
Na corrida global pela inteligência artificial, a startup francesa Mistral AI aposta em um diferencial que vai além de desempenho técnico ou modelo de linguagem: a geografia. Para Arthur Mensch, CEO e cofundador da companhia, o fato de a empresa não ser americana se tornou uma vantagem estratégica no mercado europeu, que tem buscado reforçar cada vez mais a sua soberania digital.
Em entrevista ao Big Technology Podcast nesta semana, o CEO da Mistral destacou que o diferencial da empresa frente a concorrentes do Vale do Silício — como OpenAI, Google e Anthropic — não se resume a ter modelos “dramaticamente mais inteligentes”, mas sim a oferecer soluções que governos e grandes instituições europeias podem operar com maior controle e independência.
Em julho do ano passado, uma coalizão formada por empresas de tecnologia e diversos outros setores na Europa divulgou uma carta chamada EuroStack, exigindo ações radicais da União Europeia em prol da soberania digital do bloco. O grupo alerta para a dependência excessiva de infraestruturas e serviços digitais controlados por empresas estrangeiras e lançou ainda a campanha “Buy European” para aumentar a demanda por produtos e soluções tecnológicas desenvolvidos por empresas da UE.
“Governos europeus estão vindo até nós porque querem construir a tecnologia e servir seus próprios cidadãos”, disse Arthur, enfatizando o apelo de uma solução de IA alinhada com valores e regulações locais, e menos dependente de provedores externos.
A “OpenAI francesa” cresce rápido
Fundada em 2023 por ex-pesquisadores do Google DeepMind e da Meta, a Mistral rapidamente passou a ser chamada de “OpenAI francesa”. A empresa combina modelos open source com ofertas comerciais voltadas a grandes organizações e governos, estratégia que tem atraído tanto clientes quanto investidores.
Em setembro de 2025, a startup anunciou uma rodada de € 1,7 bilhão para acelerar seu desenvolvimento tecnológico, com participação de gigantes como Microsoft e Nvidia. Após a operação, a Mistral atingiu valuation de € 11,7 bilhões.
Para Arthur, um desafio enfrentado pelos laboratórios que constroem modelos de IA atualmente é encontrar o equilíbrio entre investir em desenvolvimento da tecnologia e ter um unit economics que faça sentido.
Ele destaca que seus competidores investem bilhões e bilhões de dólares em criação para se manter na liderança da corrida pelo melhor modelo de IA, mas que, do ponto de vista de negócio, às vezes acabam deixando de ser vantajosos.
“Tudo se resume a quanto você investe para criar um modelo que traga valor às companhias e aos consumidores. O foco que tentamos ter como companhia é focar mais nas aplicações na ponta, entendendo quais as fricções, para que a gente possa resolver”, explica o CEO da Mistral, ressaltando que um dos maiores problemas da IA atualmente é que a tecnologia ainda não trouxe retornos financeiros significativos para as corporações.
A razão para isso, segundo Arthur, é que os modelos de IA ainda não são customizados o suficiente. “E as companhias pensam mais sobre a solução do que sobre o problema que elas querem resolver. Nós tentamos ajudá-las a ir atrás dos casos de uso corretos. O desafio que enfrentamos enquanto indústria é fazer as empresas valorizarem a IA rápido o suficiente, para justificar todos os investimentos que têm sido feitos”, afirma.