
Em seus ensaios escritos na primeira metade do século passado, o filósofo alemão Walter Benjamin foi um dos primeiros a apontar, na cultura moderna, a decadência da narrativa como espaço de troca de experiência e sabedoria, substituída por obras cada vez mais objetivas, em que “as coisas simplesmente acontecem”. Vivemos tempos em que filmes precisam ser entendidos, não sentidos; decodificados, não interpretados. Pois bem: eu vi o tal documentário da Melania Trump, não entendi quase nada, e tudo o que senti foi um misto de tédio e resignação por ser o único a entrar naquela sala de cinema.
Os primeiros dez minutos de Melania funcionam como um resumo involuntário de tudo o que vem depois. A câmera acompanha a então “prestes a ser primeira-dama” saindo de um prédio, entrando em um carro e seguindo rumo a um destino mantido em suspense, ao som de “Gimme Shelter”, dos Rolling Stones. Ela chega a uma pista de aeroporto, onde um jato com “Trump” estampado em letras garrafais a aguarda. Melania sai do carro, sobe no avião, e seguimos observando a protagonista por mais alguns minutos, sem qualquer acontecimento digno desse nome. O jato pousa em Nova York, a trilha muda — agora é “Billie Jean”, de Michael Jackson — e passamos mais um bom tempo vendo Melania dentro de carros, olhando pela janela, com uma expressividade que beira o inexistente. Repito: esses são os primeiros dez minutos do filme.
De certa forma, Melania é um filme em que quase nada acontece — ou, quando acontece, soa meticulosamente coreografado para satisfazer as vaidades da atual primeira-dama. Ambientado nos 20 dias que antecedem a posse de Donald Trump no ano passado, o longa acompanha Melania em situações supostamente “dramáticas”, como provas de vestido ou a escolha da porcelana ideal para o primeiro jantar na Casa Branca.
Essa linha narrativa fútil sustenta mais da metade do filme. Não há acesso aos bastidores mais interessantes daquele período, nem a personagens que ajudariam a contextualizar o momento histórico, como seria de se esperar de um documentário minimamente comprometido com seu tema. Quer dizer: se você tiver interesse em ouvir dois minutos de delírios do estilista megalomaníaco da primeira-dama, isso o filme entrega. Mas estamos a anos-luz de distância de obras que realmente se propõem a revelar os bastidores do poder, como Entreatos, de 2004.
Dirigido por Brett Ratner — persona non grata em Hollywood há cerca de uma década, após diversas acusações de assédio, mas ainda assim um dos cineastas favoritos de Donald Trump por conta de filmes como A Hora do Rush —, Melania se comporta muito mais como propaganda do que como documentário. Tudo é calculado: os espaços onde a câmera pode entrar, os enquadramentos permitidos, o texto da narração em off, lida pela própria Melania. Para ser honesto, se alguém me dissesse que essa narração foi escrita por um ghostwriter e declamada por uma IA treinada para emular sua voz, eu não ficaria surpreso.
Ainda assim, em meio a tanta frieza, surgem raríssimos momentos em que a câmera parece capturar algo minimamente espontâneo. Em uma cena, Melania sai de quadro durante uma prova de roupa, e a câmera permanece com os alfaiates, visivelmente tensos, tentando finalizar os ajustes exatamente como ela exige. Por alguns segundos, parece que estamos vendo algo que não deveria estar no filme. Ingenuidade minha: claro que deveria. A cena existe para reforçar, ainda que de forma torta, a ideia de poder.
Fora um breve (e profundamente constrangedor) momento em que Melania fala sobre sua mãe, em uma visita cuidadosamente encenada a uma igreja para honrar sua memória, o documentário pouco ou nada revela sobre sua trajetória. Não sabemos como a ex-modelo se construiu profissionalmente, tampouco como se deu sua ascensão até se tornar esposa de um dos homens mais poderosos do mundo.
A sensação geral é a de assistir a uma sucessão interminável de imagens de Melania transitando entre compromissos, como se estivéssemos diante de um vlog de luxo, filmado com equipamentos de última geração e orçamento obsceno. Para dar verniz de modernidade ao conjunto, entram os needle drops: “Billie Jean” reaparece, acompanhada por Tears for Fears, Giorgio Moroder, Elvis Presley e outros clássicos. Talvez uma fatia considerável do orçamento de US$ 75 milhões tenha ido mesmo para o licenciamento da trilha sonora.
No terço final, o filme finalmente chega ao dia da posse de Donald Trump. O que poderia render imagens inéditas ou algum tipo de contexto revelador acaba se resumindo a versões levemente mais bem fotografadas do que todo mundo já viu na televisão.
Quando aparece em cena, Donald Trump parece visivelmente desconfortável com a presença das câmeras, olhando para a lente como se a equipe fosse intrusa, como se estivéssemos vendo apenas o que nos é estritamente permitido ver. Qualquer ilusão de documentário, no sentido clássico de observar a realidade como ela é, cai por terra. O que se apresenta aqui é uma encenação: a realidade filtrada, editada e aprovada pelos próprios personagens.
No fim das contas, não chega a surpreender que Melania se pareça mais com propaganda do que com um filme interessado em humanizar suas figuras centrais. Críticos de Donald Trump acusam o longa de já nascer falso, tratado como um presente milionário de Jeff Bezos para agradar o casal Trump e acumular pontos com a administração federal. Como justificativa para a existência de um filme, é das piores possíveis.
Se Melania não se sustenta como documentário, muito menos como cinema, por que alguém deveria assisti-lo? A resposta já aparece nas salas: uma bilheteria fraca, incompatível com seu custo de produção. Se a curiosidade falar mais alto, o melhor é esperar o streaming. Em casa, ao menos, dá para parar no meio sem culpa.
Ainda assim, se você decidir pagar um ingresso e se submeter aos 100 minutos de duração, tudo o que posso dizer tem a ver com uma das sequências mais inexplicáveis e gratuitas do filme. Entre uma visita ao estilista e outra, Melania recebe a esposa de um dos reféns do Hamas. Após ouvir seu relato por alguns minutos, sem alterar minimamente a expressão facial, ela oferece sua demonstração máxima de empatia: “Eu espero que ele não sofra.”