
*Por Julio Viana, Gerente Regional do GitHub no Brasil
Uma das escaladas mais interessantes dos softwares é a forma como qualquer pessoa fora do ramo da tecnologia, mesmo sem formação técnica avançada, já consegue criar e usar uma tecnologia para o seu dia a dia de trabalho usando soluções como vibe coding. Esse é o princípio por trás das inovações em codificação por linguagem natural: permitir que um professor, um aluno ou um profissional de qualquer área consiga, por meio de palavras, transformar uma ideia em um aplicativo ou recurso funcional.
Basta um prompt, e a tecnologia é capaz de estruturar a lógica, escrever o código e entregar um protótipo em questão de segundos. Esse movimento é revolucionário, pois redefine como a sociedade vai interagir com a tecnologia daqui para frente, tornando-a cada vez mais inclusiva e acessível.
No começo deste ano, o termo vibe coding foi popularizado. Ele descreve uma abordagem de programação assistida por inteligência artificial em que o usuário não precisa escrever instruções detalhadas em código. Em vez disso, ele transmite apenas a ideia geral ou a “vibe” do que deseja, como o estilo de um aplicativo ou a função principal de um recurso, e a IA gera o código correspondente. Segue a mesma lógica da programação em linguagem natural, que permite transformar instruções escritas em texto comum em linhas de código, mas no vibe coding o nível de abstração é ainda maior, bastando a intenção do autor, e a tecnologia preenche os detalhes.
Em 2024, o GitHub estabeleceu a missão de capacitar até 1 bilhão de pessoas a programar. Isso será alcançado em grande parte usando a linguagem natural, um salto que rompe a bolha do desenvolvimento de software tradicional e redefine o papel da tecnologia em praticamente todos os setores da economia. No entanto, isso não significa que as habilidades de programação, tantas vezes apontadas como a profissão do futuro, tenham se tornado dispensáveis. O salto tecnológico não funciona de forma tão linear. A programação por linguagem natural possui suas limitações, e é fundamental reconhecê-las diante da crescente onda em torno do vibe coding e da forma como essa prática começa a ser incorporada dentro das empresas.
A IA não deve ser vista como um atalho, mas sim como uma parceira que acompanha o percurso de maneira assistida. Um bom projeto de software precisa, necessariamente, contar com profissionais qualificados, com sólidos conhecimentos técnicos e capacidade de desenvolver soluções de forma independente, sem depender exclusivamente da inteligência artificial ou de vibe coding. Plataformas de codificação baseadas em IA ainda podem cometer erros sérios, que podem comprometer a segurança e a eficiência de um sistema.
Por isso, o caminho mais inteligente está no equilíbrio: utilizar a IA como aceleradora, mas contar com o conhecimento técnico dos devs para realizar os ajustes necessários e, assim, garantir qualidade e resultados sustentáveis. No caso das startups, por exemplo, que muitas vezes contam com equipes enxutas, não é viável depender exclusivamente do vibe coding para sustentar o desenvolvimento de software. Sem profissionais habilidosos, capazes de revisar, ajustar e manter a qualidade do que é produzido, o crescimento dificilmente se sustenta até uma segunda rodada de investimentos.
Em outras palavras, a inteligência artificial e o vibe coding trazem ganhos indiscutíveis de agilidade e acessibilidade, mas não substituem a base sólida do conhecimento técnico. O futuro do desenvolvimento não será feito de máquinas ou pessoas, mas da combinação entre a velocidade da IA e a experiência prática, as habilidades e a visão das pessoas desenvolvedoras. A vantagem competitiva está nessa virada de chave na mentalidade das empresas.