OranjeBTC
Guilherme Gomes, CEO da OranjeBTC | Crédito: Divulgação

Uma empresa listada na B3 cujo principal ativo não é um software, uma plataforma ou um serviço digital tradicional, mas uma tecnologia convertida em ativo financeiro. Essa é a proposta da OranjeBTC, companhia que se define como uma tesouraria de bitcoin e que mantém sua convicção no ativo mesmo em um momento de forte volatilidade no mercado.

A principal estratégia da OranjeBTC é alocar capital em bitcoin e gerir essa posição de forma ativa no mercado de capitais. Em vez de vender um produto ou serviço tradicional, a empresa busca aumentar, ao longo do tempo, a quantidade de bitcoin vinculada a cada ação em circulação.

“Nosso objetivo é aumentar a quantidade de bitcoin por ação do investidor”, afirma Guilherme Gomes, CEO da OranjeBTC, em encontro com jornalistas. Segundo ele, essa é a métrica central da companhia desde a sua criação.

A lógica se aproxima de empresas como a Strategy (antiga MicroStrategy), referência global nesse modelo. No entanto, Guilherme prefere uma analogia mais próxima do mercado brasileiro para explicar a tese.

“É como investir na Faria Lima nos anos 1960. Você podia comprar um imóvel diretamente ou investir em uma companhia que tivesse como foco adquirir o máximo possível de terrenos ali, com a convicção de que aquela avenida se tornaria uma das mais valiosas do país. A gente enxerga o bitcoin da mesma forma – só que o metro quadrado não é físico, é digital e global”, diz.

Com apenas quatro meses desde a listagem, a OranjeBTC já se tornou a maior detentora corporativa de bitcoin da região, com cerca de 3.700 BTC em tesouraria. 

Convicção em meio à volatilidade

Ao falar sobre risco, o CEO da OranjeBTC diz que a estrutura financeira da empresa foi desenhada para atravessar ciclos severos de volatilidade. “Não tem preço nenhum de bitcoin que trouxesse qualquer tipo de dor de cabeça para a companhia”, afirma Guilherme.

No mercado, no entanto, a leitura tem sido mais cautelosa. Desde a estreia na B3, em outubro de 2025, as ações da OranjeBTC acumulam queda superior a 60% e passaram a ser negociadas abaixo de 1x mNAV – métrica que relaciona o valor de mercado da empresa ao montante de bitcoins em caixa. Um mNAV abaixo de 1 indica que o mercado atribui à companhia um valor inferior ao de suas reservas em BTC, sinalizando ceticismo quanto à capacidade de extrair valor desse modelo.

O contexto também pesa. O próprio bitcoin acumula queda de cerca de 18% desde o início de 2026, em um cenário de maior volatilidade e incertezas sobre o ritmo de cortes de juros globais.

Para o CEO, no entanto, esse movimento faz parte do ciclo natural do ativo. “A volatilidade é inerente a qualquer ativo ainda em processo de adoção global”, diz, acrescentando que isso não altera a tese de longo prazo da companhia. Segundo ele, não há qualquer cenário no horizonte em que a empresa venderia seus bitcoins. “A gente vê o bitcoin como uma oportunidade histórica e qualquer sobra de caixa que houver na companhia vai ser orientada para expandir a nossa tese”, pontua.

A estrutura de capital foi desenhada para suportar oscilações severas de preço. A empresa opera com baixa alavancagem, entre 6% e 7%, e dívidas de longo prazo, sem chamadas de margem atreladas à cotação do bitcoin. A única dívida da companhia vence apenas em 2030, o que, na visão da gestão, reduz riscos mesmo em cenários de queda acentuada do ativo.

Estratégia de alocação

Segundo o CEO, a OranjeBTC não substitui a compra direta de bitcoin por pessoas físicas, mas oferece uma alternativa com perfil diferente de risco e retorno, especialmente para investidores que não querem ou não podem ter exposição direta ao ativo.

“É fundamental que todo investidor que acredita em bitcoin tenha exposição direta. Mas a OranjeBTC é outra proposta. Aqui você tem uma estrutura corporativa, com gestão de tesouraria, acesso ao mercado de capitais e, hoje, a possibilidade de comprar exposição a bitcoin com desconto”, afirma.

Esse “desconto” é um dos principais argumentos da empresa neste momento. Com o bitcoin negociado abaixo do preço médio de compra da companhia e as ações também pressionadas, a OranjeBTC decidiu priorizar a recompra de papéis em vez de novas aquisições do ativo digital.

Em janeiro, a companhia anunciou sua segunda recompra de ações em menos de quatro meses. A decisão veio em meio a um período de elevada volatilidade no mercado de criptomoedas, com o bitcoin recuando para a casa dos US$ 88 mil, um dos patamares mais baixos desde o início de 2026.

Hoje, a OranjeBTC tem cerca de US$ 270 milhões em bitcoin no balanço, enquanto seu valor de mercado gira em torno de US$ 225 milhões. Para a gestão, isso indica que a companhia está sendo negociada abaixo do valor de seus próprios ativos – um desconto que, na visão do CEO, não se justifica do ponto de vista patrimonial. “Quando recompramos ações, estamos recomprando bitcoin com desconto. Se a companhia fosse dissolvida hoje, o investidor que comprou agora teria um ganho de cerca de 17%.”, afirma Guilherme.

A empresa afirma que isso não significa abandonar novas aquisições de bitcoin, mas sim priorizar, no curto prazo, a alternativa que considera mais eficiente do ponto de vista de retorno ajustado ao risco.

O mercado, por outro lado, parece embutir no preço riscos associados a um modelo ainda jovem, altamente exposto à volatilidade do bitcoin e sem receitas operacionais tradicionais.

Visão de negócio

Quando fala em “dominar” o bitcoin na América Latina, Guilherme deixa claro que não se trata apenas de valor de mercado. O objetivo, de acordo com ele, envolve quantidade de bitcoins em balanço, reconhecimento de marca, base de investidores e soluções desenvolvidas ao redor do ativo.

“Já somos a maior empresa da região em quantidade de bitcoin, mas não ainda em marca, número de investidores ou em soluções. O objetivo é que, daqui a alguns anos, quando alguém pensar em bitcoin na América Latina, o nome que venha à mente seja OranjeBTC.”

Ele vai além ao traçar paralelos globais. “Tenho bastante convicção de que o Saylor vai se tornar o maior banco do mundo. Ele é basicamente o FED dessa nova economia”, afirma, em uma analogia provocativa, ao defender a tese de que empresas com grandes reservas de bitcoin tendem, no futuro, a lançar produtos financeiros sobre essa base.

Na leitura do CEO, a tese do bitcoin está longe de se esgotar, mesmo com ciclos de euforia e retração. Para ele, o ativo segue uma trajetória semelhante à da internet no início dos anos 2000. “Dizer que o bitcoin exauriu é como dizer que a energia elétrica ou a internet exauriram. É uma tecnologia fundamental, comparável à imprensa, ao computador, à própria internet”, afirma.

Guilherme também vê o cenário macroeconômico global como favorável à tese: endividamento estrutural, envelhecimento da população, expansão monetária e tensões geopolíticas reforçam, segundo ele, a busca por ativos escassos e não controláveis por governos. “Não existe uma economia global saudável em que um grupo tão restrito concentre decisões que afetam o dinheiro do mundo inteiro”, diz, em referência ao Federal Reserve e ao sistema de bancos centrais.

Além da tesouraria, a OranjeBTC aposta em educação como parte central da estratégia. A companhia lançou recentemente seu primeiro curso e pretende expandir a atuação nesse campo ao longo de 2026.

“A educação é estrutural. Quanto mais as pessoas entendem sobre o bitcoin, mais convicção têm sobre ele. E quanto mais pessoas entenderem, maior tende a ser o ecossistema”, diz Guilherme.

Para ele, esse movimento é semelhante ao que outras empresas globais fizeram para consolidar suas posições no setor. “Michael Saylor se tornou um dos maiores nomes do ecossistema porque colocou a cara para bater, explicou, educou. Isso faz parte do jogo.”

Próximos passos

A OranjeBTC deve divulgar seu primeiro balanço como companhia listada em março, um marco importante para o mercado avaliar, com mais clareza, a execução da estratégia. Até lá, a empresa promete seguir focada em aumentar a exposição dos acionistas ao bitcoin, seja via compras diretas do ativo, seja por meio da recompra de ações.

Se daqui a seis meses ou um ano a gente olhar para trás e o investidor tiver mais bitcoin por ação do que hoje, a missão está sendo cumprida”, conclui Guilherme.