
Violões, baterias e pianos raramente aparecem em discussões sobre investimento. A BATS, no entanto, decidiu apostar em um segmento pouco explorado no Brasil ao transformar instrumentos musicais em uma classe de ativos com retorno mensal, lastro físico e potencial de escala nacional.
Fundada em 2021 pelo casal de engenheiros Luíza Massari e Leonardo Nocito, a startup opera um serviço de aluguel por assinatura de instrumentos musicais. O público é formado, em sua maioria, por músicos amadores e estudantes, além de pais e mães de adolescentes que estão começando a aprender a tocar.
“O Brasil é um país muito musical, mas o acesso à música é caro e restrito”, afirma Leonardo. A proposta é permitir que as pessoas experimentem a música sem o compromisso da compra, oferecendo uma alternativa mais acessível – especialmente relevante para famílias que ainda estão testando o interesse dos filhos pelos instrumentos.
Foi a partir dessa lógica que a BATS estruturou um modelo que conecta acesso à música e investimento em ativos com lastro real.
Instrumentos musicais como classe de ativos
O modelo exige capital para a aquisição dos instrumentos que entram em circulação. Para viabilizar a expansão do acervo, a BATS estruturou uma carteira de ativos de instrumentos musicais, na qual pessoas físicas podem investir e receber, em média, 2% de retorno mensal sobre o valor aplicado.
“O investidor que se interessa por esse modelo com lastro em ativo real compra uma carteira de instrumentos. A BATS monta essa carteira e divide a rentabilidade: em geral, metade fica com a empresa e metade com o proprietário dos ativos”, explica Leonardo.
Segundo o CEO, o modelo vem ganhando tração e deve assumir ainda mais relevância nos próximos meses. “O investimento por pessoa física está dando muito certo, e a ideia é embarcar com tudo em 2026”, diz. A companhia trabalha no desenvolvimento de um produto financeiro estruturado, lastreado nos instrumentos musicais, que deve ser lançado em breve.
Nos últimos 18 meses, a startup distribuiu cerca de R$ 988 mil em rendimentos e captou R$ 2 milhões nesse modelo. Os recursos se somam aos R$ 465 mil levantados no início de 2025 por meio de uma rodada de crowdfunding realizada na plataforma do MB | Mercado Bitcoin.
A origem do modelo
A ideia da BATS nasceu dentro de casa, literalmente. Amantes de música, Luíza e Leonardo se viram cercados por instrumentos parados, pouco tempo para tocar e uma pergunta recorrente: por que é tão difícil ter acesso à música no Brasil? Após uma temporada na Malásia, onde Luíza cursou um MBA e Leonardo trabalhou em uma startup de e-commerce, o casal decidiu fazer uma renda extra alugando os próprios instrumentos para amigos.
Com o tempo, outras pessoas passaram a deixar seus equipamentos no acervo para locação. O site cresceu, o modelo se estruturou e a iniciativa informal deu origem à BATS.
Hoje, a startup reúne quase 2,5 mil instrumentos no acervo, dos quais cerca de 1,8 mil estão alugados. A empresa opera em quatro capitais brasileiras – São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba e Belo Horizonte – e permite que os clientes experimentem diferentes instrumentos ao longo do tempo.
Os planos de assinatura variam de acordo com o tipo de equipamento, com valores entre R$ 50 e R$ 400 por mês, em contratos trimestrais, semestrais ou anuais. Os assinantes também têm acesso a condições especiais para aulas online da Musixe, plataforma de educação musical parceira da startup.
Toda a jornada do cliente da BATS acontece online, desde a escolha do instrumento, à assinatura, entrega e devolução. A startup mantém operação logística própria em São Paulo e utiliza parceiros terceirizados nas demais cidades onde atua.
Assumir a logística foi uma decisão estratégica. “O instrumento musical não pode ser armazenado de qualquer jeito. Ele vai pré-montado e exige cuidado”, afirma Leonardo. Além da entrega, o cliente também pode retirar o instrumento em um ponto físico da BATS em cada cidade.
Após o período de uso, há a opção de devolução ou compra do equipamento. Nesse caso, parte do valor pago ao longo da assinatura é abatido do preço final, o que permite uma decisão mais segura após o período de experimentação.
Próximos passos
A BATS faturou R$ 2,9 milhões em 2025 e opera em break-even. “A conta fecha, mas seguimos reinvestindo para crescer”, afirma o fundador. Para 2026, a projeção é alcançar R$ 6 milhões em faturamento.
O próximo marco da companhia é ampliar o acervo para 5 mil instrumentos até dezembro deste ano e chegar a 10 mil em 2026, inicialmente nas cidades onde já atua. A expansão para novas praças, como Brasília e Porto Alegre, faz parte do plano de longo prazo, mas não está no radar imediato.