
Depois de uma cisão societária que colocou fim à Upload Ventures, Carlos Simonsen está estruturando a Upstream, nova gestora que nasce com foco em growth e com uma proposta mais ampla do que o venture capital tradicional. A casa prepara um fundo híbrido, que combina instrumentos de equity e crédito, e pretende captar recursos ao longo de 2026.
A separação da Upload, que atuava tanto em early stage quanto em growth, resultou na criação de três gestoras independentes. Rodrigo Baer ficou à frente da 14B, dedicada a startups em estágio inicial; Mario Moraes assumiu a UVP (Upload Ventures Growth), que administra um fundo de US$ 50 milhões ancorado pela TIM; e Carlos passou a liderar a Upstream, levando com ele o antigo time de growth da casa.
“A Upload, há dois anos e meio, era uma casa só para early e growth. O Rodrigo já tinha a visão de criar uma marca dedicada exclusivamente ao early stage, que é a tese da 14B. A divisão abriu espaço para a gente desenvolver uma nova vertical de produtos”, diz Carlos, em entrevista ao Startups.
A Upstream começou a operar sob a nova marca no quarto trimestre do ano passado, ainda em fase de testes. O diferencial da casa está na aposta em instrumentos híbridos, que vão além do equity puro.
“O equity acaba sendo limitante. Existem muitas situações em que a empresa precisa de capital para crescer, mas não faz sentido diluir naquele momento. Queremos olhar para tudo o que não cabe dentro do equity”, afirma Carlos.
Segundo ele, porém, não se trata de venture debt tradicional. Os produtos desenhados pela gestora têm duração mais curta, combinam características de crédito com upside de equity e buscam acelerar o crescimento das companhias.
“Não é um instrumento de governança. A ideia é construir uma relação de longo prazo e ajudar a empresa a crescer, sem empurrá-la para soluções bancárias tradicionais que muitas vezes olham métricas que não fazem sentido para startups”, aponta.
A tese surge em um contexto em que o volume de capital investido aumentou, mas o número de deals tem caído. Para Carlos, a competição por equity na América Latina se intensificou, enquanto o funil de oportunidades realmente excepcionais ficou mais estreito. “O top 5% continua sendo muito bom, mas queremos tentar investir no top 1% quando falamos de equity. Esse é o nicho que estamos olhando agora”.
O foco está em companhias com produto já validado e necessidade clara de capital para escalar. Inicialmente, a atuação será concentrada no Brasil.
Apesar do foco em instrumentos híbridos, o equity segue no radar, especialmente em inteligência artificial. “Seria irresponsável não olhar para IA. A gente vê muito mais como uma ferramenta do que apenas como tese de investimento”, diz Carlos.
Internamente, a própria Upstream já utiliza IA de forma intensiva, sobretudo em processos de due diligence. “Nossa produtividade aumentou muito. Conseguimos fazer mais em menos tempo”, conta o investidor.
Para ele, a entrada mais estruturada de crédito no ecossistema de venture capital é um sinal de maturidade do mercado. “Quando você limita tudo ao equity, reduz as alternativas para as empresas. Muitas acabam recorrendo a bancos incumbentes. Ter mais criatividade nos instrumentos amplia o acesso ao ecossistema”.
Mesmo após a separação, a relação com a 14B segue próxima. Carlos destaca Rodrigo Baer como um parceiro estratégico relevante, sobretudo pela leitura aprofundada do mercado de early stage. “A divisão foi cooperativa e abriu espaço para cada um aprofundar sua tese.”
O plano agora é validar os pilotos atuais e levantar um novo fundo em 2026. “Capital sempre vai procurar a próxima grande oportunidade. Empresas boas sempre vão encontrar investidores”, afirma.
Para Carlos, a expectativa de queda global dos juros deve melhorar o ambiente de investimentos, especialmente para companhias de qualidade que não dependem exclusivamente de janelas de IPO para crescer.
O investidor destaca, porém, que o avanço da IA tornou mais difícil de prever os próximos movimentos no mercado de venture capital. “Nunca se sabe qual vai ser o horizonte. O curto prazo virou médio prazo. Qualquer previsão para daqui a dois anos está longe da realidade”.