
Se nos tempos de abundância do venture capital brasileiro, ver unicórnios por aqui era bem menos incomum, a realidade pós-inverno do VC é bem diferente – em 2025, mesmo com megarodadas como a da Omie, nenhuma empresa nacional atingiu o patamar bilionário. Para a Endeavor, porém, o Brasil ainda tem o potencial de criar futuros unicórnios ou decacórnios, só que o caminho até lá terá que ser repensado.
Para a organização dedicada ao investimento e fomento do ecossistema de inovação, que completou 25 anos no Brasil em 2025, o momento pede uma nova estratégia: mais foco em geração de valor de longo prazo, e estímulo a negócios com ambição global e eficiência desde o começo.
De acordo com a diretora geral da Endeavor no Brasil, Maria Teresa Fornea — conhecida no ecossistema simplesmente como Tetê — não se trata de abandonar a visão de criar futuros unicórnios brasileiros que a organização “cantou” quando Anderson Thees assumiu o comando da organização em 2024 e em outubro passado passou a batuta para a executiva.
“O momento exige maturidade, pragmatismo e uma leitura mais sofisticada do que realmente constrói empresas relevantes em escala global. A discussão hoje é menos sobre marcação de mercado e mais sobre geração de valor consistente”, avalia a gestora, que se destacou no mercado à frente da Bcredi, fintech que foi comprada pela Creditas em 2021.
Segundo ela, o Brasil já provou que consegue criar startups de alto crescimento, mas ainda enfrenta o desafio de transformar esses negócios em companhias globais, com presença internacional sólida e relevância além do mercado doméstico.
Conforme dados da própria Endeavor, o Brasil ainda tem dificuldades em atrair investimentos no âmbito global, concentrando cerca de US$ 860 bilhões – algo em torno de 0,7% de todo o market cap nas bolsas do mundo. Para completar, uma pesquisa feita pela organização junto ao seu próprio ecossistema mostrou que o maior desafio dos founders (37%) é a expansão para novos mercados.
Esse diagnóstico orienta as prioridades da Endeavor para os próximos anos. Para Tetê, o objetivo é ajudar os negócios que passaram da “zona de arrebentação” que tivemos nos últimos anos a encontrarem seus próximos passos. “Tem muita startup que tomou medidas importantes para sobreviver em um mercado difícil, mas agora precisam entender como retomar o crescimento”, avalia.
Na avaliação da executiva, o período de retração do venture capital também funcionou como um filtro natural. “Sobreviveram empresas que aprenderam a crescer com mais eficiência, com engenharia financeira mais sofisticada e decisões melhores sobre capital. Muitas viram que nem sempre uma nova rodada é a melhor resposta”, dispara.
Juniors x seniors
A Endeavor, que em 2025 completou 25 anos no Brasil, reúne hoje 450 empreendedores, cujas empresas geram cerca de R$ 29 bilhões em receita, e tem desde nomes ainda jovens como a fintech Bull e a startup de mobilidade Vammo, passando por unicórnios como Creditas, QI Tech e Neon, assim como aquelas que estão há algum tempo na “sala de espera” para alcançar o bilhão em valuation, como Omie, Flash, Blip e Tractian.
Nesse cenário, a estratégia é dobrar sua aposta em comunidade, com fundadores de empresas já maduras ajudando outras a atingirem o mesmo patamar. Ao mesmo tempo, Tetê acredita que uma nova onda de startups pode surgir com vantagens estruturais em relação às gerações anteriores. Negócios já nascem globais, com produtos desenhados para mercados internacionais e cada vez mais apoiados em inteligência artificial.
“Tenho convicção de que os novos casos vão ser mais rápidos. A ambição global precisa estar desenhada desde o começo”, afirma Tetê, apontando a inteligência artificial como um grande catalisador de crescimento.
Aliás, para estar em sintonia com o hype, a Endeavor planeja expandir e diversificar seu portfólio com foco explícito em IA, entendendo a tecnologia como transversal a diversas verticais. Para 2026, a Endeavor estruturou sua agenda de estudos e conteúdos em três grandes frentes: o DNA do empreendedorismo de alto impacto no Brasil, o mapeamento do ecossistema de fomento (com atenção especial à IA) e o posicionamento das startups brasileiras no cenário global.
Segundo a diretora, esse olhar em novas direções também se volta a uma lacuna importante no mercado local, como a baixa representatividade tecnológica em setores estratégicos como o agro. “Queremos identificar esses gaps e agir daqui para frente. O Brasil já gera muito valor nessas áreas, mas ainda falta transformar isso em empresas escaláveis e globais”, pontua.
No fim, a aposta da Endeavor é menos sobre prever quantos unicórnios ou decacórnios surgirão e mais sobre criar as condições para que eles existam. “O nosso papel é ajudar a abrir caminho para que as próximas gerações cheguem mais longe e mais rápido”, finaliza Tetê.