
Todo fim de ano, os sócios da Andreessen Horowitz (a16z) compartilham sua previsões para os 12 meses seguintes. Mais do que futurologia, o exercício funciona como um termômetro das próximas inovações, a partir de padrões reais observados no portfólio da gestora. Para 2026, o assunto não poderia ser outro. O tema continua sendo IA, mas a conversa deixou de ser sobre testá-la e sim sobre executá-la para substituir fluxos de trabalho.
Segundo o levantamento, a inteligência artificial caminha para se tornar a “camada de execução da economia”, assumindo decisões, ações e coordenação em larga escala. Isso aparece de forma transversal em software corporativo, produtos de consumo e até na indústria física.
Um dos sinais mais claros dessa virada está no fim da centralidade das interfaces baseadas em prompts. Para o sócio Mark Andrusko, aplicações realmente relevantes deixarão de esperar comandos explícitos e passarão a agir de forma proativa, entendendo intenção a partir do contexto e do comportamento do usuário. A ideia é que o software “apareça” apenas quando necessário — e, justamente por isso, se torne difícil de substituir. ” prompt é uma interface temporária, não o destino final dos produtos de IA”, resume.
Essa mudança também afeta profundamente o software corporativo. Sarah Wang alerta que sistemas tradicionais de registro como CRMs e ERPs perderão protagonismo para plataformas capazes de interpretar intenção e executar fluxos completos. “O valor deixa de estar no armazenamento de dados e passa para quem coordena decisões e ações. O banco de dados vira commodity; a execução vira produto”, dispara.
A infraestrutura também entra em xeque. Em setores como bancos e seguros, a a16z avalia que a transformação só será completa quando os sistemas centrais forem reconstruídos para agentes autônomos.
Para a renomada investidora Angela Strange, plataformas legadas criadas para processamento em lote e fluxos manuais darão espaço para startups que se comportam mais como “sistemas operacionais do dinheiro” do que como fintechs tradicionais.
“Em 2026, o risco de não modernizar e tirar vantagem da IA vai superar o risco de errar, e veremos grandes instituições financeiras saírem de seus contratos com empresas tradicionais e implementar alternativas novas, baseadas em IA”, afirma Angela.
Outro eixo forte das previsões está na colaboração entre agentes. A a16z aposta que a IA vertical deixará de ser uma ferramenta isolada para se tornar “multiplayer”, coordenando diferentes partes interessadas, permissões e incentivos. Isso vale também para grandes empresas: Seema Amble destaca que corporações caminham para operar frotas coordenadas de agentes, criando uma nova camada de software focada em orquestração, governança e confiabilidade.
Interfaces também mudam. A voz ganha espaço como forma principal de interação, não apenas para atendimento, mas para conduzir fluxos inteiros de trabalho — de agendamento a resolução. Ao mesmo tempo, produtos começam a ser desenhados menos para humanos e mais para agentes.
Para a sócia Stephenie Zhang, legibilidade para máquinas se torna mais importante que a humana. “A interface humana se tornará secundária. Essa é uma mudança sutil, porém profunda”, analisa.
Segundo os sócios da gestora, isso também impactará o campo criativo, onde a convergência será multimodal. Texto, imagem, vídeo e áudio passam a coexistir em ambientes colaborativos, onde criadores guiam a IA com referências e restrições, em vez de torcer por um resultado aleatório. A mesma lógica vale para dados corporativos: organizar, estruturar e governar informações multimodais se torna uma camada crítica de valor.
A transformação se estende ao mundo físico. A a16z aposta que a próxima fronteira está na indústria, logística, energia e manufatura — empresas que já nascem com simulação e automação no centro, e não como modernizações tardias. Para David Ulevitch, é nesse ponto que a IA começa a impactar diretamente o PIB real. “Os fundados que construírem com IA neste segmento vão dar forma à economia física”, afirma.
Educação e segurança também entram no radar. A gestora prevê o surgimento da primeira universidade nativamente orientada por IA, com currículos dinâmicos e foco em orquestração, não memorização. Em cibersegurança, a expectativa é que a IA automatize o trabalho repetitivo, reduzindo burnout e tornando a área novamente atraente para talentos humanos.
No fim das contas, a a16z destaca que todas as previsões convergem para uma mesma tese: o valor deixa de estar na interface ou na funcionalidade isolada e passa para a arquitetura. “A IA está se tornando a camada onde as decisões são tomadas, o trabalho é coordenado e os resultados são produzidos”, diz a gestora, no encerramento do report.