Filipe Loures e Solano Todeschini, cofundadores da Voa Health | Foto: divulgação
Filipe Loures e Solano Todeschini, cofundadores da Voa Health | Foto: divulgação

A Voa Health nasceu nasceu como um app voltado a um desafio básico dos médicos – ajudar a preencher sua documentação clínica. Contudo, quando a startup recebeu no ano passado um aporte seed de US$ 3 milhões da Prosus, a companhia começou a se posicionar para algo maior. Em 2026, chegou a hora de dar novos passos.

De acordo com o o cofundador e CEO Solano Todeschini, o plano da healthtech é começar a se posicionar como uma peça central na estratégia de construção de um ecossistema digital de saúde dentro do portfólio global do grupo, que já reúne ativos como iFood, Decolar, entre outros.

“Com o investimento da Prosus, demos início à nossa estratégia de não ficar somente na ideia de uma plataforma pontual para os médicos e assumir uma posição de plataforma”, explica o CEO, em conversa exclusiva.

A chamada V3 da solução, prevista para ganhar mais visibilidade no início de 2026, amplia o escopo para além de ser um assistente de IA que ajuda a preencher prontuários. A ambição é acompanhar os profissionais e pacientes ao longo de toda a jornada de cuidado, conectando follow-ups, pagamentos, adesão a tratamentos e comunicação contínua.

Para colocar a estratégia em curso, desde o fechamento do aporte em fevereiro do ano passado, a empresa intensificou seus investimentos em produtos, o que rendeu um crescimento notável à operação. “Foi um ano super bacana. A gente tem crescido, em média, 15% ao mês”, afirma Solano.

Dos investimentos em seu core tecnológico, hoje a Voa opera com infraestrutura própria de transcrição de voz em consultas, o que segundo os fundadores garante maior segurança, menor latência e maior acurácia. Em horários de pico, a plataforma chega a processar mais de mil consultas simultâneas.

A métrica central da companhia hoje é o número de atendimentos clínicos realizados mensalmente com apoio da tecnologia: são cerca de 160 mil atendimentos por mês, cada um com duração média próxima de 20 minutos. O salto é expressivo quando comparado ao fim de 2024, quando a Voa processava algo em torno de 30 mil atendimentos mensais.

Esse crescimento operacional se refletiu diretamente na receita. O faturamento da empresa cresceu cerca de 4,5 vezes em 2025, com uma receita em torno de R$ 5 milhões. “Para 2026, o plano é manter o ritmo agressivo (de crescimento). Esperamos crescer entre quatro e cinco vezes”, destaca o cofundador Filipe Loures.

Bottom-up

A Voa começou sua trajetória focada no médico individual, que atende em consultório próprio, faz plantões e precisa lidar com uma rotina extremamente carregada de tarefas administrativas. Os dois fundadores são médicos de formação, fator que ajudou a construir um produto profundamente aderente ao fluxo real de trabalho da categoria.

Para Solano, esse movimento “bottom-up” segue sendo o principal motor de crescimento da companhia. Hoje, a Voa já ultrapassou a marca de 100 mil usuários cadastrados na plataforma, entre médicos e outros profissionais de saúde.

A maior parte deste público ainda utiliza o app freemium, mas 2 mil são clientes pagantes do plano profissional, que oferece maior volume de uso, personalizações e acesso a funcionalidades avançadas, como um agente conversacional clínico integrado aos dados da consulta e a bases abertas de evidência médica. Para 2026, a expectativa é quintuplicar a base de clientes PRO, chegando a 10 mil assinantes.

O mercado enterprise passou a ganhar peso para a Voa ao longo de 2025. Hoje, a healthtech já mantém cerca de 17 contratos com operadoras de saúde e cooperativas médicas. Nesses casos, o produto base é o mesmo, mas há camadas adicionais de integração, suporte e requisitos de segurança. “A expectativa é que, em 2026, entre 30% e 40% da receita da empresa venha desse segmento”, estima Filipe.

Segundo os fundadores, a estratégia enterprise também segue a lógica bottom-up. “Na saúde, quem decide quase sempre é médico. Hospitais têm médicos como decisores. Então ganhar o profissional na ponta facilita muito a entrada na organização”, explica Solano. A própria adoção orgânica do produto dentro das instituições tem ajudado a reduzir ciclos de venda, que costumam demorar no setor.

Outra frente em que a Voa já começou a investir, e tem planos de intensificar seu desenvolvimento, é em agentes de IA. Na visão de Solano, o grande objetivo é permitir que médicos tenham “clones digitais” dentro do app, disponíveis 24 horas por dia, mas com limites definidos e encaminhamento para atendimento humano sempre que necessário. “Agente sem contexto não é nada. E na saúde, o contexto é privado, técnico e sensível”, frisa o CEO.

Ecossistema no ecossistema

Mais do que o capital em si, os fundadores destacam o papel estratégico da Prosus nesse processo. “Dinheiro, sem estratégia, não resolve. O que fez diferença foi como a gente deployou esse capital”, resume Filipe Loures. Segundo o fundador, além do reforço no time e na capacidade de escala, a entrada do grupo trouxe governança, padrões de compliance internacionais e, principalmente, uma provocação constante para pensar grande.

A visão da Voa é funcionar como uma camada de orquestração entre médicos, pacientes e serviços complementares. Segundo o CEO, comprar medicamentos, agendar retornos, acessar serviços e integrar soluções externas passa a ser parte de uma experiência fluida, algo que dialoga com a lógica de plataformas já consolidadas no portfólio do grupo. “A Prosus é um grande suporte para a gente pensar como criar um ecossistema de saúde dentro de um ecossistema maior”, diz o executivo.

A visão de ecossistema citada por Solano encontra respaldo nos recentes movimentos da Prosus no Brasil. No ano passado, após concluir a aquisição da Decolar por US$ 1,8 bilhão, o grupo holandês não perdeu tempo em propor sinergias entre a plataforma de viagens com o iFood. Meses depois, a Prosus afirmou que os resultados foram “encorajadores”, com 3% da receita B2C da Decolar vindo do iFood.

Perguntado sobre qual seria o papel da Voa no ecossistema que a Prosus está construindo, Solano não entrou em detalhes, mas revelou que as possibilidades existem – e são animadoras. “A Prosus tem uma visão muito clara de ecossistema, e isso conversa diretamente com a nossa visão de longo prazo”, finaliza.