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Análise: Fábrica da Ford, volta do voto impresso e o olhar para o Brasil do passado

Por Gustavo Brigatto, em 13 de janeiro de 2021

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Em um dos (muitos) grupos que participo no WhatsApp (que nesta semana estão se mudando para o Telegram), uma intensa discussão sobre a volta do voto impresso vinha se alongado nos últimos dias. Gente contra, gente a favor, argumentos irrefutáveis (ou nem tanto vai) dos dois lados. Daí, a notícia do fechamento da fábrica da Ford abafou a discussão sobre os votos e virou o assunto do momento. Pra mim, as duas coisas estão relacionadas pois olham para o passado, não para o futuro.

Por que falar em impressora e papel, em fazer pessoas irem ir a um lugar votar se vivemos em um mundo que se digitaliza e que discute formas de melhorar o trabalho remoto? Por que manter um modelo industrial movido a incentivos fiscais pensados no século passado para produtos do século retrasado?

O impacto imediato do fechamento da fábrica é avassalador: 5 mil empregos diretos perdidos e mais não sei quantos em toda a cadeia. Menos renda, menos impostos, menos desenvolvimento.

E o efeito ainda pode ser pior porque essas pessoas dificilmente serão absorvidas em funções semelhantes – jogando no lixo anos de treinamento e experiência – e, quando conseguirem alguma coisa, provavelmente terão condições piores do que antes.

Mas ao invés de sair falando que marca X ou Y está interessada em assumir a unidade, ou procurar qualquer outra dizendo “olha, temos uma fábrica prontinha pra você aqui, vem pra cá que eu te dou incentivo fiscal pra você fazer aqui o que você já faz em outras partes do mundo com custo mais baixo”, porque não discutir alternativas que olhem para o futuro, para o que está acontecendo hoje e o que está por vir?

E não falo nem de fazer todo mundo aprender a programar pra virar desenvolvedor no Nubank ou outro unicórnio (isso não faz sentido). Mas carros elétricos e autônomos têm cadeias produtivas que ainda estão se desenvolvendo. Como o Brasil pode contribuir e se encaixar nelas? O comércio eletrônico está bombando por conta das mudanças de hábitos trazidas pela pandemia. Como as pessoas afetadas pelo fechamento da fábrica da Ford podem se encaixar nesse mercado? A própria montadora não poderia custear programas de recapacitação como medida de compensação pelos anos de incentivos fiscais recebidos e que agora parecem não ter servido de nada?

Só que isso exige planejamento. Demora. E num país que não tem visão de longo prazo, nenhuma forma de planejamento, que vive de crise em crise, fica mesmo complicado.

O mercado mudou. O governo errou na condução da economia ao longo dos anos. A Ford errou em sua estratégia comercial ao longo dos anos. E nenhum dos dois soube se adaptar bem ao hoje. O Brasil não é para iniciantes. Muito menos para iniciados (que o diga a montadora que ficou aqui 100 anos e agora decidiu ir embora). O país é um gigante com uma economia pequena 3% do PIB global. Se a cada novo acontecimento continuarmos olhando só para o passado – “como era verde o nosso vale” (que nunca foi nem tão verde assim) – esse ponteiro não vai se mexer jamais.

Jornalista com mais de 15 anos de experiência acompanhando os mundos da tecnologia e da inovação, com passagens pelo DCI, Sebrae-SP, IT Mídia e Valor Econômico. Fundador e Editor-Chefe do Startups.com.br.