Crédito ganha peso enquanto o equity perde espaço nos investimentos em startups (Foto: ChatGPT)
Crédito ganha peso enquanto o equity perde espaço nos investimentos em startups (Foto: ChatGPT)

Os investimentos em startups brasileiras seguiram em retração em 2025, mas os dados mais recentes mostram que o ecossistema segue ativo, ainda que operando sob uma lógica diferente dos ciclos anteriores. Segundo a edição anual do relatório Ecossistema de Inovação Aberta & CVC no Brasil, produzido pela Sling Hub em parceria com a ABCVC e a Alya Ventures, o mercado ficou menos orientado a equity e mais sustentado por operações de crédito.

Ao todo, startups brasileiras captaram US$ 4,5 bilhões em 459 rodadas ao longo do ano. Quando o recorte considera apenas rodadas de equity – excluindo FIDCs, dívida e estruturas híbridas – o volume cai para US$ 1,74 bilhão, o equivalente a cerca de 39% do total, distribuído em 412 operações. O contraste ajuda a explicar por que, apesar do número elevado de rodadas, o capital efetivamente dilutivo ficou mais concentrado e seletivo.

As operações via FIDC somaram US$ 2,38 bilhões em 27 rodadas, enquanto a dívida tradicional respondeu por US$ 161 milhões em 15 operações. Já as rodadas híbridas – que combinam equity com crédito, sem detalhamento da proporção entre as modalidades – totalizaram US$ 32,7 milhões em apenas duas transações.

Na prática, isso significa que mais da metade do volume divulgado no ano está associada a estruturas de crédito, concentradas em poucos mega-deals. Com isso, os números totais inflam uma percepção que não reflete o apetite real por risco no venture capital tradicional.

Mais rodadas, menos equity relevante

Mesmo com 412 rodadas de equity registradas em 2025, o volume investido aponta para tíquetes menores e maior fragmentação do capital. O cenário reflete um mercado mais cauteloso, com investidores priorizando preservação de caixa, menor exposição a apostas de longo prazo e maior foco em negócios mais maduros.

A retração foi mais intensa nas rodadas early stage. Já os aportes a partir da Série B concentraram a maior parte do capital de equity, reforçando a preferência por startups com modelos já validados, geração de receita mais previsível e menor dependência de capital recorrente.

Entre os setores que mais concentraram recursos – especialmente nas operações de crédito e FIDC – as fintechs B2B seguem como protagonistas. O dado reforça um viés mais defensivo do capital, que privilegia soluções com menor volatilidade, maior previsibilidade de retorno e aderência a um ambiente de juros elevados.

Chama atenção que, apesar da centralidade da inteligência artificial no discurso do mercado, a maioria das maiores rodadas do ano não esteve diretamente ligada a soluções de IA. O movimento sugere uma postura mais pragmática por parte dos investidores, focada em eficiência financeira e geração de caixa no curto e médio prazo.

No Brasil, as cinco maiores rodadas de 2025 foram estruturadas via FIDC. O maior aporte exclusivamente via equity foi para a Starian, empresa de softwares verticais que nasceu de um spinoff da Softplan. A companhia levantou cerca de R$ 640 milhões (US$ 116 milhões) em uma rodada liderada pela General Atlantic, com foco na expansão para novos setores por meio de M&As.

A Creditas também aparece entre os destaques do ano. A fintech captou US$ 108 milhões em uma rodada Série G, que avaliou a empresa em US$ 3,3 bilhões – abaixo do valuation de US$ 4,8 bilhões registrado em 2022. O investimento foi liderado pelo grupo europeu Andbank, que possui mais de US$ 30 bilhões sob gestão.

CVCs ganham peso

O Corporate Venture Capital teve papel relevante no ecossistema em 2025. Embora representassem apenas 10% do número total de operações, rodadas com participação corporativa responderam por 46% do volume investido no ano.

Esse percentual, no entanto, é fortemente influenciado por grandes operações estruturadas via FIDC, dívida e outras modalidades não dilutivas. Por isso, não deve ser interpretado como um aumento proporcional do apetite dos CVCs por equity.

Os dados indicam uma atuação mais concentrada e estratégica das corporações, com foco em menos deals, tíquetes maiores e maior alinhamento a teses de negócio específicas. Em vez da pulverização de cheques em rodadas dilutivas, o capital corporativo vem sendo usado como instrumento de integração operacional, eficiência financeira e captura de valor no médio e longo prazo.