Investimentos

Tarifaço de Trump pode ter reflexos no Venture Capital brasileiro

Risco de recessão nos EUA pode reduzir o apetite a risco dos investidores, mas nem tudo está perdido. Saiba mais sobre os impactos do tarifaço

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Risco de recessão nos EUA tem impactos no Brasil
Risco de recessão nos EUA tem impactos no Brasil. | Imagem gerada por IA / Canva

O tarifaço anunciado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, derrubou as bolsas americanas nesta semana e tem gerado receios sobre uma possível recessão no país. No Brasil, os reflexos podem ir além do impacto direto das tarifas de 10% sobre as exportações para os EUA – afetando, inclusive, o apetite por investimentos em venture capital.

De um lado, analistas projetam que uma grave crise nos EUA acabaria levando a uma recessão global, o que diminui o apetite a risco, comprometendo a renda variável de uma maneira geral.

“Olhando para o passado, o cenário de recessão nos Estados Unidos não é bom para ninguém. Eles têm a maior economia do mundo, são o principal comprador do mundo, então se esse principal comprador do mundo desacelerar, o Brasil vai sofrer e o mundo inteiro vai sofrer”, afirma William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue.

Segundo ele, em meio a cenários de incertezas, os investidores tendem a buscar proteção em moedas fortes, como o próprio dólar, o iene e o franco suíço, além das treasuries americanas e do ouro.

“Tem uma teoria chamada Teoria do Dólar Smile. Quando os Estados Unidos vão muito bem, o dólar se valoriza porque o mundo quer investir nos EUA. Foi um pouco daquilo que a gente viu nos últimos dois anos. Quando o mundo entra em pânico, se tem uma grave crise, recessão nos Estados Unidos, algo muito extremo, o dólar também se valoriza porque aí o mundo busca sair de ativos de risco e busca a proteção em ativos mais conservadores”, diz.

Considerando essa conjuntura, o venture capital brasileiro sofreria de diversas frentes. De um lado, a aversão a risco afasta os investidores, reduzindo a liquidez em um mercado que já vem enfrentando dificuldades para levantar recursos. E mesmo para o investidor internacional que ainda quer investir em capital de risco, a opção por mercados emergentes se torna mais arriscada do que nunca. Ao mesmo tempo, os juros em patamares elevados continuam tornando a renda fixa a opção mais segura e atrativa para os LPs locais.

CVC também pode sofrer

Impactos também poderão ser sentidos no corporate venture capital (CVC) e nas iniciativas de inovação aberta das companhias, especialmente nos setores mais afetados pelo tarifaço, como petróleo, minério de ferro, celulose e aviação. Apesar de a tarifa ser a mesma para todos os produtos, esses são os segmentos que mais exportam para o país.

Na noite de quinta-feira, a Amcham Brasil e o Fórum de CEOs Brasil-Estados Unidos divulgaram nota sobre o tarifaço, alertando que aplicar tarifas de 10% sobre as exportações brasileiras a partir de 5 de abril tem “potencial de gerar impactos relevantes no comércio e nos investimentos entre os dois países, com efeitos sobre empresas, trabalhadores e as economias do Brasil e dos Estados Unidos”.

Copo meio cheio

Apesar do pânico em torno do tarifaço, o Brasil se encontra atualmente em uma posição mais favorável do que há alguns anos – em comparação há 2008, por exemplo – e menos dependente da economia americana. No âmbito do venture capital, o país tem se aproximado mais dos parceiros latinos, fortalecendo o ecossistema na região.

Bianca Martinelli, sócia da Alexia Ventures, acredita que menos liquidez nos EUA pode ter reflexos no Brasil, mas não de forma automática. Para ela, o ecossistema brasileiro hoje está mais preparado para navegar esses ciclos com outras fontes de capital e estruturas mais diversificadas.

“Em momentos de maior restrição de capital, investidores americanos tendem a priorizar mercados que conhecem melhor, como os próprios EUA. Isso pode reduzir o fluxo de investimentos para startups brasileiras, especialmente para rodadas maiores. Mas isso não significa um ‘apagão’ no mercado. O venture capital local amadureceu muito nos últimos anos, com mais fundos brasileiros e latino-americanos ativos, além do crescimento do mercado secundário, que oferece novas alternativas de liquidez”, ressalta.

Em coletiva de imprensa nesta quinta-feira, o presidente da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), Jorge Viana, disse que o tarifaço pode acabar tendo consequências positivas para as relações do Brasil com outros países, acelerando, por exemplo, o acordo Mercosul-União Europeia.

Relatório de conjuntura macroeconômica do MB Associados indica que o Brasil também tende a se aproximar cada vez mais da China nos próximos anos. Hoje, a corrente de comércio com os chineses é praticamente o dobro dos americanos, mas pode se tornar o triplo em alguns anos, segundo os economistas.

“Para o Brasil, que teve uma tarifa recíproca no limite inferior da tarifação proposta por Trump em 10%, reforça a sinalização de crescente aproximação com os chineses e fortalecimento das cadeias de commodities como um todo. O Brasil segue sendo uma potência não apenas no agronegócio, mas também no petróleo, mineração e agora nos metais raros, nos quais o Brasil tem a segunda maior reserva mundial, atrás apenas dos chineses”, destaca o relatório.

Ainda no campo positivo, o tarifaço promovido por Trump pode levar o Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) a começar a reduzir as taxas de juros a partir do final deste ano, segundo a Nomura, grupo de serviços financeiros global. No Brasil e nos Estados Unidos, os juros futuros recuaram, com investidores antecipando os cortes por parte das autoridades monetárias.