
O avanço da inteligência artificial tem renovado setores tradicionalmente marcados pela burocracia, com destaque para o meio jurídico. As novas possibilidades abertas pela tecnologia impulsionaram o surgimento e a consolidação das lawtechs, que passaram a modernizar processos, aumentar a eficiência operacional e liberar advogados de tarefas repetitivas, permitindo maior dedicação a atividades estratégicas e intelectuais.
Fundada em 2021 e com sede em Belo Horizonte, a venture builder Aleve LegalTech Ventures nasceu antes dessa revolução, mas já percebia no setor jurídico um terreno fértil para inovação. O objetivo, segundo a Priscila Spadinger, era ajudar startups no estágio de ideação a se desenvolverem e crescerem, até o momento da venda para um estratégico.
Agora, com um histórico de construção de 17 empresas e uma rede de 100 investidores, a Aleve quer levar sua expertise em legaltechs para o venture capital. A empresa está estruturando um Fundo de Investimento em Participações (FIP) no valor de R$ 60 milhões para começar a investir em startups do próprio portfólio e de fora, com foco em soluções para escritórios de advocacia e o judiciário em geral.
“Continuamos com tese exclusiva em legaltechs, mas decidimos criar o FIP porque vínhamos sendo procurados por muitos fundos querendo investir nas nossas startups, e não tínhamos um instrumento que permitisse esse tipo de aporte. Por alguma razão, às vezes é mais fácil conseguir um cheque de milhões do que de R$ 50 mil”, brinca.
Juntas, as startups do portfólio da Aleve registraram um aumento de 80% no valuation em 2025, alcançando R$ 180 milhões no total. O crescimento, segundo Priscila, está diretamente ligado ao uso de IA como ferramenta pelos negócios.
“Antigamente, tudo levava muito mais tempo. Até a startup ficar madura o suficiente eram dois a três anos. Agora, em dois dias a gente consegue começar a testar a solução”, afirma a executiva.
Foi o caso da Cria.AI, legaltech que automatiza a redação de documentos e peças jurídicas em modelo SaaS, já utilizada por mais de 20 mil advogados no país. Em outubro do ano passado, a Aleve vendeu sua participação na startup para a Preâmbulo Tech, apenas dois anos depois da fundação da startup e um ano após a entrada na Aleve.
“A nossa especialidade sempre foi construir empresas para que elas sejam adquiridas por players do setor. A venda faz parte do modelo de negócio”, diz Priscila, destacando que a operação é vantajosa tanto para a startup, quanto para a corporação: “Quem compra não leva só a tecnologia, mas um time pronto e uma operação organizada”.
Venture capital participativo
A entrada no venture capital, porém, não vai mudar o modelo de atuação hands on da Aleve, que manterá sua vertical de venture builder e planeja usar a proximidade com os founders a ser favor. Esse fator será um dos diferenciais da Aleve num mercado que, na visão de Priscila, ainda sofre com a solidão dos empreendedores.
“Aqui eles ganham mentores de altíssimo nível e portas abertas para conversar com todo o nosso ecossistema, que vai além de advogados: inclui executivos, investidores e outros fundadores”, aponta a executiva.
Com a criação do FIP, esse suporte se amplia. “Por termos a veia de venture capital, o empreendedor pode se dedicar mais ao negócio e deixar que a gente traga o dinheiro”, diz.
Segundo ela, dentro da tese jurídica, existem segmentos específicos que oferecem boas oportunidades no Brasil. Priscila destaca o mercado de georreferenciamento – no qual ela acredita que uma das startups da Aleve teria potencial para se tornar o próximo unicórnio. Trata-se da JusMapp, legaltech de inteligência jurídico-territorial que combina geoprocessamento, dados espaciais e IA para mapear riscos e oportunidades em imóveis e territórios, analisando dimensões ambiental, fundiária, minerária, energética e política.
Outras demandas recorrentes do mercado incluem a redução do tempo gasto com pesquisa de jurisprudência e o mapeamento de riscos jurídicos. “Às vezes nem é IA, é automação muito bem feita”, diz Priscila, citando soluções que organizam grandes volumes de processos e entregam relatórios completos para empresas. Ainda assim, ela faz um alerta: “Qualquer IA carrega uma responsabilidade enorme. A responsabilidade final é sempre do advogado. Ainda há muito o que educar o mercado. Tem gente que trata a tecnologia como verdade absoluta”.
Para Priscila, essa maturidade passa também por um novo perfil de profissional. “Falta advogado empreendedor. A maioria das startups que chega até nós vem de advogados, e isso é positivo, porque advogado investe em quem fala de igual para igual. Só consegue empreender de verdade quem entende a dor que está do outro lado.”