Inteligência artificial
Inteligência artificial (Foto: Canva)

O avanço acelerado da inteligência artificial, que impulsionou ações de tecnologia e levou os principais índices americanos a sucessivos recordes, começa a levantar alertas entre grandes nomes do mercado financeiro. Para Ray Dalio, fundador da Bridgewater Associates, o movimento já apresenta sinais iniciais de uma bolha.

Em sua retrospectiva de 2025, Dalio avaliou que, em relação à tecnologia, “o boom da IA, que agora está nos estágios iniciais de uma bolha, teve um grande impacto em tudo”, escreveu em uma publicação na rede social X. O executivo acrescentou que, em breve, enviará uma explicação sobre o que seus indicadores de bolha estão mostrando, reforçando a atenção do mercado para os riscos dessa valorização acelerada.

Em 2025, os principais índices de Wall Street registraram ganhos de dois dígitos, repetindo uma sequência vista pela última vez entre 2019 e 2021. O motor desse desempenho foi a forte demanda por ações ligadas à inteligência artificial, que sustentou máximas históricas no mercado acionário dos Estados Unidos.

Menos EUA, mais diversificação

Na avaliação de Ray Dalio, o cenário tende a mudar. O gestor projeta que as ações norte-americanas devem ter desempenho significativamente inferior ao de outros mercados. No ano passado, os investidores que buscaram alternativas fora dos EUA foram recompensados: enquanto o ouro subiu mais de 60%, os mercados emergentes tiveram desempenho destacado, e o índice FTSE 100, que reúne as principais ações do Reino Unido, também superou os principais mercados globais.

“Claramente, os investidores prefeririam estar em ações fora dos EUA do que em ações americanas, assim como prefeririam estar em títulos fora dos EUA do que em títulos americanos e dinheiro em espécie nos EUA”, escreveu Dalio.

Essa leitura ajuda a explicar a oscilação recente das bolsas globais, especialmente durante o outono no hemisfério norte, período marcado pelo aumento das preocupações com uma possível bolha no setor de inteligência artificial e pela deterioração do sentimento de risco.

Juros, Fed e incerteza geopolítica

Além da discussão sobre valuations, o cenário macroeconômico adiciona novas camadas de incerteza. As tensões geopolíticas no Oriente Médio e as dúvidas sobre a trajetória dos juros nos Estados Unidos ampliaram a cautela dos investidores.

Segundo Ray, ainda há “grandes questões em aberto” sobre a política monetária e o crescimento da produtividade. Ele avalia que o recém-nomeado presidente do Federal Reserve e o Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC) podem adotar uma postura inclinada a reduzir taxas de juros nominais e reais – um movimento que tende a sustentar preços de ativos, mas também a inflar bolhas.

Nesse contexto, analistas apontam que investidores globais devem buscar, de forma mais ativa, oportunidades em segmentos subvalorizados dos mercados financeiros, reduzindo a exposição a ações de tecnologia com múltiplos elevados.

Hedge funds surfam a volatilidade

Enquanto Ray alerta sobre riscos de bolha, grandes hedge funds aproveitaram a volatilidade para registrar resultados robustos em 2025. Os principais fundos macro da Bridgewater Associates registraram desempenho recorde no período, segundo informações divulgadas no fim de dezembro.

O fundo macro Pure Alpha II, principal estratégia da gestora, teve retorno de 34% em 2025, o melhor de sua história. Já a estratégia All Weather avançou 20%, de acordo com uma fonte ouvida pela Bloomberg News. Os ganhos representam uma recuperação relevante frente aos retornos anualizados inferiores a 3% registrados entre 2012 e 2024.

Outras casas também se destacaram. As estratégias da D.E. Shaw alcançaram retornos de até 28%, com o principal fundo multiestratégico Composite avançando 18,5% e o Oculus registrando lucro estimado em 28,2%. O Melqart Opportunities Fund, focado em eventos e liderado por Michel Massoud, subiu 45%. A Millennium Management, que administra cerca de US$ 83,5 bilhões, encerrou o ano com ganho de 10,5%. A ExodusPoint, que vem reforçando sua atuação em ações para complementar a operação de renda fixa, obteve retorno de 18% – o maior desde sua fundação, em 2017.

De forma geral, estimativas iniciais indicam que os hedge funds tiveram o melhor desempenho do setor em pelo menos cinco anos, beneficiados pela valorização das ações americanas, dos metais preciosos e pela volatilidade nos mercados de juros e câmbio.

Reorganização na Bridgewater

A Bridgewater, que administra cerca de US$ 92 bilhões, passa por um processo de reestruturação desde que Nir Bar Dea assumiu como único CEO, em 2023. A gestora promoveu mudanças profundas na equipe e reduziu ativos sob gestão com o objetivo de melhorar o desempenho.

Ray Dalio, que fundou a empresa em 1975, deixou completamente a Bridgewater em meados de 2024, ao vender sua participação remanescente e sair do conselho. Um dos destaques recentes da casa foi o fundo AIA Labs, que utiliza machine learning como base central de decisões. A estratégia captou mais de US$ 5 bilhões e teve alta de 11% no ano passado.