
Durante muito tempo, o caminho para escalar uma startup parecia relativamente direto: um mercado grande, acesso a capital e uma boa tecnologia eram suficientes para sustentar a ambição de ser global. Hoje, esse potencial permanece, mas sob outro contexto. Com o amadurecimento do ecossistema, disputas por tecnologia, infraestrutura, circulação de dados e a origem do capital passaram a pesar de forma concreta nas decisões de investimento, estratégia e no crescimento das empresas de tecnologia, exigindo leituras mais sofisticadas do cenário internacional.
Segundo Marcio Sette Fortes, economista e professor de Relações Internacionais do Ibmec-RJ, a geopolítica saiu de um papel periférico e passou a integrar o centro das decisões econômicas e empresariais, além da análise de riscos e oportunidades. “A geopolítica deixou de ser uma área acessória e hoje é fundamental nas decisões das organizações. É preciso cruzar dados, avaliar tendências e, a partir disso, estimar cenários futuros para o mercado”, afirma.
Na avaliação do professor, esse movimento reflete um contexto internacional marcado por maior instabilidade e menor previsibilidade. Disputas comerciais, tensões diplomáticas e mudanças regulatórias passaram a interferir diretamente no cálculo de risco feito por empresas e investidores, afetando desde o custo de capital até o acesso a mercados.
Nesse ambiente, startups – especialmente as que têm ambição internacional – passam a ser impactadas por fatores que vão além do produto ou do modelo de negócios. Disputas comerciais, diplomáticas e regulatórias afetam o custo de capital, a previsibilidade e o acesso a mercados, impondo novas barreiras ao crescimento de empresas de tecnologia.
Dados do Fórum Econômico Mundial reforçam esse diagnóstico. O confronto geoeconômico aparece como o principal risco global para 2026, à frente de conflitos entre Estados, eventos climáticos extremos, polarização social e desinformação. No relatório “The World Economic Forum’s Global Risks Report 2026”, metade dos entrevistados prevê um mundo turbulento nos próximos dois anos, enquanto 40% esperam, no mínimo, um cenário instável. Apenas 9% apostam em estabilidade e 1% em calmaria.
Quando economia e geopolítica se encontram
Na avaliação de Marcelo Nakagawa, professor de Inovação, Empreendedorismo, Intraempreendedorismo e Negócios Digitais do Insper, o contexto geopolítico se soma a uma mudança estrutural no ambiente econômico global.
Segundo ele, o primeiro choque sentido pelas startups não foi político, mas econômico. “Houve uma época em que o custo era muito baixo em vários países. Conforme nos aproximamos da pandemia, houve aumento da inflação nos Estados Unidos, no Brasil e em outras regiões, e a taxa de juros das principais economias passou a subir”, afirma.
“Com isso, o dinheiro que antes era muito barato e circulava de uma forma mais livre começou a ficar ilhado”, diz Marcelo. Para as startups, isso representou um momento especialmente difícil de captação de recursos, diante de investidores mais cautelosos e seletivos, justamente quando o cenário global já começava a se tornar mais incerto.
O aperto financeiro coincidiu com tensões geopolíticas que vinham se acumulando há décadas. “Estamos falando dos últimos 25 a 30 anos em relação à emergência da China. Isso já vinha chamando atenção, inclusive durante o governo Biden, mas o que observamos agora é um acirramento maior, muito em função do segundo governo Trump”, afirma.
Para o professor, esse contexto faz com que decisões antes essencialmente técnicas passem a carregar implicações estratégicas. No campo da inovação, isso se manifesta de forma concreta no acesso a recursos e insumos. Segundo o especialista, a disputa por terras e minerais críticos – essenciais para a produção de baterias, semicondutores e chips – cria novas zonas de influência e amplia as tensões entre países.
Marcelo destaca ainda que a inovação digital depende hoje de cadeias produtivas e infraestruturas altamente sensíveis do ponto de vista geopolítico, como semicondutores, cloud, data centers e inteligência artificial. Qualquer ruptura nesses elos pode comprometer a capacidade de empresas de tecnologia escalarem globalmente, tornando sua expansão mais complexa e menos previsível.
A centralidade dos Estados Unidos
Do ponto de vista dos investidores, a geopolítica passou a integrar de forma mais explícita a análise de risco. Alvaro Filpo, founding partner do Fabrica Ventures – fundo sediado em Palo Alto, com investidores brasileiros e foco exclusivo em startups late stage -, afirma que essa mudança não ocorreu de forma abstrata, mas a partir de deslocamentos concretos de capital.
Segundo ele, até 2023, cerca de 50% a 55% dos investimentos globais em venture capital aconteciam no mercado norte-americano. Nos últimos anos, esse movimento se intensificou, impulsionado sobretudo pela concentração de aportes em inteligência artificial. “A IA é extremamente capital intensiva, tanto no desenvolvimento dos modelos quanto na infraestrutura, como data centers e semicondutores. Esse é um dinheiro que está entrando e ficando nos Estados Unidos”, afirma Alvaro.
Ele observa que a geopolítica se manifesta de forma especialmente clara na retração dos investimentos internacionais na China. “Havia fundos norte-americanos e capital institucional de diversas partes do mundo alocados na China, mas isso acabou. Esse dinheiro secou”, pontua. Segundo Alvaro, a maior interferência estatal e a insegurança institucional elevaram a percepção de risco, afastando investidores de um mercado que, por anos, se consolidou como o segundo maior global em investimentos de venture capital, atrás apenas dos Estados Unidos.
Esse duplo movimento – retração de capital em determinados mercados e concentração em setores e geografias específicas – reforça a centralidade do mercado norte-americano no ecossistema global de inovação. “Todas as grandes empresas de IA estão nos Estados Unidos”, afirma Álvaro, citando companhias como OpenAI e Anthropic, além de empresas de infraestrutura de data centers.
Para as startups, especialmente as que operam com tecnologias de ponta, esse cenário torna as decisões estratégicas ainda mais sensíveis. Onde operar, onde concentrar infraestrutura e como acessar capital passam a depender não só do modelo de negócio, mas também do contexto geopolítico em que a empresa está inserida.
Apesar do avanço de agendas de soberania de dados, regulação digital e disputas por tecnologia, os especialistas ouvidos pelo Startups não veem o fim da inovação global. O que muda, segundo eles, é o grau de previsibilidade e neutralidade do ambiente.
Para fundadores e investidores, acompanhar indicadores políticos, regulatórios e econômicos tem se tornado tão relevante quanto analisar métricas tradicionais de mercado. Em 2026, a inovação segue global, mas cada vez mais condicionada ao contexto geopolítico em que está inserida.