*Thiago da Cruz Pisano é CEO da 87Labs
Vivemos um ciclo de hype, com emoções intensas que dominam o cenário: medo, fascínio, negação. A Inteligência Artificial (IA) parece uma novidade, mas sua história remonta ao século passado. Quem tem mais de 30 anos certamente lembra do confronto entre o russo Kasparov e o supercomputador Deep Blue, da IBM, em 1997, ocasião em que a máquina derrotou o ás do xadrez.
A evolução tecnológica, especialmente em hardwares e modelos, transformou a inteligência artificial em algo acessível e onipresente. O crescimento exponencial dessa tecnologia justifica o hype, mas levanta questões fundamentais: estamos culturalmente preparados para investir e utilizar a IA? E temos sido assertivos nos questionamentos éticos necessários em relação a ela?
Essas indagações são essenciais para garantir um uso sustentável da IA. Recentemente, presenciamos ciclos de hype semelhantes, como o blockchain e seus desdobramentos que vieram para ficar, mas atingiram o auge entre 2020 e 2022, como as criptomoedas e os NFTs, que são ativos digitais únicos usados para certificar propriedade e autenticidade de itens como arte, música e colecionáveis.
Esses ciclos demonstram que a maturidade cultural do mercado — investidor, produtor e consumidor — é fundamental para um cenário sustentável. Casos como o da extinta FTX, uma das maiores exchanges de criptomoedas, que faliu em 2022 após fraudes financeiras, evidenciam que a ética é central nas novas tecnologias.
Embora blockchain e IA sejam diferentes, seus ciclos de hype seguem padrões similares, como o efeito Dunning-Kruger, no qual pessoas com baixo conhecimento superestimam suas habilidades, enquanto as mais experientes tendem a subestimá-las. A autoconfiança excessiva leva ao uso irracional, sem compreensão real do valor e das necessidades no design de um bom produto. Isso resulta em desperdício de tempo e dinheiro em soluções ineficazes.
Para evitar esse problema, é necessário investir na cultura para o uso da IA. Mas, o que isso significa? Trata-se de um conceito subjetivo? Não. Existem características objetivas de produtos e equipes bem-sucedidas que frequentemente são ignoradas.
O primeiro ponto é que os stakeholders devem compreender a tecnologia aplicada, seja na área de negócios, técnica ou growth. É essencial que a empresa conheça o funcionamento da IA, suas limitações, custos e interação com outras áreas. Mesmo em automações simples, é preciso entender as peças do quebra-cabeça para garantir um fluxo eficiente. Isso inclui governança de dados e qualidade da informação utilizada. É preciso ter planejamento de melhoria contínua, lidar com alucinações, treinamentos e outros tantos processos que vão garantir um produto final bom, seguro e que continue evoluindo.
Além disso, a preparação cultural é vital. A equipe que interage com a automação pode ser resistente à mudança. Portanto, é essencial um treinamento adequado, destacando os benefícios, como redução de tarefas operacionais e maior foco em estratégia.
A análise da maturidade cultural é fundamental para a adoção bem-sucedida de novas tecnologias. Isso permite criar produtos de valor real e preparar o mercado para absorvê-los de maneira positiva, gerando impacto efetivo nas empresas.
Outro ponto essencial é a ética. O mercado de IA é altamente monopolizado. No setor de hardware, por exemplo, a Nvidia detém 80% do mercado de chips. Um artigo da MIT Tech Review alerta: “Não se engane — a IA pertence às grandes empresas de tecnologia”.
O texto, publicado em janeiro de 2024, previa que o investimento em IA estaria concentrado nas big techs. O desenrolar do ano e o início do governo Trump confirmaram essa previsão. O anúncio de um investimento de US$ 500 bilhões em infraestrutura de IA envolveu Microsoft, Oracle e SoftBank. A presença de líderes das big techs na posse do presidente reeleito reforçou o monopólio do setor.
Precisamos compreender que essas empresas processam dados sensíveis e utilizam nossas informações para ampliar sua capacidade técnica e financeira. Esses provedores possuem agendas de crescimento e conexões políticas que garantem sua influência e domínio do mercado.
O lançamento do modelo DeepSeek, por exemplo, gerou questionamentos sobre eficiência, transparência no uso de dados e vieses nos resultados. Essas discussões são essenciais não apenas para analisar o produto chinês, mas também as big techs. A segurança dos dados e a concentração de mercado são temas urgentes.
Uma certeza: a inovação não vai parar. O desafio é aprender a navegar nesse ecossistema, equilibrando produção de valor e consciência crítica. Por isso, a cultura é essencial para criar produtos sustentáveis e preparar o mercado para absorvê-los, ao mesmo tempo em que fomentamos o debate ético para amadurecer esse cenário minimizando seu impacto negativo.
A inovação tecnológica, especialmente na IA, tem transformado a sociedade rapidamente. No entanto, para que essa mudança seja realmente positiva e sustentável, ética e cultura devem ser pilares fundamentais. Sem esses elementos estruturantes, a tecnologia pode aprofundar desigualdades, alienar comunidades e comprometer valores universais.
A ética na inovação vai além da conformidade legal. Ela exige decisões que respeitem direitos humanos, promovam equidade e minimizem impactos negativos. Por exemplo, as recentes restrições dos EUA à exportação de chips de IA levantam preocupações sobre exclusão tecnológica de países inteiros.
Concentração de poder em poucas empresas ou nações pode dificultar o acesso de mercados emergentes à inovação, perpetuando desigualdades. A ética atua como contrapeso para garantir que a tecnologia beneficie a sociedade como um todo, não apenas uma elite.
Enquanto a ética define limites, a cultura expande possibilidades. A diversidade cultural impulsiona a criatividade e a inclusão, permitindo soluções adaptadas a diferentes contextos. A cultura combate à homogeneização imposta pelas big techs, garantindo inovação mais representativa.
Governos, empresas e sociedade civil precisam priorizar estratégias de impacto sustentável, promovendo inclusão tecnológica, evitando monopólios e investindo na capacitação de profissionais alinhados a princípios éticos e culturais.
Sem ética, a inovação desumaniza. Sem cultura, ela perde diversidade. Para um futuro justo, esses dois pilares são essenciais para orientar o desenvolvimento tecnológico de forma equitativa e sustentável.