
*Por Jorge Vargas Neto, CEO da BHub
Janeiro de 2026 marca o início de uma transformação sem precedentes na rotina de quem empreende no Brasil. Com a entrada em vigor da alíquota de teste de 1% — dividida entre a CBS federal e o IBS estadual e municipal —, a Reforma Tributária deixou de ser um debate legislativo para se tornar um desafio operacional imediato. Embora o percentual de 1% pareça inofensivo, o risco real para o caixa das empresas não reside no valor do imposto, mas na gestão da informação.
Em um país que detém o recorde mundial de tempo gasto com gerenciamento de tributos, superando 1.500 horas anuais de acordo com o Banco Mundial, o novo regime introduz uma dualidade inédita: gerenciar os impostos atuais enquanto se adapta às novas regras da Reforma Tributária. Conforme o recente Ato Conjunto RFB/CGIBS nº 1/2025, embora a apuração em 2026 tenha caráter informativo, o registro e a emissão correta dos documentos já são obrigatórios. O governo está testando o sistema, e sua empresa precisa fazer o mesmo.
Neste cenário, a precisão dos dados fiscais se tornou o novo divisor de águas entre o lucro e o prejuízo. Abaixo, elenco os pontos críticos que todo empreendedor deve monitorar para garantir a continuidade do seu negócio nesta transição.
1. O risco da bitributação por falha de dados
A legislação atual permite que o empresário utilize esse 1% pago agora para gerar descontos nos impostos federais ainda vigentes, como PIS e COFINS. No entanto, esse abatimento não é automático; ele só se converte em dinheiro no caixa se o registro dos dados for impecável. Qualquer descuido na parametrização do sistema de vendas pode resultar em bitributação, ou seja, uma cobrança dobrada que transforma um direito tributário em custo operacional direto. A informação organizada é a única blindagem contra a perda de liquidez.
2. O “efeito cascata” e a auditoria de parceiros
Um dos pilares da mudança é a não cumulatividade plena, o que significa que o direito ao crédito tributário agora funciona em cascata, o que significa que você só garante o desconto se o seu fornecedor tiver pago o imposto corretamente na etapa anterior.
Isso exige que o empreendedor mude sua postura comercial. Não basta mais apenas negociar preço, é necessário auditar se seus parceiros estão emitindo notas no padrão correto da CBS e do IBS. Além disso, como o IVA dual torna a carga tributária transparente, a lógica de repasse de custos e precificação precisará ser revisada em todos os contratos para preservar as margens de lucro.
3. A Inteligência Artificial como infraestrutura de gestão
Diante da complexidade de tocar dois sistemas tributários simultâneos, a contabilidade baseada em processos manuais e planilhas se torna um gargalo perigoso. A velocidade exigida ultrapassa a capacidade humana de processamento.
Nesse contexto, a Inteligência Artificial surge como a infraestrutura necessária para a continuidade do negócio. Modelos de tecnologia preditiva atuam como um filtro de governança, capazes de interpretar as regras de transição e corrigir erros antes mesmo que a nota seja enviada ao governo. Mais do que automatizar tarefas, a tecnologia serve para antecipar problemas, simular impactos no fluxo de caixa e garantir que o empresário usufrua integralmente de seus direitos a crédito.
A verdade é que 2026 é um convite à maturidade digital para o empreendedor brasileiro. Aqueles que investirem agora na organização de dados e em tecnologia terão previsibilidade e tranquilidade para focar no crescimento, enquanto quem ignorar as mudanças técnicas e mantiver uma gestão reativa sentirá o custo em multas e notas fiscais travadas.
A Reforma Tributária promete simplificação no futuro, mas o presente exige eficiência. O contador moderno deve atuar como um consultor estratégico, liberto da carga manual por uma tecnologia que funcione como seu braço direito. O sucesso nesta transição dependerá de quão rápido sua empresa conseguirá transformar dados fiscais em inteligência de negócio.