
A decisão do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) de suspender cautelarmente os novos termos do WhatsApp Business no Brasil trouxe um alívio temporário para startups do setor. Uma delas é a Zapia, empresa uruguaia responsável por um assistente virtual que opera dentro do WhatsApp e também em aplicativo próprio.
Pelas novas regras anunciadas pela Meta, controladora do WhatsApp, ferramentas externas de IA ficariam limitadas a funções específicas de atendimento ao cliente e não poderiam mais atuar como assistentes completos dentro da plataforma. A política começaria a valer em janeiro de 2026, mas teve seus efeitos suspensos no Brasil enquanto o Cade apura possíveis práticas anticoncorrenciais.
Segundo Michele Chahin, vice-presidente da Zapia, o impacto da mudança seria significativo. “O WhatsApp sempre foi o principal canal da Zapia pela facilidade de acesso. As pessoas já têm o app no celular, usam todos os dias e a barreira de entrada é muito baixa”, afirma.
Hoje, a Zapia soma cerca de 6 milhões de usuários e opera com uma equipe de 18 pessoas. A empresa não divulga a divisão exata entre WhatsApp e aplicativo próprio, mas destaca que a maior parte da base vem do mensageiro. Para além do impacto no negócio, a executiva observa efeitos diretos para os usuários, que passam a ter menos poder de escolha. “O usuário fica restrito à inteligência artificial nativa da plataforma, sem poder decidir qual ferramenta deseja usar”, afirma.
Unindo forças
Antes mesmo de o Cade anunciar a suspensão da nova política do WhatsApp Business no Brasil, a Zapia se uniu à startup LuzIA, sua concorrente no segmento de assistentes de IA no WhatsApp, para pedir ao órgão uma medida preventiva contra a Meta. O argumento era que a mudança poderia inviabilizar completamente o modelo de negócios das duas empresas.
A abertura da investigação pelo Cade, em janeiro de 2026, foi recebida como um avanço, ainda que não definitivo. “Existe uma investigação em andamento, e só vamos comemorar no final. Ainda assim, a suspensão mostra que o debate é relevante e que o tema está sendo analisado com atenção”, afirma Michele.
Segundo a VP, parceiros da Zapia têm apoiado o posicionamento da empresa. “Existe uma união muito forte e bastante respaldo dos nossos investidores, que não veem isso como uma ameaça, mas como parte de uma estratégia de crescimento independentemente do cenário”, diz. A startup é investida pela Prosus (dona do iFood e da Decolar) que liderou um aporte de US$ 7 milhões no ano passado, com participação de Endeavor Catalyst, Anthos Capital, Factory HQ e SnR.
Michele destaca que, em outros países onde a Zapia atua, como Colômbia, Argentina e México, não houve resposta semelhante por parte dos reguladores. Nesses mercados, a empresa deixou de operar no WhatsApp a partir de 15 de janeiro, em cumprimento às novas regras da Meta. “O Brasil mostra, mais uma vez, que olha para inovação e para uma competição saudável”, avalia.
Críticas e alternativas
Para Michele, o episódio expõe um debate mais amplo sobre a dependência de grandes plataformas. “Não é de hoje que empresas maiores tentam impor limites a quem está chegando. O papel dos pequenos players na inovação inclui questionar o status quo e recorrer aos órgãos reguladores quando necessário”, afirma.
Apesar das críticas à política do WhatsApp, a Zapia ainda utiliza, de forma pontual, canais pagos da própria Meta, como anúncios no Instagram. “Usamos a mídia paga principalmente para testar novas funcionalidades, colher feedbacks e entender a resposta do público com mais rapidez. O investimento é baixo, porque nosso crescimento sempre foi majoritariamente orgânico, muito baseado em boca a boca”, diz.
Com o bloqueio do WhatsApp em parte da América Latina, o aplicativo próprio da Zapia passou a ser o principal canal nesses países. “A gente se surpreendeu positivamente com o número de usuários que migraram do WhatsApp para o nosso app quando ocorreu a suspensão”, admite Michele.
Segundo a executiva, o aplicativo oferece mais liberdade para o desenvolvimento do produto. “No WhatsApp, a gente não controla UI, UX e nem consegue implementar funcionalidades do jeito que gostaria. No app próprio, temos mais autonomia para testar novos caminhos”, diz.
Ainda assim, ela reconhece que o WhatsApp reduz barreiras de acesso, especialmente para públicos menos familiarizados com tecnologia. Entre os 6 milhões de usuários da Zapia estão pessoas com mais de 60 anos e pessoas com deficiência auditiva, que utilizam intensamente a função de transcrição de áudios. “Conversar com uma IA no WhatsApp é muito mais natural para esse público, porque é um ambiente já conhecido”, explica.
A VP ressalta que, mesmo com uma equipe enxuta, a startup consegue se mover rapidamente. “Nosso maior valor é a velocidade. As decisões não são burocráticas, a gente testa, muda e evolui a tecnologia muito rápido”, afirma.
Próximos passos
A Zapia está redesenhando seus planos para 2026, sem ainda conseguir projetar números com precisão. O crescimento do aplicativo superou as expectativas iniciais após o bloqueio do WhatsApp em alguns países, e a empresa prepara uma nova fase do produto, que deve ser anunciada em breve.
“Estamos estruturando uma grande mudança para a Zapia a partir do mês que vem. Ainda não posso dar detalhes, mas teremos novidades depois do Carnaval. Isso torna as projeções mais difíceis, porque estamos falando de características completamente novas. A Zapia nasceu em um momento de profunda transformação da inteligência artificial, e sabemos que esse é um processo contínuo. O cenário muda o tempo todo, e a gente precisa se reinventar constantemente para acompanhar essa evolução.”
Para ela, o debate com a Meta toca em um ponto central para o futuro do setor. “Não podemos permitir que empresas grandes tenham poder absoluto. A inovação acontece quando alguém novo transforma uma lógica já estabelecida. O espaço precisa estar aberto, não bloqueado”, conclui.