EITA
Clésio Souza, cofundador e diretor de marketing da EITA (Elevar a Inteligência a Treino de Autopercepção) | Crédito: Divulgação

Em um cenário de crescente demanda por soluções de saúde emocional, a mental tech EITA (Elevar a Inteligência a Treino de Autopercepção) avança para uma nova etapa de crescimento. Em exclusividade ao Startups, a companhia anuncia a abertura de uma rodada Série A, a ser concluída nos próximos meses, com o objetivo de escalar sua mentora virtual, expandir a atuação no mercado corporativo e buscar a internacionalização.

Fundada há cerca de um ano, a EITA tem origem em um projeto idealizado anos antes pela neurocientista Anaclaudia Zani, a partir de mais de 20 anos de atuação em psicologia e consultoria, com foco no atendimento a executivos e empresários. A virada ocorreu com o avanço dos modelos de inteligência artificial generativa, que viabilizaram a escala de uma proposta até então restrita ao atendimento individual. A startup nasce como uma mentora virtual no WhatsApp, estruturada para conduzir diálogos orientados ao autoconhecimento e à tomada de decisão.

Cinco meses após a criação da empresa, os fundadores estruturaram um MVP, um plano de negócios e fecharam a primeira rodada de investimento. O seed round, feito exclusivamente com investidores-anjo da área da saúde, levantou R$ 1 milhão, em dezembro de 2024, a uma avaliação de R$ 14 milhões.

“Era um momento desafiador, porque ainda estávamos no início da trajetória, mas consideramos a rodada bem-sucedida, com nove dos 13 pitches topando investir”, afirma Clésio Souza, cofundador e diretor de marketing da EITA. Segundo ele, o capital foi decisivo para tirar o produto do papel, iniciar campanhas de mídia e estruturar o trabalho de conscientização em torno de uma solução ainda nova para o público brasileiro.

Estruturando a série A

A rodada mira uma captação entre R$ 5 milhões e R$ 10 milhões para sustentar o ritmo atual de crescimento da base, hoje com 30 mil usuários ativos. A companhia cresce a cerca de 10 mil novos usuários por mês e registra, em média, 190 mensagens mensais por usuário, com taxa de retorno de 86%.

Na Série A, a EITA busca fundos de investimento e investidores-anjo qualificados. Segundo Clésio, o foco da Série A está menos na validação da proposta e mais na leitura de métricas e ganho de tração. Além do alto nível de engajamento, a empresa reúne centenas de relatos de usuários que apontam mudanças de comportamento e melhoria na qualidade de vida.

A companhia também negocia contratos massificados com programas de benefícios, seguradoras e grandes empresas, com potencial de ampliar a distribuição da EITA para centenas de milhares de pessoas, afirma o executivo. A estratégia é ampliar a distribuição da EITA em larga escala, com potencial de alcançar centenas de milhares de pessoas, afirma o executivo.

“Neste momento, nosso principal KPI envolve disseminar o acesso ao produto”, diz Clésio. “Mais do que rentabilizar rapidamente, queremos garantir que as pessoas tenham acesso a esse tipo de suporte.”

A rodada consolida a EITA como uma plataforma de saúde emocional baseada em inteligência artificial, com soluções desenhadas para indivíduos, empresas e profissionais de psicologia, ampliando o escopo de atuação além do produto original.

Modelo de negócios

O principal produto da empresa é a Mentora Virtual, uma inteligência artificial de suporte emocional que funciona diretamente no WhatsApp. Diferentemente de IAs generalistas, a EITA foi concebida para lidar com micromomentos do cotidiano, como conflitos no trabalho, estresse, ansiedade ou situações de reatividade emocional.

A metodologia é baseada em princípios da terapia cognitivo-comportamental (TCC). A proposta é menos centrada em escuta passiva e mais orientada à reflexão e à resolução prática de problemas. Na prática, a mentora virtual conduz o usuário por sequências de perguntas que ajudam a organizar pensamentos, reduzir impulsos reativos e avançar para soluções concretas diante de desafios emocionais e profissionais.

A empresa reforça que a mentora virtual não faz diagnósticos nem substitui acompanhamento profissional. Pelo contrário: a ferramenta foi desenhada para atuar de forma complementar, inclusive incentivando os usuários a manterem ou buscarem terapia humana.

Com planos de assinatura, o acesso à EITA parte de R$ 19,90 no plano anual, com atendimento disponível 24 horas por dia, sete dias por semana, voltado ao suporte emocional e à organização de desafios do cotidiano.

Além do B2C, a EITA vem ampliando sua atuação no mercado corporativo com o lançamento da Normalyze, uma solução voltada a empresas que precisam se adequar à NR-1, norma que passa a exigir a identificação e o gerenciamento de riscos psicossociais no ambiente de trabalho.

A Normalyze funciona como um agente de IA treinado com informações específicas de cada empresa – como cultura, estrutura organizacional e contexto interno – e realiza o mapeamento de riscos de saúde mental diretamente pelo WhatsApp. A partir das interações com os colaboradores, a plataforma gera indicadores anônimos que permitem ao RH visualizar padrões, principais queixas e níveis de risco, sem expor indivíduos ou pequenos grupos.

“É uma forma eficiente de cumprir a NR-1 e, ao mesmo tempo, oferecer um benefício real de saúde mental aos colaboradores”, explica o cofundador.

A terceira frente, com lançamento previsto para os próximos meses, é voltada a psicólogos. A proposta é permitir que cada profissional tenha uma IA personalizada como suporte entre sessões, ampliando a continuidade do atendimento e oferecendo ao paciente um canal de apoio nos intervalos da terapia.

O crescimento da EITA acontece em meio a mudanças anunciadas pela Meta, controladora do WhatsApp, que podem impactar diretamente o uso de inteligência artificial na plataforma. Pelas novas regras, ferramentas externas de IA teriam atuação restrita a funções de atendimento ao cliente, sem poder operar como assistentes completos dentro do aplicativo. A política estava prevista para entrar em vigor em janeiro de 2026, mas teve seus efeitos suspensos no Brasil enquanto o Cade apura possíveis práticas anticoncorrenciais.

Diante desse cenário, a EITA avalia caminhos para mitigar riscos associados à dependência de plataformas de terceiros, em um movimento comum entre startups de IA que operam em canais proprietários de grandes big techs.

“O WhatsApp deixou de ser apenas um produto e se tornou o principal meio de comunicação dos brasileiros”, afirma Clésio. “Estamos nos preparando para atuar em outros canais, mas vemos com pesar a possibilidade de restrições, porque acreditamos que esse modelo amplia o acesso. Há muitas pessoas que não usariam o app do Gemini ou ChatGPT, mas se sentem confortáveis interagindo pelo WhatsApp”, conclui.