Brex
Brex | Foto: Shutterstock.com

Dependendo para quem você perguntar, a recém anunciada aquisição da Brex pelo banco norte-americano Capital One, em um deal de US$ 5,15 bilhões, pode ser vista como algo positivo ou negativo.

De um lado, parabenização aos fundadores (os brasileiros Pedro Franceschi e Henrique Dubugras) ao chegarem ao sonhado “evento de liquidez” da fintech que criaram em 2017. Do outro, lamentação por um negócio que ficou muito abaixo do valuation de decacórnio que a Brex possuía há poucos anos, e comentários sobre uma possível “derrota” em um mercado onde Ramp, Bill e Rippling cresceram agressivamente nos últimos tempos.

Olhando para os fatos, números e opiniões de especialistas sobre o caso, alguns players saíram mais vencedores que outros, enquanto alguns tiveram que amargar perdas – ou mesmo oportunidades perdidas – em meio a isso tudo. Analisando friamente, para uma startup que valeu cerca de US$ 12 bilhões em 2022, terminar em um M&A a um preço 58% menor, parece uma derrota, mas tem gente que não vê bem assim as coisas.

Enfim, para entender melhor quem venceu ou perdeu nesse capítulo importante da Brex, resolvemos analisar e determinar (ou não), quem venceu e quem teve que amargar perdas com a venda da Brex para o Capital One.

Vencedores: Henrique Dubugras e Pedro Franceschi

Tudo bem que a Brex chegou a ser um decacórnio, mas US$ 5,15 bilhões ainda é muita grana, e para dois jovens que criaram sua fintech quando mal tinham entrado em seus vinte e poucos anos de idade, o exit é uma vitória e tanto.

No caso de Pedro, que assumiu o comando da companhia em 2024, o acordo com o bancão ianque não é o fim de sua jornada na fintech, pois ele continuará a frente do negócio mesmo com a fusão. Para analistas, a venda da Brex para uma empresa robusta como o Capital One representa um “pouso seguro” para uma embarcação que estava navegando em águas turbulentas nos últimos anos.

Perdedores: quem investiu tarde na Brex

Pioneira na proposta de ser uma solução financeira para startups, com cartões e gestão de despesas, a Brex ancorou seu modelo em volume de gastos e recompensas para grandes clientes que mantivessem esse volume.

Isso resolveu um problema real: startups jovens, cheias de capital de risco, mas com histórico de crédito limitado, não conseguiam acessar as ferramentas financeiras de que precisavam. A Brex monetizou por meio de taxas de intercâmbio, ao mesmo tempo em que oferecia recompensas para impulsionar a adoção.

A proposta rendeu à startup um crescimento explosivo em seus primeiros anos, em um bull market cheio de startups capitalizadas e focadas mais em crescimento do que em sustentabilidade nos custos.

Em seu primeiro ano de atuação, levantou US$ 7 milhões com a Ribbit. Em 2018, captou mais US$ 125 milhões, a um valuation de 1,1 bilhões. Em 2021, ela bateu o valuation de US$ 7,4 bilhões, ao receber uma série D de US$ 425 milhões liderada pela Tiger Global. O aporte final veio em 2022. quando a TCV e Greenoaks injetaram na fintech US$ 300 milhões a um valor de US$ 12,3 bilhões. No total, a Brex levantou cerca de US$ 1,5 bilhão em aportes.

Para os investidores que entraram mais atrasados no “bonde da Brex“, o acordo com o Capital One chega com um gosto amargo. Para Eric Newcomer, jornalista especializado no mercado do Vale do Silício, essa perda pode ser colocada no otimismo exacerbado da época. Para um investidor como a Kleiner Perkins, que liderou uma rodada de US$ 100 milhões em junho de 2019, a uma avaliação de US$ 2,5 bilhões, o retorno deve ficar em torno de 1,2x a 1,3x após a diluição — longe do múltiplo esperado após seis anos e meio.

Vencedores: Ribbit Capital e Y Combinator

“Tirando a Ribbit Capital e a Y Combinator, muitos investidores parecem ter pago caro demais pela Brex“, disparou Eric Newcomer. Essa declaração não precisa de muitas explicações.

Vencedora: Ramp

É impossível falar da jornada da Brex sem mencionar a Ramp, considerada sua maior rival no mercado. Chamada de “copycat” da Brex, pois foi fundada 2 anos depois, a Ramp disputou mercado com a startup dos brasileiros – mas com uma diferença. Em vez de focar em volume de transações e benefícios aos clientes, ela focou em ajudar as empresas a economizar dinheiro, com cashback simples de 1,5% sobre todos os gastos, mais um software gratuito de gestão de despesas.

Com a chegada do “inverno dos VCs” em 2022 , a mensagem da Ramp se tornou mais atrativa para as startups, que se viram obrigadas a controlar custos e manter sua sobrevivência. Quando a “era dos juros zero” chegou ao fim, as narrativas das fintechs se afastaram de métricas de vaidade, como volume total de gastos, e passaram a priorizar receita líquida e economia sustentável. A Ramp já estava posicionada para essa nova realidade.

Na mesma época, a Brex resolveu tomar uma atitude drástica, “fechando a porta” para startups de menor porte. Na época, o então CEO Henrique Dubugras afirmou que o interesse da fintech era atender primordialmente startups que tivessem algum tipo de “financiamento profissional”. Como resultado, dezenas de milhares de clientes tiveram suas contas fechadas e a Brex ficou com pouco menos de 50 mil empresas em sua base.

Ah, e com isso a Ramp viu a oportunidade perfeita de “rampar” seus negócios. Segundo dados da plataforma de inteligência Sacra, no fim de 2023, a Ramp havia “virado o jogo” contra a Brex ao alcançar US$ 30 bilhões em TPV (volume total de pagamentos) anualizado somando cartões e pagamentos de contas, com crescimento de 209% ano contra ano. Por sua vez, a Brex não passava dos US$ 15 bilhões em TPV.

Para fechar, em novembro passado a Ramp chegou a um valuation de US$ 32 bilhões, após levantar uma série E-2 de 300 milhões com a Lightspeed. Daí é só comparar os valores.

Vencedor?: Capital One

A partir daqui, a análise de vitória ou derrota fica um pouco cinzenta, é uma questão de interpretação. Para qualquer negócio, fazer um M&A a um preço descontado é algo positivo. Para o banco Capital One, a chegada da Brex é uma jogada e tanto para a tese que a companhia tem seguido nos últimos anos: a de criar uma plataforma abrangente de pagamentos.

No ano passado, o banco pagou US$ 35 bilhões pela multinacional de redes de pagamentos Discover. Com o M&A da Brex, o Capital One faz seu movimento para ter sua oferta B2B, com uma marca já conhecida e um sistema de gestão de despesas corporativas pronto – ou seja, não precisa gastar tempo e recursos dentro de casa.

Por outro lado, o deal vem em um momento de queda do banco na Bolsa de Nova York. A instituição financeira teve uma queda de 6% em suas ações após a divulgação de seus resultados do quarto trimestre de 2025 esta semana. Segundo analistas, a compra da Brex pode aumentar a receita, mas ainda levanta questões sobre o lucro que isso pode gerar ao banco.

Perdedora?: Brex

“Alguns podem perguntar por que ‘apenas’ US$ 5,15 bilhões”, disse Art Levy, Chief Business Officer da Brex, em conversa com o jornalista norte-americano Eric Newcomer. “Essas pessoas não passaram tempo suficiente acompanhando os mercados públicos.” Segundo Levy, o negócio representa “um múltiplo de lucro bruto muito forte para nós — um valor e uma transação dos quais temos muito orgulho”.

Se para alguns, uma venda descontada a quase 60% pode ser uma derrota e tanto, a saída estratégica da Brex pode até ser vista de forma positiva, ainda mais em um mercado onde a maioria das empresas “non-AI” viram seus indicadores despencar.

Contudo, o fato é que a Brex, do jeito que foi conduzida por vários anos, poderia ter um destino muito pior. A empresa operou por diversos anos com o cash burn em alta. Segundo o site The Information, a companhia torrou US$ 17 milhões por mês no quarto trimestre de 2023 e só tinha “dinheiro suficiente para durar até março de 2026”.

Como um jogador que estava com uma pilha de fichas na mesa do casino e viu suas apostas começarem a dar errado, a Brex apelou para a prudência. Em um esforço chamado de “Brex 3.0”, a fintech deixou de lado discursos ambiciosos como o de um IPO, cortou custos demitindo quase um terço de seu quadro e investiu em passos estratégicos para retomar o crescimento, mas de forma mais sustentável.

Não que isso seja diretamente relacionado ao que aconteceu essa semana, mas a máxima sempre é válida: reformar a casa sempre ajuda na hora de vendê-la.

Para o analista Eric Newcomer, a venda da Brex para o Capital One pode inclusive ser o começo de uma nova “virada” para a fintech.

“Se a Capital One conseguir extrair o máximo da aquisição, pode em breve colocar a Ramp diretamente em sua mira. A Brex havia tentado evitar uma competição frontal com a Ramp, ao sair do mercado de pequenas e médias empresas — justamente onde Ramp e Capital One competem diretamente. Esse embate pode ainda não ter chegado ao fim”, dispara o analista.