
O Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos, anunciou nesta quarta-feira (28) que manteve inalterada a taxa de juros, interrompendo o ciclo de cortes que vinham sendo feitos desde o ano passado. A decisão confirma um movimento que o mercado já vinha precificando, de que o alívio monetário nos Estados Unidos deve ser mais lento e limitado do que se imaginava.
Na prática, juros elevados nos EUA mantêm o custo do dinheiro alto globalmente. Isso acontece porque a política monetária americana funciona como referência para os fluxos de capital internacionais. Quando o retorno dos títulos americanos segue atrativo, parte do capital que poderia buscar mercados mais arriscados, como o de startups, tende a ficar parado em ativos considerados mais seguros.
Isso significa menos dinheiro sendo destinado ao venture capital e menos fluxo de capital para as bolsas de valores, o que pode afetar também a onda de IPOs que tem tomado Wall Street nos últimos meses.
O Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês) do Fed manteve as taxas de juros dos EUA no intervalo entre 3,5% e 3,75%, em linha com o que o mercado já esperava. O último corte havia sido em 10 de dezembro, de 0,25 ponto percentual. Esse havia sido o terceiro corte consecutivo em 2025, ano que começou com as taxas de juros americanas entre 4,25% e 4,50%.
Embora no fim do ano passado boa parte do mercado esperasse novos cortes ainda no início de 2026, algumas instituições financeiras começaram a rever suas projeções na segunda quinzena de janeiro. Os bancos consideraram novos riscos, como os conflitos geopolíticos na América Latina, além de uma inflação acima dos níveis considerados confortáveis pelo Fed.
Recentemente, UBS e Morgan Stanley projetaram que os primeiros cortes devem ocorrer em junho, enquanto Goldman Sachs e o Barclays estimam que o Fed volte a reduzir os juros apenas em setembro. Do lado mais pessimista, o JPMorgan não apenas retirou sua projeção de cortes de juros em 2026, como passou a estimar que o próximo movimento da autoridade monetária norte-americana será um aumento de 25 pontos-base no terceiro trimestre de 2027.
A pausa no ciclo de cortes nas taxas de juros dos EUA afetam diretamente o ritmo de cortes na taxa básica de juros brasileira, a Selic, hoje em 15%. Historicamente, os juros brasileiros precisam estar abaixo das taxas americanas, refletindo o prêmio de risco associado à situação fiscal do país – mesmo quando o cenário doméstico aponta para desaceleração da inflação.
Com juros altos por mais tempo, o capital fica mais seletivo no Brasil. Fundos de venture capital continuam investindo, mas com critérios mais rígidos, priorizando empresas com fundamentos sólidos, geração de receita mais previsível e maior eficiência operacional. Modelos que dependem de capital abundante para sustentar crescimento acelerado tendem a enfrentar mais dificuldade.
Isso se reflete em rodadas mais longas, negociações mais duras e valuations menos inflados do que nos anos de liquidez farta.
A política monetária do Fed, no entanto, pode mudar este ano com a saída do atual presidente Jerome Powell, cujo mandato expira em maio. A expectativa é que o próximo chair da autoridade monetária seja um nome mais alinhado ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que tem pressionado por cortes mais rápidos e profundos.