Razor Computadores encerra as operações

A fabricante de computadores de alta performance Razor encerrou suas operações. A decisão foi tomada depois de anos lutando contra dificuldades de financiamento do negócio e atrasos nas entregas ocasionadas pela falta, ou pela variação de preços dos componentes no mercado. Cerca de 30 pessoas que trabalhavam na companhia foram dispensadas.

“Ficamos muito decepcionados porque quem ficou até o final não terá a recompensa esperada [de construir uma grande empresa]”, lamenta André Reichert, que fundou a companhia com seu irmão Grégory Reichert na cidade de Passo Fundo, interior do Rio Grande do Sul.

Leia um resumo desta notícia

  • Encerramento das atividades da Razor, fabricante de computadores de alta performance, impactada por problemas de financiamento e componentes.
  • Histórico da Razor, desde o auge em 2021 com clientes como Petrobras e Embraer, até a crise agravada por fatores externos e internos.
  • Dificuldades enfrentadas pela Razor, como alta de preços de componentes, falta de escala, e a Ação Civil Pública que prejudicou a reputação.
  • Planos futuros dos fundadores após a falência, incluindo a avaliação de débitos e a possibilidade de empreender novamente para quitar obrigações.

Em seu auge, em 2021, a Razor chegou a ter mais de 60 pessoas e receita de R$ 20 milhões. Entre seus clientes ela teve nomes como Petrobras, Embraer e Rede Globo. Em 2019 a Razor participou do programa ScaleUp, da Endeavor. A companhia fez duas rodadas de captação na plataforma Kria, onde levantou cerca de R$ 6 milhões com 500 investidores. “Conseguimos muitas coisas legais”, relembra Grégory. Para ele, o fim das atividades deixa a marca de que empreender com hardware no Brasil não é viável. “Fizemos milagre de ficar vivos até aqui”, pondera.

Há 12 anos no mercado, a Razor era especializada na venda de equipamentos conhecidos como workstations, máquinas parrudas que são usadas em atividades como engenharia, arquitetura, pesquisa e desenvolvimento e edição de vídeo.

Montados com componentes de alto desempenho, que muitas vezes precisam se encomendados diretamente com o fabricante, esses computadores podem custar de R$ 10 mil a R$ 100 mil. Por terem usos muito específicos, e serem desenhados caso a caso, eles têm pouco volume de vendas, o que elimina ganhos de produção e compra de peças em escala. Além disso, essa faixa de preços está fora da política de benefícios fiscais para a fabricação de computadores no Brasil, o que onera a sua produção.

Os irmãos Grégory (à esq.) e André Reichert, fundadores da Razor (Foto: Divulgação)

Crise e Desafios da Razor

A situação da companhia começou se complicar a partir de 2022, quando uma série de eventos deixou os componentes mais caros e escassos. Entre as situações enfrentadas nos últimos anos estão a alta dos por conta da falta de semicondutores na pandemia, o hype da mineração de cripto que reduziu a disponibilidade de placas de vídeo, alta da Selic, a guerra da Ucrânia, a alta dos juros, e o boom da inteligência artificial, que levou a um aumento nos preços de memórias e GPUs.

Sem capacidade de negociação por conta de seu pequeno porte e pouco caixa, a Razor se viu refém das conjunturas externas, o que afetou sua capacidade de entrega de projetos. A qualidade do atendimento e as novidades dos produtos também sofreram já que o foco estava mais no operacional e nas tentativas de manter o negócio vivo.

Os atrasos foram se acumulando, contratos foram perdidos – um pedido de R$ 25 milhões não pôde ser atendido – e a insatisfação e as reclamações dos clientes cresceram. Em setembro de 2025 a companhia foi alvo de uma Ação Civil Pública movida pelo Ministério Público do Rio Grande do Sul. O processo foi a gota d´água para a reputação da companhia.

De acordo com Grégory, todas as alternativas de financiamento público e privado no Brasil e também no exterior foram exploradas nos últimos anos. Em 2024 ele chegou a se mudar para São Paulo e visitou todos os endereços da Faria Lima. Mesmo tendo aprendido mais sobre instrumentos financeiros do que ele diz que gostaria de saber, a via crucis não rendeu frutos. “Sempre havia uma conversa em curso. Mas sempre dava na trave”, conta.

Ele reclama da falta de compreensão – e do apetite para risco – dos investidores para negócios de hardware e da falta de alternativas de financiamento para empresas menor porte. “É tudo feito para quem é grande”, desabafa. Segundo ele, os unit economics do negócio faziam sentido, mas a operação precisava ter o dobro do tamanho para parar de pé.

Perguntado se o movimento da IA e a alta demanda de computação processamento não seriam o momento de a companhia conseguir um novo fôlego, Grégory comenta que os economics não fazem sentido, e que investir nisso seria queimar dinheiro. “E a gente não tinha dinheiro”, argumenta.

Falência e planos futuros

Um dos planos era levantar recursos para entrar com um processo de recuperação judicial e tentar reestruturar a operação em 2025. Mas os recursos não vieram. Sem isso, e sem um plano concreto de retomada a avaliação foi que a Justiça não aceitaria o pedido de RJ. Por isso a decisão foi partir diretamente para o pedido de falência.

Grégory e André dizem ainda não ter a dimensão exata do quanto a companhia tem de débitos a serem pagos. Os cálculos serão feitos a partir de agora com o processo de falência. A companhia tem itens como computadores, aparelhos de ar-condicionado e algum estoque de peças que podem ser leiloados para quitar saldos. A avaliação, no entanto, é que os recursos não serão suficientes para arcar com todas as obrigações. Por conta disso – e apesar do histórico das dificuldades enfrentadas -, os irmãos não descartam empreender de novo. “Temos contas para pagar. E já aguentamos tudo isso. Qualquer coisa parece fácil”, diz Grégory.