
A Sankhya, plataforma brasileira de gestão empresarial (ERP), segue avançando em sua estratégia de fusões e aquisições e pode anunciar um novo deal já em março. A companhia, que comprou 10 empresas desde 2021, vem amadurecendo seu portfólio de serviços e mantém no radar os planos de abertura de capital no mercado norte-americano, com uma possível janela em 2028.
Segundo Felipe Calixto, CEO e cofundador da Sankhya, a meta é fechar três aquisições em 2026, com foco em startups que complementem as soluções já oferecidas. Uma das negociações está em fase final e deve ser anunciada no próximo mês. As outras duas seguem em análise, dentro de uma estratégia de crescimento controlado ao longo do ano.
O movimento dá continuidade à estratégia de M&As iniciada em 2021, após a Sankhya receber um aporte de R$ 425 milhões do GIC, fundo soberano de Singapura. A aquisição mais recente foi a da Lincros, startup catarinense de gestão logística com inteligência artificial, anunciada em setembro de 2025.
“Por muitos anos, não sabia comprar uma empresa”, admitiu Felipe durante evento realizado em Uberlândia, no último sábado (7). De acordo com o executivo, aquisições não faziam parte da estratégia da companhia em suas primeiras décadas, após a fundação, em 1989.
“Tínhamos 30 anos de experiência crescendo de forma orgânica. Todo ano, a meta era avançar pelo menos 30%, e a gente jogava muito bem esse jogo. Com o tempo, ficou cada vez mais difícil crescer na mesma proporção. Quando o GIC investiu na gente, passamos a pensar em crescer por meio de aquisições. Não sabíamos exatamente o que era bom e, até hoje, não tenho certeza”, contou ao Startups.
Caminho para o IPO
Os M&As da Sankhya também alimentam a estratégia da empresa para atingir R$ 1 bilhão em receita recorrente anual (ARR), patamar que aproximaria a companhia de um IPO. Em 2025, a empresa encerrou o ano com cerca de R$ 740 milhões em ARR e, segundo Felipe, a expectativa é alcançar a marca bilionária em 2026.
A abertura de capital está em discussão desde 2024, com planos iniciais que previam uma estreia a partir de 2025. O executivo afirma que o mercado norte-americano está no radar para uma eventual listagem, embora destaque que não há pressa para executar o movimento.
“A gente tem vontade, mas não há pressão por parte de ninguém – nem dos nossos investidores”, afirmou. O CEO enxerga o IPO nos Estados Unidos como um “movimento ousado”, diante do recente período de seca. “Faz muitos anos que não vemos um IPO no Brasil, por conta do momento econômico e político que a gente está vivendo. Havendo uma melhora nesse cenário, existe uma grande possibilidade de a Sankhya fazer o IPO”, disse.
De acordo com o CEO, 2028 aparece como uma janela possível para a operação, ainda sem caráter definitivo. Por ora, a empresa segue focada em ganhar maturidade para realizar um IPO bem executado.
Amadurecimento da tese
Para Felipe, não existe uma fórmula única ou uma “verdade absoluta” quando se trata de crescimento. Segundo ele, a Sankhya seguiu um caminho diferente do adotado por concorrentes maiores. Em vez de comprar empresas concorrentes para ganhar participação de mercado, a companhia decidiu adquirir negócios complementares, apostando na construção de um ecossistema com múltiplas funcionalidades.
“Já analisamos cerca de 800 empresas para comprar apenas 10. Tivemos que aprender muita coisa, inclusive a ter paciência, porque é um processo longo, demorado e que exige muito critério”, disse o CEO.
A partir desse aprendizado, a Sankhya estruturou um processo mais rigoroso de avaliação, que vai além da análise financeira. “Passamos por avaliações de tecnologia, cultura, aderência estratégica, além do perfil dos fundadores e dos principais executivos. Não compramos uma solução quando os fundadores ou principais profissionais querem sair do negócio”, explicou.
Fernanda Zago, VP Comercial da Sankhya, reforça que o fit cultural é decisivo. “Se não combina com a Sankhya, é um problema. Pode ser a melhor solução, mas que não vai funcionar”, pontuou.
Na visão de André Britto, CFO da empresa, cada aquisição tem como objetivo preencher lacunas específicas da solução original, aprofundando especialidades sem abrir mão de uma proposta integrada. A lógica, segundo ele, é reunir soluções de alta profundidade em áreas como CRM, inteligência tributária, RH e gestão financeira, todas conectadas.
O CFO também destacou que, atualmente, a empresa opera com agentes de inteligência artificial específicos em cada solução, cada um focado em uma dor distinta para reduzir riscos de alucinação. “No futuro, a gente vê uma base de dados centralizada, que é o que a gente vem trabalhando, e esses agentes vão ficar muito inteligentes, porque vão conseguir cruzar dados das diferentes soluções e entregar uma inteligência diferenciada que ninguém tem”, disse, sem indicar quando essa unificação deve ocorrer.