Cerimônia do IPO da PicPay em Nasdaq | Imagem: Reprodução / Nasdaq
Cerimônia do IPO da PicPay em Nasdaq | Imagem: Reprodução / Nasdaq

O PicPay tocou a campainha em Nasdaq nesta quarta-feira (28), encerrando um jejum de quatro anos sem estreias de companhias brasileiras nas bolsas. A oferta pública inicial do banco digital se soma a uma nova leva de IPOs de empresas de tecnologia em Wall Street, em um momento de maior apetite dos investidores por ativos com maior potencial de crescimento. A dúvida agora é se a operação vai abrir caminho para a retomada das aberturas de capital também de outras empresas brasileiras.

A oferta pública inicial do PicPay foi feita a US$ 19 por ação, no topo da faixa indicativa. Com a operação, o banco digital levantou cerca de US$ 434 milhões ao vender aproximadamente 22,9 milhões de ações.

As ações da companhia registraram alta nesta quinta-feira (29), um dia depois do IPO, abrindo cotadas a US$ 19,50, com uma valorização de 2,6%.

Para João Daronco, analista da Suno Research, o IPO do PicPay é mais pontual do que estrutural. Segundo ele, uma retomada generalizada das estreias em bolsa continua dependendo de um cenário macroeconômico mais favorável.

“O grande ponto é que, para IPOs começarem a acontecer, a gente precisa de uma queda na taxa de juros muito forte. Se o mercado não tem tanto apetite a risco, porque a renda fixa continua atrativa, não devemos ver grandes volumes de IPO sendo realizados”, afirma.

Nesta quarta-feira, tanto o Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA), quanto o Banco Central do Brasil mantiveram inalteradas as taxas de juros dos países. Nos Estados Unidos, os juros estão no intervalo entre 3,5% e 3,75%, enquanto a Selic, no Brasil, permanece em 15%.

Considerando a conjuntura política e econômica, Raul Ciarelli, sócio da TCP Partners, também acredita que o IPO do PicPay foi “exceção”. “Os impactos da incerteza econômica debaixo de Trump ainda nem se fizeram sentir como um todo, e o cenário político negativo para ele apenas aumenta o risco de novas medidas radicais. Planejar um IPO assim é complicado. E se entrar um novo presidente do Fed disposto a baixar juros por razões políticas piora a conjuntura”, aponta.

Por outro lado, Fernando Siqueira, Head de Research da Eleven Financial, acredita que a janela de IPOs de empresas brasileiras pode voltar a se abrir dependendo do desempenho das ações do PicPay e de outras empresas de tecnologia.

“Até recentemente, não havia demanda. Os fundos estavam sofrendo resgates, o mercado estava caindo. Também não tinha oferta, já que as empresas estavam evitando fazer IPOs com valuations muito baixos. É possível que a gente veja novas aberturas de capital neste ano, inclusive na B3, começando por ofertas secundárias”, afirma.

Novo patamar de valuations

A abertura de capital do PicPay ocorre quase cinco anos após a última tentativa de IPO da empresa, em 2021, quando a fintech chegou a entrar com registro nos EUA e acabou recuando diante do cenário desfavorável nos mercados. Na ocasião, o valuation da companhia, inicialmente estimado em US$ 20 bilhões, foi sendo reduzido até chegar à casa dos US$ 6 bilhões, o que fez com que a controladora J&F Investimentos, dos irmãos Batista, decidisse esperar por uma janela melhor para lançar a oferta.

A janela ideal não veio e o IPO acabou acontecendo com um valuation de aproximadamente US$ 2,6 bilhões.

Para Victor Bueno, sócio e analista de Equity Research na Nord Investimentos, essa é outra questão que influencia em uma possível retomada dos IPOs de empresas brasileiras nas bolsas. Empresas que estão esperando por valuations no mesmo patamar daqueles vistos em 2021 irão se decepcionar.

“A gente viu várias empresas abrindo capital e sendo negociadas a 20 vezes, 50 vezes o lucro — patamares que, no fim das contas, se mostraram pouco sustentáveis. Também vimos companhias que estrearam na bolsa e, ao longo desse período de quatro anos, tiveram suas ações despencando 90%, 95% ou até mais em relação ao valor de mercado inicial”, aponta.

Segundo ele, ainda não há um cenário claramente favorável para a retomada dos IPOs no Brasil. Apesar de uma melhora recente no valuation da bolsa impulsionada pelo fluxo de capital estrangeiro, o Ibovespa negocia apenas próximo à média histórica — longe dos múltiplos observados em 2020 e 2021. Com juros ainda elevados e valuations considerados estressados, as empresas tendem a esperar condições mais atrativas para abrir capital e captar recursos a preços melhores. Além disso, o movimento recente é visto como pouco sustentável, já que investidores institucionais e pessoas físicas seguem afastados da bolsa, enquanto o avanço depende majoritariamente do investidor estrangeiro, cujo eventual recuo pode pressionar novamente o mercado.

O analista destaca, porém, que a bolsa americana segue negociando próxima às médias históricas, com múltiplos elevados, sustentados por um mercado mais eficiente, empresas com boa visibilidade de resultados e expectativas que vêm sendo confirmadas. Esse ambiente favorece a atratividade de IPOs nos EUA — inclusive para companhias brasileiras — já que o mercado costuma precificar melhor projetos de crescimento, permitindo captações maiores, como no caso do PicPay, que saiu no topo da faixa indicativa.

“Empresas brasileiras olham para isso com bons olhos porque elas podem ter ações mais caras e, consequentemente, vão ter uma captação maior”, afirma.

Irmãos Batista em Wall Street

O IPO do PicPay implicou uma diluição de cerca de 21% para os acionistas existentes. A empresa também concedeu aos coordenadores da operação uma opção de 30 dias para a compra de ações adicionais ao preço do IPO, o que pode elevar o volume total da transação para cerca de US$ 500 milhões. A estreia em Nasdaq foi vista como uma vitória para os irmãos Wesley e Joesley Batista, que mantiveram mais de 90% do poder de voto no PicPay.

Aliás, Joesley e Wesley já bateram ponto em Wall Street há sete meses, durante a cerimônia de IPO da JBS, dona de marcas como Friboi e Seara, que agora está listada na New York Stock Exchange (NYSE).

Citigroup, Bank of America e RBC Capital Markets atuaram como coordenadores globais da oferta do PicPay, enquanto Mizuho, Wolfe e Nomura Alliance, Bradesco BBI, BB Securities, BTG Pactual e XP também participaram como bookrunners.