Constantino Júnior
Constantino Júnior, fundador e ex-presidente do conselho de administração da GOL Linhas Aéreas | Crédito: Eduardo Viana/Divulgação GOL

*Por Marcelo Linhares, fundador e CEO da Onfly

A primeira vez que viajei de avião foi de GOL, voei de Belo Horizonte até Vitória, pagando “apenas” R$ 69,99, o mesmo preço de uma passagem de ônibus. 

Até então, viajar de avião era para alguns poucos “privilegiados”, ou executivo engravatado com gumex no cabelo. O bilhete aéreo impresso, pasmem, era um sinal de status.

Na semana passada, o Brasil perdeu Constantino Júnior, um dos fundadores da GOL e CEO da companhia por mais de 10 anos. 

O empresário que o mercado chamou de “aventureiro”

Constantino Júnior não era do tipo que ficava bem em foto posada de revista. Ele veio do interior de Minas, de uma família simples que construiu império no transporte rodoviário. 

Seu pai, Nenê Constantino, fundou a Expresso União em 1957. Ônibus era o DNA da família.

Mas “Seu Nenê”, Júnior e seus irmãos olharam para o céu.

Em 2001, quando a GOL fez seu primeiro voo, o mercado disse que não duraria um ano. As companhias tradicionais, como Varig, Vasp e Transbrasil, mandavam recados para as agências de viagem chamando a GOL de “aventureiros”, “amadores” e “inexperientes”.

Ofereciam prêmios extras para quem se recusasse a vender passagens da empresa.

A acusação era sempre a mesma: dumping. Preços irreais. Destruição do mercado.

Júnior e sua família ignoraram tudo isso.

Em 2007, pela primeira vez na história, o Brasil transportou mais pessoas entre estados de avião do que de ônibus. A família que construiu fortuna levando gente de ônibus foi a mesma que tirou essas pessoas da estrada e as colocou no céu.

Para quem quiser conhecer um pouco mais desta história, sugiro fortemente o livro escrito por seu irmão, “Desejo de gol: histórias e confissões de um empresário”. 

As “inovações” que hoje são óbvias, mas que em 2001 eram “heresia”

Graças à coragem de Constantino Júnior e seus irmãos, a GOL foi a primeira companhia aérea no Brasil a:

→ Aceitar e-ticket (antes era só papel impresso). Até poucos dias antes do lançamento, o governo insistia que a GOL mantivesse bilhetes físicos, a GOL insistiu e conseguiu ser a primeira a utilizar o bilhete eletrônico.

→ Vender passagens pela internet desde o primeiro dia de operação, quando isso era considerado “arriscado demais”.

→ Implementar web check-in (2003). O tal “check-in” virou “Chiquinho” entre clientes confusos com tanta novidade.

→ Usar linguagem coloquial no atendimento. Adeus “senhoras e senhores”, olá “não esqueçam as bagagens de mão, hein” e “sentiremos saudades”.

Pensar em uniformes confortáveis e despojados para a tripulação, ao invés daquele desfile de moda e alta carga de maquiagem exigida pelas companhias aéreas tradicionais;

→ Fazer IPO em 2004, listando na Bovespa e NYSE simultaneamente — bem antes do termo “unicórnio” existir.

Pode ser que você esteja lendo isto e dizendo “Ah, não tem inovação nenhuma nisso”, mas veja, isto tudo foi em 2001, 25 anos atrás, para fins de comparação, o celular mais moderno da época era o Nokia 3310, e o ápice da nossa diversão em mobile era jogar o “jogo da cobrinha”.

Hoje é óbvio, mas em 2001 era… heresia.

Os números que a GOL ajudou escrever na democratização da aviação

Assim como eu, outras dezenas de milhões de pessoas tiveram a oportunidade de viajar pela primeira vez com a GOL, pagando o preço de uma passagem de ônibus.

A GOL democratizou definitivamente as viagens aéreas no Brasil, transformando o que antes era privilégio de poucos em realidade acessível para milhões. No livro de Henrique Constantino, irmão de Júnior, há uma passagem memorável sobre essa transformação cultural.

Ele relembra como o comportamento das pessoas nos aeroportos mudou radicalmente:

“Se tempos atrás passageiros de avião se produziam com suas melhores roupas para fazer uma viagem, transformando a ida ao aeroporto num evento social com direito a maquiagem e salão, a partir dali passava a ser um ato quase tão prosaico quanto ir ao supermercado. Aquela mudança representava uma mistura de passageiros mais saudável e acessível.”

Essa observação captura perfeitamente o impacto social da companhia aérea no Brasil – viajar de avião deixou de ser ostentação e virou commodity.

Quando a GOL começou a operar, em 2001, 32 milhões de passageiros voavam por ano, segundo a Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC).

Em 2014, já eram 118 milhões – crescimento de 210% em apenas 14 anos.

Em 2024, 118 milhões novamente – segundo melhor desempenho da história.

Em 2025, 129 milhões de passageiros – recorde histórico absoluto.

De 32 milhões para 129 milhões. 

Depois que GOL mostrou que era possível, vários competidores “copiaram”, muito bem, a propósito. 

Lealdade: uma lição de 15 minutos

Tive o prazer de conhecer Constantino Júnior em setembro passado. Foi uma ligação rápida, não mais que quinze minutos, intermediada por um grande amigo. Eu buscava referências de um executivo que trabalhou na GOL por mais de oito anos. Mesmo claramente indisposto – a tosse forte dificultava a conversa -, Júnior foi gentil, generoso e absolutamente transparente.

O que aprendi naquela ligação? Que lealdade é via de mão dupla. Júnior poderia ter simplesmente mandado uma mensagem, mas dedicou aqueles minutos para conversar pessoalmente e dar as melhores referências do executivo. Foi profundamente leal às pessoas de sangue laranja que trabalharam anos ao seu lado.

Essa mesma lealdade e respeito pelas pessoas estão registrados no livro de seu irmão,  Henrique Constantino: “É possível enfrentar concorrentes sem ofender e sem humilhar. Esta é a verdadeira liderança: competente, eficaz, incansável, mas responsável e respeitosa.”

O legado

Constantino Júnior mudou o Brasil sendo criticado, boicotado e subestimado. Fez isso sendo chamado de “irresponsável” por baixar preços. Fez sendo acusado de “destruir o mercado”.

Mas fez.

Ele se recusou a aceitar que as coisas são como são só porque “sempre foram assim”.

E hoje, quando você embarca em qualquer companhia aérea brasileira, usa e-ticket, faz web check-in pelo celular, compra passagem pela internet e ouve uma comissária falar “hein” ou “sentiremos saudades”, você está usando inovações que a GOL popularizou.

De 32 milhões para 129 milhões de passageiros. Um crescimento de 303% em 14 anos. 97 milhões de pessoas a mais no céu.

Esse é o legado de Constantino Júnior.

Descanse em paz.