Neurogram
Daniele de Mari, fundadora e CEO da Neurogram (Foto: Divulgação)

Depois de conquistar grandes hospitais e clínicas no Brasil, a Neurogram começa a olhar para fora. A healthtech, que desenvolveu uma plataforma em nuvem para gestão e análise de dados neurológicos, planeja testar sua entrada no mercado internacional a partir de 2026, ancorada por uma parceria com a Mayo Clinic, considerada um dos principais centros de saúde e pesquisa do mundo.

Fundada por Daniele de Mari, hoje com 26 anos, a empresa atua em uma das áreas mais desafiadoras da medicina quando o assunto é tecnologia: a neurologia. “A radiologia foi uma das primeiras especialidades a incorporar IA em escala. Tudo é padronizado, interoperável e já está na nuvem. Já na neurofisiologia, nada conversa com nada”, afirma a fundadora.

A Neurogram nasceu em 2021, quando Daniele ainda cursava neurociência na Georgia Tech, nos Estados Unidos. Durante a pandemia de Covid-19, com a universidade fechada, ela voltou para Londrina, no Paraná, e passou a acompanhar a rotina de uma neurologista, em uma espécie de fellowship informal.

Foi ali que o problema ficou evidente. “Para laudar um exame simples, o médico precisava usar várias tecnologias diferentes: converter arquivos, subir em drive, acessar VPN de hospital – e algumas dessas VPNs caem o tempo todo”, relata. “São tecnologias proprietárias, fechadas, onde nenhum algoritmo externo consegue acessar. Isso torna praticamente impossível implementar IA.”

Na prática, exames neurológicos – fundamentais para o diagnóstico de condições como epilepsia, autismo, TDAH, Alzheimer e distúrbios do sono – ainda dependem de fluxos fragmentados, softwares proprietários e processos manuais. Esse cenário dificulta a criação de bases de dados estruturadas, a interoperabilidade e o uso de algoritmos clínicos.

O produto

A resposta da startup foi criar uma plataforma online de eletroencefalograma (EEG), capaz de receber exames de diferentes fabricantes, padronizar os dados e centralizar todo o fluxo em um único ambiente, com foco em segurança da informação e conformidade com a LGPD.

Com isso, a Neurogram reduz o número de ferramentas usadas pelos médicos e elimina práticas comuns, mas frágeis, como o envio de exames por e-mail, Google Drive ou Dropbox. “A primeira grande dor que a gente resolve é operacional e de segurança. A IA vem depois”, diz Daniele.

Além da gestão dos exames, a plataforma vem incorporando novas funcionalidades. Uma delas é o Realtime, recurso que permite ao médico acompanhar o exame enquanto ele está sendo realizado – algo especialmente relevante em UTIs, onde pacientes podem ficar monitorados por dias. “Cerca de 92% dos eventos neurológicos são silenciosos. O paciente pode estar em um estado grave e ninguém percebe. Não adianta gravar cinco dias de exame se a janela de ação é de 30 minutos”, explica.

A próxima etapa é integrar inteligência artificial para identificar padrões de risco e alertar o médico em tempo real. Essa tecnologia será validada pela Mayo Clinic, parceria que também abre caminho para uma futura atuação internacional.

Maturidade e expansão

A Neurogram encerrou 2025 com cerca de 100 mil exames processados pela plataforma. Segundo Daniele, o mercado de EEG no Brasil gira em torno de 10 milhões de exames por ano, o que coloca a startup ainda com uma fatia pequena, mas em crescimento.

De acordo com a fundadora, a empresa já superou a fase de provar que existe demanda. “A gente saiu do zero, criou um mercado que não existia e encontrou product-market fit. Agora estamos no momento de sair do 1 para o 10, focando em expansão”, afirma.

Com o produto validado no Brasil, a Neurogram começa a avaliar outros mercados, especialmente os Estados Unidos. A estratégia, porém, não é replicar automaticamente o mesmo modelo. “Existem dores que são muito latentes no Brasil e que lá fora já estão resolvidas. Ainda vamos testar as águas, mas, provavelmente, nos EUA entraremos com outro produto, possivelmente ancorado em IA”, diz.

Nesse contexto, a startup considera, de forma ainda preliminar, fazer uma rodada Série A no fim do ano, possivelmente captada fora do Brasil, como parte da estratégia de internacionalização. “Ainda não estamos planejando a rodada. Por enquanto, isso é só uma aba aberta na minha cabeça”, resume Daniele.

A Neurogram já é investida pela Headline, de Romero Rodrigues, cofundador do Buscapé. A healthtech levantou US$ 3 milhões em agosto de 2025, valor que se somou aos US$ 1,4 milhão (R$ 7,5 milhões) captados em rodadas anteriores.

No horizonte de cinco a dez anos, a ambição é construir o maior banco de dados neurológicos do mundo. “Hoje, exames de sangue são armazenados globalmente e usados para diagnóstico e pesquisa. A gente quer fazer isso para informações sobre o cérebro”, conclui a CEO.