
Prestes a completar seu primeiro ano de operação no Brasil, a Juspay vive um momento interessante. Na semana passada, a fintech de soluções de pagamentos anunciou uma rodada Série D de US$ 50 milhões, liderada pela WestBridge Capital, com foco declarado em expansão internacional. E o Brasil, segundo a própria liderança da companhia, está no centro desse movimento.
“A jornada no Brasil tem sido muito boa para nós. Acreditamos que é um mercado extremamente importante, tanto pelos desafios quanto pelas oportunidades”, afirma Shakthidar Bhaskar, diretor de expansão da Juspay, em conversa exclusiva com o Startups.
Segundo o executivo, a nova injeção de capital ajudará a empresa a manter o plano de investimentos anunciado quando chegou ao país. Na época, a companhia destacou que aportaria US$ 10 milhões para consolidar sua presença no mercado brasileiro e latino-americano.
Esse compromisso, segundo Shakthidar, segue de pé. “Esse novo round é principalmente para nossa expansão global, para levar nossas soluções a mercados onde vemos potencial. E o investimento no Brasil vai continuar”, diz.
Sustentando essa visão otimista de crescimento no país, a leitura do executivo é que o Brasil reúne uma combinação rara de escala, complexidade regulatória e sofisticação tecnológica, especialmente no que diz respeito a pagamentos em tempo real — ou seja, no contexto brasileiro, o Pix.
“Com os novos fluxos de Pix e os avanços que estão acontecendo na tecnologia de pagamentos no Brasil, o mercado é muito interessante para nós”, afirma Shakthidar. A estratégia passa por replicar no país aprendizados acumulados em outros mercados regulados e de alta complexidade. “Tudo o que construímos, os produtos complexos e os mercados regulados em que operamos, queremos fazer de forma semelhante no Brasil e oferecer o mesmo nível de sucesso aqui.”
Atualmente, a operação brasileira da Juspay está sediada no Cubo, em São Paulo, com uma equipe de cerca de dez pessoas, focada principalmente em produto e desenvolvimento de negócios. A engenharia segue majoritariamente baseada na Índia, mas há planos de expansão. “Estamos em uma boa posição para escalar neste ano. Vamos aumentar o time no Brasil”, afirma Shakthidar, sem cravar números, mas destacando a tração crescente no mercado.
Do ponto de vista comercial, a Juspay já atende grandes nomes globais com operação no país, como Amazon e Google, mas também começa a avançar sobre clientes locais. “Já estamos trabalhando com alguns nomes brasileiros e testando nossos fluxos. Devemos fazer alguns lançamentos nos próximos meses”, afirma o executivo, citando a Latam Pass como um dos cases de destaque junto a players locais.
Diferenciais e o Pix
No centro da operação brasileira da Juspay está a oferta de orquestração de pagamentos, um segmento que, segundo o diretor da fintech, ganha cada vez mais relevância em um ecossistema marcado pela fragmentação de adquirentes e pela multiplicação de métodos de pagamento. “À medida que os sistemas evoluem e a diversidade aumenta, surge uma necessidade clara de orquestração. Esse será nosso core no Brasil”, explica.
O diferencial da Juspay, segundo ele, está na obsessão pela experiência do usuário. “Sempre fomos muito focados na experiência. Esse é um dos nossos principais diferenciais.” Essa abordagem se conecta diretamente à evolução do Pix e, mais recentemente, aos fluxos de Open Finance.
Para Shakthidar, o Pix deve gradualmente sair de jornadas baseadas em QR Code, com múltiplas etapas, para experiências de um clique com autenticação biométrica — um divisor de águas. “Remover fricção e melhorar a experiência do usuário é exatamente no que nos especializamos. Pretendemos investir de forma contínua nesses fluxos e trazer ao Brasil uma solução diferenciada de checkout”, pontua.
Com essa proposta, a Juspay passa a disputar espaço em uma “arena” cada vez mais concorrida. Outras empresas, como a Malga, também estão olhando nessa direção. A Malga, inclusive, foi recentemente investida pela Totvs e tinha planos de fechar 2025 com um volume total de pagamentos processados na casa de R$ 15 bilhões. Já a Juspay processa globalmente algo em torno de US$ 1 trilhão em TPV — embora não abra números regionais.
Ainda assim, conforme frisa Shakthidar, um dos principais trunfos da Juspay no Brasil está justamente na familiaridade com sistemas de pagamentos instantâneos. Na Índia, a empresa atua desde o início no desenvolvimento de soluções sobre o UPI (Unified Payments Interface), sistema lançado em 2014 ou 2015 e hoje dominante no país.
“O UPI é o equivalente ao Pix na Índia. Trabalhamos nele desde o começo, em parceria com reguladores”, explica Bhaskar. Quando a Juspay passou a estudar o Pix, as similaridades ficaram evidentes. Essa bagagem cria, segundo o executivo, uma vantagem competitiva importante.
“Conseguimos traçar paralelos e trazer muitos aprendizados do UPI para a construção dos fluxos de Pix. Vimos a jornada do UPI e acreditamos que algo muito parecido vai acontecer com o Pix. O mercado tende a caminhar para pagamentos em tempo real e experiências cada vez mais suaves”, avalia.