
Por Claudio Just, CEO da Transfero
As stablecoins deixaram de ocupar um espaço experimental no setor de cripto e se consolidaram como uma das principais infraestruturas emergentes para a movimentação de recursos no ambiente digital. O volume mensal transacionado por esse ecossistema já alcança centenas de bilhões de dólares, impulsionado por empresas, plataformas de pagamento, bancos digitais e operadores de tesouraria que buscam reduzir custos, agilizar liquidações e operar com eficiência em um mercado global que funciona de forma ininterrupta.
Embora frequentemente associadas ao universo de ativos digitais, as stablecoins passaram a cumprir uma função essencialmente operacional: oferecer liquidação contínua e interoperável entre diferentes sistemas financeiros. A tecnologia não surgiu para substituir bancos, mas para mitigar fricções estruturais presentes em pagamentos internacionais, como horário bancário limitado, dependência de intermediários, custos elevados de câmbio e processos de reconciliação lentos.
Grande parte da expansão das stablecoins ocorreu por meio de ativos lastreados em dólar, que cumprem o papel de liquidez internacional. No entanto, fluxos financeiros reais raramente são dolarizados de ponta a ponta. Empresas e instituições que operam com custos, passivos, receitas ou balanço em moeda local precisam de instrumentos que preservem a denominação original das suas operações.
Nesse contexto, o uso de stablecoins em dólar para fluxos vinculados ao real brasileiro pode introduzir riscos de descasamento cambial, aumento de custos operacionais e inconsistências contábeis. A demanda do mercado por instrumentos equivalentes ao dólar digital, porém denominados em moeda local, tornou-se evidente.
Nesse contexto, as stablecoins pareadas à moeda nacional têm se expandido no mercado não por substituir o real, mas sim por possibilitar a integração ao ambiente financeiro global, permitindo liquidação 24 horas por dia com trilhas completas de auditoria, governança, compliance e aderência regulatória.
Esses ativos são utilizados em operações de tesouraria, pagamentos internacionais, otimização de fluxo de caixa, liquidação de obrigações, operações cross-border e integração com rails de pagamento digitais. Ao permitir essa circulação com a mesma eficiência das stablecoins de moedas fortes, as stablecoins nacionais ampliam a capacidade das empresas brasileiras e estrangeiras de transacionar no país e a partir do país com menor atrito.
Para se ter uma ideia da importância que as moedas virtuais lastreadas em ativos reais têm hoje no país, os brasileiros movimentaram R$ 338 bilhões em cripto entre janeiro e setembro do ano passado, sendo que as stablecoins representaram mais de 70% desse volume transacionado. Essa evolução não se dá apenas por eficiência técnica. Governança, controles e aderência regulatória se tornaram critérios determinantes para diferenciar projetos de uso institucional daqueles que permanecem no campo especulativo.
Reguladores internacionais já tratam stablecoins como parte integrante do debate sobre pagamentos, câmbio e supervisão financeira. No Brasil, o Banco Central tem avançado na estruturação normativa envolvendo ativos virtuais e operações internacionais, reforçando a importância de mecanismos de reporte, rastreabilidade e segurança operacional. Instituições financeiras e reguladores não escolhem o ativo mais popular, mas o que apresenta maior previsibilidade, auditabilidade e capacidade de operar em escala.
À medida que economias se tornam mais digitalizadas e que empresas passam a operar de forma global, a demanda por sistemas capazes de liquidar valores de forma contínua tende a crescer. O modelo multi rail, que combina sistemas bancários tradicionais, redes de pagamento, estruturas cambiais e rails baseados em blockchain, deve orientar o futuro do mercado.