
Nos Estados Unidos, o mercado de previsões já tem uma base fiel de usuários. Com uma proposta diferente (pero no mucho) das “bets”, nomes como Kalshi e Polymarket movimentam bilhões em apostas sobre assuntos variados, como eleições ou até como seriados vão terminar. No Brasil, esse mercado começa a se movimentar – e nessa corrida, a Prévias quer sair na frente.
Fundada pelos empresários Leonardo Rebitte e Arthur Farache, a Prévias teve início no ano passado, rodando um beta fechado junto a convidados, um grupo formado por criadores de previsões e formadores de opinião, que ajudou a empresa a ajustar e validar seu modelo antes de iniciar seus movimentos de go-to-market.
Segundo Arthur, nesse período em que o beta esteve no ar, a empresa iniciou conversas com a CVM, buscando entender como esse novo tipo de produto poderia ser lançado no país. Entretanto, de acordo com o fundador, os ajustes regulatórios estão quase concluídos, e a Prévias deve sair do beta para um rollout mais amplo nas próximas semanas. Na parte regulatória, Arthur acumula experiência prévia como sócio-fundador da Hurst Capital.
Na visão de Leonardo Rebitte, a Prévias não quer apenas estar bem posicionada a tempo da Copa do Mundo e de outros eventos que podem impulsionar o negócio. A plataforma está “amarrando as pontas” para um rollout com liquidez inicial, legitimidade e alcance de público, contando com parceiros estratégicos em setores como o financeiro, telecom e outros.
“O caminho que a gente enxerga é B2B, não B2C. A gente já vem conversando e já temos várias parcerias fechadas. Então, assim que a gente abrir para produção, já vamos começar grande”, afirma Leonardo. “As pessoas vão se surpreender com as parcerias que estão vindo. Ninguém quer ficar de fora”, destaca.
Leonardo também acumula uma extensa trajetória como fundador. Ele já foi cofundador de diferentes negócios, como a fintech de empréstimos P2P Mutual, a idtech CAF e a legaltech JudIT. “Não é um experimento. É um mercado novo, mas a gente já passou por ciclos de crescimento, regulação, escala e relacionamento com investidores. Isso dá muita clareza sobre como estruturar a Prévias desde o dia zero”, pontua.
Como funciona a Prévias?
Obviamente, nomes como Kalshi e Polymarket funcionam como inspiração para a Prévias. No entanto, conforme explica Arthur, ao desenhar um produto para o público brasileiro, o modelo ganhou contornos próprios, inclusive para se diferenciar dos tipos de apostas que hoje lideram o mercado local, as bets.
“Na bet você está operando contra a banca, que tem algoritmos de precificação e ganha em cima do apostador”, diz o empresário. Já em algumas plataformas americanas, o modelo envolve algoritmos que também colocam a empresa como contraparte para garantir liquidez.
Na Prévias, parte de seu modelo é baseado em outro método: é o “pari mutuel”, em que todos colocam suas apostas em um pool — “algo semelhante a um bolão”, nas palavras de Arthur. Quando o evento acontece, o resultado é apurado, descontam-se os custos da plataforma e do criador da previsão, e o valor é distribuído entre os vencedores.
Diferentemente de modelos centralizados, nos quais a empresa decide quais previsões sobem, a Prévias aposta em uma lógica mais comunitária. Mesmo com a plataforma tendo seus “bolões” próprios, qualquer grupo pode criar suas próprias previsões. “Nosso modelo tem participação da comunidade. Quem cria a previsão estabelece as regras, define o evento e também se remunera”, reforça Arthur.
Claro que há desafios. O primeiro é regulatório. “O limitador é encaixar numa regulamentação que dê proteção ao investidor, mas que não afaste o investidor comum”, afirma Arthur. O receio é repetir a lógica de derivativos restritos a investidores qualificados ou criar barreiras excessivas de acesso. Segundo o fundador, a empresa mantém diálogo constante com a CVM para ajustar o modelo.
Mudança de cultura
Para além do entretenimento, os fundadores defendem que o mercado preditivo pode gerar algo ainda mais valioso: dados qualificados sobre opinião pública. “É o novo Ibope”, resume Leonardo. A diferença, segundo ele, está no incentivo. “Quando a pessoa coloca dinheiro na previsão, ela está defendendo com dinheiro a opinião dela. É muito mais forte do que responder uma pesquisa na rua”, completa.
De acordo com Arthur, ao investir em sua previsão (ou opinião), o usuário tende a pesquisar, perguntar e buscar informação antes de tomar posição. “Esse movimento de fazer pesquisa significa que a opinião declarada tem muito mais valor.” Na visão dos fundadores, esse viés baseado em convicção diferencia o modelo das meras odds de uma plataforma de bet.
O fato é que, mesmo com os grandes players do mercado brasileiro de previsões ainda por se consolidarem, as movimentações já começaram. Segundo Leonardo, até mesmo as bets estão estruturando suas próprias plataformas de previsões, aguardando um sinal regulatório que permita a operação.
Até a B3 declarou recentemente estar de olho nesse mercado, tratando previsões mais como ativos de investimento do que como apostas. “A entrada da B3 nesse debate ajuda a dar legitimidade ao setor. Quando um player como a B3 entra, as pessoas percebem que não é loucura”, afirma o fundador.
Segundo Arthur, trata-se de um jogo de longo prazo, de aculturamento, mas que começa em um momento oportuno. Mais do que replicar o boom das apostas esportivas, a ambição é estruturar uma nova categoria. “A gente acredita que está se formando uma nova classe de ativo: ativo de informação”, finaliza.