
Após vivenciar os impactos da menopausa e enfrentar a falta de informação e acolhimento sobre o tema, a empreendedora Rossana Caetano criou a Raquel Menopausa, uma startup de saúde feminina que atua em um mercado ainda pouco explorado no Brasil. Gratuito e disponível em oito idiomas, o aplicativo combina tecnologia e ciência para apoiar mulheres no climatério, fase marcada por sintomas físicos, emocionais e por um forte estigma social.
“Eu estava com 47 anos, sentindo todos os sintomas, com os hormônios lá embaixo, e os médicos dizendo que estava tudo normal”, conta Rossana. “Eu não sabia o que estava acontecendo.”
A Raquel Menopausa foi fundada por Rossana em parceria com o ginecologista André Vinícius, especialista em saúde da mulher durante a menopausa e o climatério. Lançado oficialmente em abril de 2025, após a validação do MVP em 2024, o aplicativo já soma mais de 60 mil downloads, com cerca de 40 mil acessos diários e altos índices de engajamento entre as usuárias.
Da academia às startups
Formada em turismo, Rossana construiu grande parte de sua trajetória profissional na academia. Durante cerca de 20 anos, atuou como professora universitária e, a partir de 2010, passou a estudar e lecionar sobre inovação e empreendedorismo, em um período em que o tema de startups ainda era pouco difundido no Brasil.
A primeira experiência como empreendedora veio em 2011, quando começou a desenvolver um projeto voltado à saúde mental. A iniciativa evoluiu ao longo dos anos e deu origem a um aplicativo Cíngulo. Em 2018, o projeto foi acelerado e, pouco depois, alcançou a marca de 1,5 milhão de downloads orgânicos.
Após a separação do casal fundador, no período pós-pandemia, Rossana deixou a sociedade e iniciou uma nova fase profissional, ao mesmo tempo em que vivenciava de forma intensa os efeitos da menopausa. Mesmo diante de queixas físicas e emocionais recorrentes, ela relata ter recebido respostas que minimizavam sua condição, experiência comum entre mulheres nessa fase da vida.
A ideia da Raquel Menopausa surgiu em um encontro casual durante um evento de networking, quando Rossana conheceu André Vinícius. O médico buscava estruturar uma plataforma voltada à menopausa e encontrou na empreendedora a parceira para transformar a proposta em um aplicativo.
A partir daí, foram cerca de três anos de pesquisa, desenvolvimento e validação até o lançamento. O processo incluiu estudos científicos, testes com usuárias e a construção de uma solução que unisse tecnologia e acolhimento.
Tecnologia com base científica
A Raquel Menopausa se apresenta como uma plataforma gratuita de apoio e informação. O aplicativo permite o acompanhamento de mais de 100 sintomas físicos, emocionais e comportamentais, além do registro de hábitos e do acesso a conteúdos científicos traduzidos para uma linguagem acessível.
Um dos diferenciais está no uso de inteligência artificial treinada exclusivamente com base em pesquisas científicas. Segundo Rossana, a tecnologia é desenhada para oferecer orientações personalizadas e sinalizar limites de conhecimento, evitando respostas sem evidência. “Quando nossa IA não tem dados suficientes para responder a uma pergunta, ela diz que não sabe, ao invés de dar uma resposta imprecisa. Todo o conteúdo que está no app tem base científica. Nada é achismo.”
O app também gera relatórios em PDF com o histórico de sintomas e comportamentos, que podem ser utilizados pelas usuárias em consultas médicas.
Mais do que uma ferramenta de monitoramento, a Raquel Menopausa aposta na construção de comunidade. No aplicativo, mulheres compartilham experiências, dúvidas e dores que raramente aparecem em ambientes digitais tradicionais. Segundo a startup, o tempo médio diário de uso supera 20 minutos. “As mulheres se expõem, conversam, se acolhem”, diz Rossana.
Etarismo e invisibilidade
Ao direcionar sua solução a mulheres a partir dos 40 anos, a Raquel atua em um público frequentemente ignorado pelo ecossistema de inovação. Para Rossana, a menopausa escancara um preconceito estrutural contra o envelhecimento feminino.
“A mulher mais velha é vista como alguém que não serve mais. Não serve para reproduzir, está velha, está chata. No entanto, quando a menopausa chega, muitas ainda têm metade da vida pela frente”, afirma.
Segundo a empreendedora, o tabu também se manifesta dentro do próprio sistema de saúde. “Você chega no médico e escuta que está tudo normal, quando não está. A menopausa é muito individual, cada mulher sente de um jeito.”
Além de tratar sintomas, a startup aposta em um papel educativo e preventivo, levando informação para que mulheres reconheçam sinais precoces do climatério e tenham mais autonomia sobre o próprio corpo.
No Brasil, quem atua no mesmo segmento é a Plenapausa, startup criada em 2021 com a missão de levar informação, cuidado e tratamento para mulheres a partir da menopausa.
Modelo de negócio e próximos passos
Embora a startup esteja estruturada no modelo B2C, a monetização da Raquel Menopausa ocorre por meio de publicidade e patrocínios de marcas alinhadas ao propósito da plataforma, especialmente dos setores de saúde, bem-estar e suplementação. O negócio é financiado com capital próprio dos fundadores.
A expectativa é abrir a primeira rodada de investimentos no segundo semestre de 2026, com planos de expansão e internacionalização.
Um dos benchmarks citados pela fundadora é a Flo, aplicativo criado na Inglaterra para o monitoramento do ciclo menstrual, da ovulação e da gravidez. A startup britânica tornou-se o primeiro app de saúde feminina totalmente digital a alcançar o status de unicórnio, após captar mais de US$ 200 milhões em 2024 em sua rodada série C, liderada pela General Atlantic.
Atualmente, o foco da Raquel Menopausa está no aprimoramento do produto, especialmente da inteligência artificial, e na ampliação de parcerias com marcas. A startup também avalia a inclusão de um catálogo de profissionais de saúde e serviços especializados no aplicativo, com atualizações ao longo de 2026.