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* Olga Maslikhova é investidora e conselheira na Vitalk

O venture capital é um negócio cíclico. Haverá sempre momentos em que o capital é abundante e outros em que é gravemente escasso.

2021 foi um ano excepcional para a América Latina, quando a região foi classificada como a que mais rapidamente cresceu no mundo em termos de financiamento de risco. Os investidores de venture capital aportaram cerca de US$ 19,5 bilhões na região, segundo dados do Crunchbase, mais do que triplicando o valor do ano anterior. 

O ciclo de expansão-retração no mercado de tecnologia da América Latina foi impulsionado pela combinação do maior apetite de risco com a menor sensibilidade ao preço por parte dos investidores, valorizações vertiginosas das empresas de tecnologia dos EUA, além do otimismo quando os investimentos em capital de risco eram abundantes e os mercados públicos iam bem.

Contudo, o aumento das taxas de juros, a inflação e a instabilidade geopolítica que marcaram o início de 2022 já levaram a um ligeiro declínio na angariação de fundos em comparação com o 4º trimestre de 2021. Se a queda continuar, veremos muitas empresas tecnológicas lutando para angariar capital num mercado suscetível à falência, com baixo valuation.

O tempo mostrará se caímos numa recessão profunda. E não há melhor maneira de nos prepararmos para uma recessão do que planejar desde então:

1. Construir uma rede de mentores que já tiveram negócios durante tempos difíceis. 

2. A eficiência do capital e a economia unitária são importantes. Sempre.

Independentemente das condições de mercado, os investidores sempre pagarão por uma economia unitária saudável.

3. Sustentabilidade é o nome do jogo. A mentalidade de “crescimento a todo o custo” está ultrapassada.

O crescimento é muito importante, mas a qualidade do crescimento é ainda mais. É ingênuo supor que terá a oportunidade de se ajustar às ineficiências empresariais a uma certa escala se tiver uma enorme taxa de crescimento inorgânico, economia unitária negativa e churn hoje em dia. O crescimento por crescimento é possível, mas quando a grana secar, os seus investidores serão os primeiros a pedir que reduza os custos e as despesas gerais. 

4. A resiliência é uma mentalidade organizacional.

A resiliência é a capacidade de uma empresa em absorver o estress, recuperar funcionalidades críticas, e prosperar em circunstâncias adversas. Lida com o que é desconhecido, mutável, imprevisível, e improvável.

Os modelos de negócio resilientes têm 5 atributos importantes:

  • Altos custos de mudança
  • Fortes efeitos no ecossistema
  • Proposta de valor contra-cíclico
  • Controle dos canais de aquisição de clientes
  • Exposição limitada a fatores externos como regulamentação

5. Se conseguir levantar uma rodada com valuation e termos atraentes, opte por ela, mas trate o capital como se fosse super escasso.

Esta abordagem requer duas coisas em particular:

– O controle dos fundadores ao nível do Conselho de Administração porque é necessário o poder de decisão para fazer frente aos investidores quando estes pressionam para um crescimento excessivamente agressivo, contratações e queima de dinheiro. 

– Disciplina financeira a nível pessoal e organizacional. Deve haver um padrão de despesas bem comunicado e regulamentado.

A instabilidade econômica e política, a desigualdade, a inflação e a burocracia na América Latina tornam os investimentos ainda mais arriscados. A melhor forma de uma startup ser consistentemente financiada neste cenário é criar um tipo de negócio “analgésico e não vitamínico”, que será relevante daqui a 10 anos. 

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