
Depois de ajudarem a moldar o mercado brasileiro de pagamentos, serviços financeiros e investimentos, André Street (Stone), David Vélez (Nubank) e Guilherme Benchimol (XP) agora voltam sua atenção para um novo gargalo do ecossistema de inovação no país: a formação de empreendedores. O trio lançou esta semana seu novo projeto, o instituto sem fins lucrativos B55, que reúne iniciativas de educação, comunidade, aceleração e inovação e nasce com a ambição de se tornar o maior hub de empreendedorismo da América Latina.
Em entrevista ao Startups, Cristhiano Faé, cofundador e CEO do B55, conta como vai funcionar a iniciativa, que neste primeiro momento será voltada para empresas que já passaram da arrebentação, mas estão com dificuldades para escalar.
“A gente inicia o projeto com foco onde o empreendedor mais tem carência, que é esse momento em que a operação já está faturando, alcançou um tamanho relevante, mas não consegue crescer. É essa fase em que tudo que trouxe o empreendedor até este momento não é o que vai levar a empresa até a próxima etapa. Tipicamente, vemos que esse é o maior desafio: criar processos, métodos e se reestruturar”, aponta Cristhiano.
A proposta do B55, segundo o executivo, é atuar justamente no ponto em que muitos negócios começam a patinar: quando o fundador deixa de ser apenas um realizador e precisa estruturar áreas como marketing, vendas, gente e gestão para sustentar um novo ciclo de crescimento. “Chega um momento em que o empreendedor precisa montar uma estrutura muito mais robusta e aprender a liderar um time forte, que é quem vai, de fato, executar”, afirma.
O lançamento oficial do instituto está marcado para os dias 5 e 6 de março, quando o B55 deve detalhar seus programas e formatos de participação. A operação com os primeiros alunos está prevista para começar em abril. Segundo Cristhiano, já há milhares de empreendedores inscritos nos canais do projeto.
A expectativa é que, apesar de o projeto não ter fins lucrativos, o instituto tenha fontes de receita, proveniente dos cursos e das assinaturas de membros da comunidade, por exemplo. Com isso, a ideia é reinvestir no próprio instituto, que seria autossustentável.
Cristhiano acredita que o momento é especialmente favorável para uma iniciativa desse porte. “Existe um boom de empreendedorismo no país. Ter o próprio negócio é hoje o segundo maior sonho dos brasileiros, e nunca tivemos tantas histórias de empreendedores de sucesso como agora. O B55 nasce justamente para transformar esse desejo em negócios mais sólidos e preparados para crescer”, aponta.
Atuação em várias frentes
A operação começou a ser desenhada entre setembro e outubro de 2024, após Cristhiano ser procurado por Street, Vélez e Benchimol, que já mantinham iniciativas individuais de apoio a empreendedores. A ideia, segundo ele, era unificar esses esforços em uma plataforma única, com escala nacional. “Eles queriam construir o maior hub de empreendedorismo da América Latina e precisavam de um empreendedor para tocar a operação. Eu já vinha estruturando algo parecido, com programas de imersão, multicamp e mentorias, e acabou sendo um match natural”, conta.
Hoje, o B55 está estruturado em quatro grandes frentes. A primeira é a de Educação & Desenvolvimento, com cursos de curta duração, programas de imersão e formações nacionais e internacionais desenvolvidas por empreendedores que já construíram empresas reais.
O segundo pilar é o de Jornada & Aceleração, voltado para apoiar empresas que já validaram seus modelos, mas enfrentam dificuldades para escalar. Nessa etapa, o instituto vai oferecer acompanhamento estruturado, apoio em processos, métodos de gestão, mentorias e, em alguns casos, capital. O formato desse braço de investimentos, no entanto, ainda está em definição.
“O que a gente já enxerga é que o B55 vai acabar funcionando como um grande filtro de empresas com alto potencial de escala”, explica Cristhiano. Segundo ele, o instituto mantém proximidade com alguns dos principais fundos de venture capital e private equity do país e deve, ao longo do tempo, estruturar um braço próprio de investimento. “Apesar de ser uma instituição sem fins lucrativos, ela é tocada por empreendedores e precisa ser autossustentável. A ideia é que a operação se retroalimente”, afirma.
O terceiro pilar é o de Comunidade & Networking, com foco na criação de uma rede ativa de empreendedores, mentores, executivos e investidores. Um dos principais instrumentos dessa frente será um grupo de embaixadores, que reúne nomes como Jorge Paulo Lemann (3G Capital), David Feffer (Suzano), Fabrício Bloisi (iFood) e Henrique Dubugras (Brex). “Tempo é o ativo mais valioso que essas pessoas vão doar. A proximidade com bons exemplos encurta muito a jornada de quem está empreendendo”, diz o CEO.
Já o quarto pilar é a criação de um campus físico, que deve concentrar as atividades do instituto no médio prazo. O local ainda não está definido, mas a expectativa é que o espaço conte com salas de aula, áreas para startups, ambientes de convivência e até dormitórios, em um modelo inspirado em hubs como o Instituto Caldeira, em Porto Alegre. “No início, vamos operar em São Paulo, em uma laje, enquanto estruturamos o campus definitivo”, afirma.
Segundo Cristhiano, há conversas com o governo estadual para apoiar a iniciativa com espaços físicos, mas a equipe ainda avalia as alternativas. Para ele, a convivência presencial é parte central da proposta: “A proximidade física cria densidade relacional. É ali que acontecem as trocas que não surgem em reuniões formais”.
Embora o foco inicial esteja nas empresas que já faturam e enfrentam dificuldades de crescimento, o B55 pretende atender empreendedores em diferentes estágios de maturidade, setores e regiões do país. “Nosso primeiro foco é também o empreendedor fora do eixo da tecnologia: o dono da transportadora do interior, a dona de uma rede de clínicas, o varejista. A natureza dos problemas se repete, independentemente do setor”, afirma.