
*Por Felipe Giannetti, executivo da StackAI
Menos teoria, mais execução. O debate sobre inteligência artificial evoluiu rapidamente no Brasil, mas a prática ainda avança de forma lenta. Eventos lotam auditórios, postagens viralizam e o entusiasmo é evidente. No entanto, quando o assunto é transformar interesse em projetos reais, o país continua distante do que se vê em mercados mais maduros.
Os dados recentes ajudam a ilustrar esse atraso. Embora 67% das empresas brasileiras considerem a IA uma prioridade estratégica, apenas cerca de 25% afirmam ter ao menos um caso de uso concreto em operação. Entre grandes empresas, somente 15% relatam o uso de soluções de IA agêntica, capazes de integrar sistemas, analisar dados complexos e executar tarefas com autonomia.
No setor industrial, a adoção cresce, mas ainda de forma limitada. Segundo o IBGE, 41,9% das empresas industriais usaram IA em 2024, número muito superior aos 16,9% de 2022. Mesmo assim, grande parte desses casos está restrita a usos pontuais, sem integração profunda às operações.
Enquanto isso, nos Estados Unidos a adoção corporativa já chegou a outro nível. De acordo com o IBM Global AI Adoption Index 2024, 42% das grandes empresas têm projetos de IA em produção. E não se trata apenas de copilots ou chatbots, mas de agentes autônomos capazes de interpretar documentos, tomar decisões e operar fluxos completos com governança, segurança e escala.
No Brasil, a discussão permanece concentrada em conceitos e inspirações. A execução esbarra em barreiras como a falta de projetos estruturados, baixa governança tecnológica e pouca priorização por parte das lideranças. Estudos mostram que menos da metade das empresas que alegam usar IA generativa têm de fato um caso de implementação ativa.
Além disso, questões estruturais dificultam o avanço. Cerca de um terço das empresas afirma que seus sistemas não estão preparados para integrar soluções de IA, e outro terço aponta a falta de mão de obra qualificada. O resultado é uma adoção fragmentada e dependente de iniciativas isoladas.
A diferença de ritmo é evidente quando observamos mercados mais maduros. Nos Estados Unidos, empresas que começaram a implementar IA há dois ou três anos já registram reduções de custos, reorganização operacional e ganhos significativos de produtividade. Com a aceleração dos modelos generativos e dos agentes autônomos, essa vantagem tende a aumentar.
O Brasil não carece de profissionais capacitados nem de demanda de mercado. O que falta é transformar intenção em execução concreta. Em um cenário global onde produtividade define competitividade, a inteligência artificial será o mecanismo central desse avanço.
A próxima década será decisiva. Países e empresas que implementarem IA de maneira efetiva agora construirão vantagens difíceis de alcançar. O Brasil já entendeu a importância da tecnologia, mas precisa provar sua capacidade de implementá-la com consistência e resultados reais. É a execução, e não o discurso, que definirá quem liderará o futuro.