmo tem sido acelerado, mas os resultados até aqui são animadores. Em apenas onze meses, conseguimos criar uma marca reconhecida, o que era um dos meus maiores objetivos desde o início. Queria que fosse uma marca maior do que eu, algo que já tinha buscado construir em experiências anteriores, como na Shawee e na Rocketseat.
Recentemente, tive uma prova disso. Fui a um evento usando a camiseta da NewHack e um estudante me abordou perguntando se eu trabalhava lá. Respondi que sim e questionei como ele conhecia a marca. Ele contou que, na Poli-USP, muita gente comenta sobre nosso trabalho. Foi um momento marcante, porque mostrou que a NewHack já tem mais visibilidade do que eu como indivíduo.
Hoje, trato minha própria imagem como uma marca, mas não quero que a NewHack dependa dela – nem da minha, nem da do Paulo, meu sócio. Nas redes sociais, por exemplo, usamos mais o time na linha de frente, porque eles se comunicam muito melhor com a geração Z, nosso público central. Eu posso ser a referência de longo prazo, mas quem inspira e conecta no dia a dia é o time, que é formado por profissionais excelentes e responsáveis por esse resultado.
A ideia é que, quando alguém se depara com a NewHack, enxergue uma comunidade. Nos estandes de eventos, destacamos fotos das pessoas que participam conosco – mentores, parceiros, membros da rede. Queremos que a marca seja reconhecida por essa cara coletiva, e não pela figura dos fundadores.
Raio X – Rodrigo Terron
Um fim de semana ideal tem: uma bike e um açaí
Um livro: o lado difícil das situações difíceis
Uma música: “Tempo perdido”, Legião Urbana
Uma mania: Procrastinar atividades que conseguiria fazer sem procrastinar
Sua melhor qualidade: Networking