
*Por Gonzalo Parejo, cofundador e CEO da Kamino
As médias empresas brasileiras entram em 2026 diante de um cenário que combina oportunidades e pressões crescentes. A dinâmica de juros elevados, as mudanças regulatórias previstas para os próximos anos – sendo a principal delas a Reforma Tributária – e a escalada da Inteligência Artificial no mundo dos negócios devem alterar profundamente a maneira como esse segmento opera, decide e disputa espaço em seus mercados.
Por um lado, essas empresas ganharam protagonismo como motores de emprego e produção. Por outro, convivem com obstáculos estruturais que afetam diretamente sua competitividade: gestão financeira fragmentada, baixa visibilidade de caixa, multiplicidade de sistemas, grande dependência de processos manuais e dificuldades para acessar crédito em condições favoráveis. Esses fatores tendem a se intensificar em 2026 e a exigir novas capacidades das equipes financeiras e dos executivos de alto nível.
Controle de caixa: o principal obstáculo das empresas
No próximo ano, a principal dificuldade das médias empresas deve continuar sendo o controle de caixa. A maioria opera com várias contas bancárias, sistemas desconectados e rotinas que ainda dependem de planilhas ou conciliações manuais. O resultado é a ausência de uma visão integrada e precisa sobre indicadores essenciais, como saldo disponível, compromissos futuros, prazos de recebimento, exposição a risco e impacto imediato das decisões operacionais.
Sem dados consolidados e atualizados, CFOs, gerentes de finanças e equipes financeiras reagem mais lentamente às mudanças de cenário. O intervalo entre o surgimento de um problema e sua identificação segue elevado em muitos negócios, reduzindo a margem de manobra e comprometendo a eficiência. Em um ambiente macroeconômico mais exigente, essa lentidão se torna ainda mais onerosa.
Outro desafio é a capacidade de prever e simular cenários. A falta de informações estruturadas dificulta a leitura de riscos e compromete decisões relacionadas à expansão, contratações, renegociação de prazos e estratégias de financiamento. O que observamos é que empresas com baixa maturidade nesse campo têm dificuldade em gerar crescimento orgânico – ou, quando geram esse crescimento, não conseguem sustentá-lo de forma contínua.
Automação e IA: o novo patamar da eficiência financeira
Estamos encarando um cenário em que automação e Inteligência Artificial deixam de ser tendência e passam a compor a infraestrutura básica da gestão financeira. Essa mudança ocorre em três frentes principais.
A primeira envolve a eliminação de tarefas operacionais manuais, que ainda consomem grande parte do tempo das equipes. A aplicação de IA em rotinas de contas a pagar e receber, conciliações e classificações de despesas reduz erros, diminui retrabalho e amplia a capacidade analítica do time.
A segunda frente é a construção de um ambiente de “inteligência financeira” baseado em dados unificados. Não basta reunir dashboards. Será necessário adotar plataformas que consolidem 100% das informações em tempo real, garantindo consistência, validação automática e visão integrada da operação. Esse tipo de estrutura possibilita projeções mais precisas, alertas antecipados e insights acionáveis.
Já a terceira diz respeito à integração entre software e serviços bancários. Sistemas que reúnem pagamentos, conta digital, cartões corporativos e automações em uma única solução reduzem fricções operacionais, aprimoram governança e ampliam a velocidade de resposta – especialmente importante em negócios expostos a grande volume de transações.
Reforma tributária e as prioridades dos líderes financeiros em 2026
Se automação e IA serão cruciais para a eficiência financeira, esse movimento ganha ainda mais relevância diante do grande tema de 2026: a Reforma Tributária (https://www.gov.br/receitafederal/pt-br/assuntos/reforma-tributaria). A transição para o novo modelo exigirá que jurídico, fiscal e financeiro atuem de forma mais integrada do que nunca, especialmente nas médias empresas, que normalmente operam com estruturas enxutas.
No Brasil, onde o sistema fiscal já demanda alto nível de detalhamento e obrigações acessórias em tempo real, a mudança tende a expor fragilidades de processos que ainda dependem de controles manuais ou sistemas fragmentados. 2026 será o ano de revisar rotinas, garantir consistência de informações e evitar inconsistências que possam gerar retrabalho, atrasos ou riscos regulatórios. A capacidade de consolidar dados, automatizar etapas críticas e assegurar conformidade contínua será determinante para manter a estabilidade operacional durante o período de transição.
Nesse contexto, acredito que as agendas de CFOs, diretores financeiros e executivos de operações precisarão refletir a combinação de pressões externas e internas que definirão o próximo ano.
Reforço a importância de garantir visibilidade total e em tempo real da saúde financeira da empresa. Construir essa visão integrada deve ser o primeiro passo, pois é ela que sustenta decisões acerca de investimentos, revisão de custos e ajustes estruturais.
Crédito: A lacuna a ser preenchida para acelerar crescimento e otimizar o caixa
Por fim, é fundamental preparar a empresa para acessar crédito e crescer de forma sustentável. Governança sólida, fluxo de caixa organizado e informações estruturadas influenciam diretamente o custo e a disponibilidade de capital. O ambiente competitivo do próximo ano trará desafios relevantes para as médias empresas brasileiras, mas também oportunidades para quem construir uma operação financeira moderna, integrada e orientada por dados. O fortalecimento desse segmento não depende apenas de fatores externos, mas da capacidade dos próprios líderes de impulsionar mudanças estruturais. As companhias que se anteciparem à transformação financeira estarão mais preparadas para navegar o próximo ciclo econômico, responder rapidamente às mudanças e, principalmente, crescer de forma consistente.