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Sem fronteiras: esta é a tônica da trajetória de Candice Pascoal, CEO e fundadora da Kickante, uma das primeiras plataformas de crowdfunding do Brasil.

Nascida em Salvador, a empreendedora é também americana, e passou grande parte da adolescência e da vida adulta em Nova Iorque, onde mora atualmente. Mas a vivência internacional da fundadora não se limitou aos dois países. Como boa cidadã do mundo, Candice morou na Holanda por vários anos, e em outros países da Europa, de onde tocou a Kickante desde a fundação da startup, em 2013.

Ao longo dos anos, a Kickante contribuiu para uma ampla difusão do crowdfunding no Brasil. Desde o início de suas atividades, a plataforma captou mais de R$ 300 milhões em cerca de 100 mil campanhas, que mobilizaram mais de 2 milhões de brasileiros. As experiências da fundadora na startup serviram de matéria prima para um livro, Seu Sonho Tem Futuro, publicado em 2017 pela Editora Gente, que discorre sobre como uma pessoa pode tirar um projeto do papel em seis meses.

À medida em que sua startup foi tomando vida própria, Candice abriu novas frentes de trabalho, como a plataforma de empreendedorismo digital Você Expert, e a Alfredus Prosperitas, empresa cujo foco é growth hacking, marketing e inovação digital.

Em um papo com o Startups, Candice falou de sua jornada como empreendedora, além de equilíbrio entre a vida pessoal e profissional, propósito, saúde mental e a evolução do crowdfunding no Brasil. Confira, à seguir, os melhores momentos da conversa:


Startups: Como é ser uma cidadã do mundo, liderando uma empresa que opera no Brasil?

Candice Pascoal: A Kickante é uma empresa americana que nasceu em Nova Iorque, a partir dos meus contatos com investidores nos Estados Unidos. Optamos por começar a atuação da empresa no Brasil, porque vimos que o mercado [de crowdfunding] era mirim, com muito espaço para inovar. Quando penso sobre o que isso tem a ver com ser uma cidadã do mundo, não vejo o mundo como Estados Unidos, Brasil, Argentina etc, e sim como espaços e oportunidades.

Isso de ser cidadão do mundo também significa que a gente sempre sente saudade de um lugar. Nasci no Brasil, onde fiquei até os meus 20 anos de idade, e sou cidadã americana também. Mas desde os 13 anos de idade, ficava cerca de 30% do meu tempo fora do país, estudando ou estagiando. Morei na França, na Espanha, além da Holanda e Estados Unidos, onde passei ainda mais tempo. Tenho amigos que são família para mim em todo canto do mundo e tenho memórias afetivas em todos os locais por onde passei.

Por outro lado, quando o mundo está aberto para você, com possibilidades de morar e trabalhar em qualquer lugar e mudar de um país para outro com muita facilidade, isso também traz desafios. Quando você é cidadão do mundo, geralmente acaba indo para os grandes centros urbanos, com pessoas indo e vindo o tempo todo, e você sempre se vê renovando sua comunidade, amigos, sua rede de apoio.

Mas vejo que o mundo está caminhando para [esse estilo de vida] de uma maneira geral, principalmente com o trabalho remoto ganhando força. Talvez isso não ocorra daqui a dez anos, mas em algumas décadas o mundo vai ser mais sem fronteiras, embora o momento atual seja difícil para se pensar nisso, com tantas portas sendo fechadas.

S: Você escreveu um livro, chamado Seu Sonho Tem Futuro, lançado em 2017. Qual é o seu próprio sonho?

CP: Trabalhar impactando e ajudando as pessoas, mas com a bandeira de não é preciso desassociar fazer o bem de fazer dinheiro. O livro Seu Sonho Tem Futuro foi o primeiro best-seller de uma mulher empreendedora no Brasil e tenho muito orgulho disso, porque isso também ajuda outras mulheres a lançarem seus livros e verem que isso é possível em um país que não lê muito. Ver milhares de pessoas comparando o livro de uma mulher falando sobre empreendedorismo é algo que me trouxe muita felicidade.

Até hoje, recebo mensagens de pessoas dizendo que, graças ao livro, a vida delas mudou. Muitos sonhos tem futuro, mas muitas vezes, as pessoas se perdem com medo, falta de planejamento, ou pensam que o sonho grande é a realidade do dia a dia, e não uma construção diária. O livro fala sobre como fazer isso de forma muito didática e sem termos em inglês – aliás, acho essa mistura de português e inglês que usam por aí um desserviço. A revolução empreendedora no Brasil só vai acontecer quando todos, e principalmente a massa, fizerem parte disso. É de lá que virão as grandes inovações, que representam a maior parte da população.

Com base nos insights que tive quando escrevi o livro, lancei a plataforma Você Expert, em que falo sobre as técnicas que eu uso no Brasil e Estados Unidos para promover empresas e ganhar no mercado digital. Todo mundo consegue fazer isso, é só saber os passos.

S: Você parece ter algo parecido com o que chamam de carreira portfólio, com várias experiências profissionais ao longo dos anos. Como foi esta construção?

CP: Essa construção foi surgindo ao longo dos anos. Comecei a minha carreira nos Estados Unidos, e com 23 anos, eu já era vice presidente internacional do maior selo de música de world music do mundo, a Putumayo World Music. Fui crescendo no mercado corporativo e quando decidi lançar a Kickante, foi da maneira que a maioria das mulheres resolvem empreender.

Eu queria ter meu próprio negócio, e a maioria das mulheres empreendem porque querem ter independência, depois de ter filhos. Comigo também foi assim. Eu nem sabia o que era uma startup, nada disso. O que eu constatei foi que o crowdfunding era algo super comum nos Estados Unidos e ainda muito pequeno no Brasil.

Com a minha experiência lançando empresas americanas ao redor do mundo, vi que conseguiria fazer aquilo muito rápido, porque eu via as inovações que eram necessárias e já tinha uma bagagem muito grande para fazer acontecer. Viajei para encontrar com dois investidores anjo que conheci em meu trabalho em Nova Iorque, e em uma reunião eles me deram o investimento seed que eu precisava para lançar [o aporte inicial de US$ 1 milhão, é o único que Candice divulga].

Um ano depois do lançamento, a Kickante cresceu, ganhou múltiplos reconhecimentos, rodou as maiores campanhas de crowdfunding do Brasil. Com base nessa trajetória, fui convidada para escrever um livro. Isso nem que nem era algo que eu considerava, já que estava focada na Kickante, Mas aceitei, e durante o processo de escrita, começaram a vir outras ideias e oportunidades, como a Você Expert.

Devido ao sucesso da Kickante, outras empresas no Estados Unidos me procuraram para inovar ou criar o segmento digital ou fazer o marketing digital deles por fora e criei a Alfredus Prosperitas para atender a estas demandas.

Sempre acreditei no foco para fazer uma empresa acontecer. No começo da Kickante, vieram vários convites para que eu fosse sócia de outras empresas e muitas oportunidades: recusei todas no começo. No começo de uma startup, você precisa desse fogo, de não ter um plano B. Só depois de sete anos de Kickante, com o time já estabelecido sem precisar de mim em tempo integral, é que fui fazer outras coisas.

S: Qual é a sua visão sobre quem negligencia a vida pessoal para o negócio dar certo? É possível ser um empreendedor de sucesso e também viver com qualidade?

CP: No meu livro falo sobre esse tema, e digo que é preciso ter um equilíbrio. Se você não tem isso, a conta vai chegar um dia. Você tem que ter espaço para os seus filhos, espaço para a sua vida pessoal. Nessa toada, em cinco, sete anos, o empreendedor entra em um quadro de exaustão mental, o investidor ou chefe coloca outra pessoa para fazer o trabalho. Mas uma recuperação total pode demorar um ou dois anos.

Na Kickante, temos um dia da saúde mental, em que o dia é pago pela empresa para que as pessoas façam o que quiserem, menos trabalhar. Eu insisto muito nisso. Em empresas grandes, o mundo está indo na direção de semana de trabalho de quatro dias, com expedientes com menos horas ao dia para a pessoa poder focar e entregar mais. Um empreendedor ou um colaborador exausto não trabalha bem.

A CEO da Kickante, Candice Pascoal

Um empreendedor tem que ser bem profissional e saber que tem que trabalhar sim, e muito. Eu trabalho bastante com todos os projetos que eu tenho, mas você tem que ser muito organizado e, principalmente, pensar na saúde e na energia que você precisa. No fim do dia, se você não dar espaço para sua família ou para você mesmo, você não vai conseguir executar o que precisa executar. Principalmente em um mercado com tantas dificuldades macroeconômicas, só a inovação empreendedora salva. E você não vai conseguir ter inovar como empreendedor, se estiver mentalmente exausto.

S: Como você vê a evolução da Kickante, considerando que você está nadando em um oceano cada vez mais vermelho com várias empresas que atuam no mesmo espaço?

CP: [No nosso segmento] existe o crowdfunding, a vaquinha, e o financiamento coletivo. A vaquinha online é mais para campanhas de cunho pessoal e emergencial. O crowdfunding é mais usado por startups e negócios, e o financiamento coletivo é mais usado por artistas, livros etc.

Na Kickante, nós temos todos os grupos na plataforma, assim como temos doações ou contribuições ou participações, que são mensais ou recorrentes. Ao longo dos anos, evoluímos e nos tornamos um marketplace financeiro, que faz não só campanhas, mas também tem lojinhas online, um CRM para gerenciamento de envio de recompensas ou de produtos vendidos. Somos uma plataforma completa para creators e organizações que querem não só captar fundos, mas também ter uma solução estável e perene para os seus negócios.

Existe espaço para todos captarem. As pessoas querem participar do coletivo e isso só tem crescido. A pandemia foi uma das épocas que a gente mais capto, para lançamento de livros, de álbuns, de negócios e todo tipo de projeto. O brasileiro gosta do pertencimento e é uma das sociedades que mais gosta disso, do fazer parte. E é aí que entra que uma plataforma que traz todas essas ferramentas e faz com que as pessoas se sintam parte de algo maior, e não apenas uma troca de dinheiro por um produto.

Já fizemos mais de 100 mil campanhas, com mais de 2 milhões de brasileiros contribuindo. Ainda considero muito pouco, comparado ao potencial de mercado, mas acredito em uma evolução do mercado em seu próprio passo. Nossa meta é continuar popularizando o conceito de financiamento coletivo, crowdfunding e vaquinha para todo o país.

Hoje, o crowdfunding é o braço direito do americano já há algum tempo. Mas isso ainda não acontece no Brasil no ponto em que ele poderia ser, de maneira mais popular. Hoje o crowdfunding ainda é restrito a um segmento da sociedade, e nosso objetivo segue sendo popularizar o conceito cada vez mais, e torná-lo uma ferramenta importante para a realização dos sonhos. Para que as pessoas não se endividem sem razão, ou deixem de seguir os seus objetivos, porque acham que seu sonho não é uma possibilidade.

S: Você planeja buscar capital em um futuro próximo?

CP: Eu não sou a empreendedora que vive correndo atrás de investimento. Lá nos primeiros três anos, a gente buscou capital e logo depois o nosso head financeiro falou: essa história de startup só vivendo de investimento está errada. Vocês têm que ser sustentáveis. E se vocês não têm o modelo de negócio que se auto sustenta, que cresce com vocês mesmos, vocês sempre vão ser dependentes de alguém de fora para ajudar.

Essa foi uma grande sacada que ele nos deu há uns quatro anos atrás, considerando que hoje as startups estão começando a sofrer e tentando correr atrás do tempo perdido. Em muitos casos, essas startups tem uma máquina que depende de investimento e então tudo se torna muito mais difícil. Então a gente vê aí essas demissões em massa, coisas do tipo.

Temos uma estrutura na Kickante que se auto-sustenta. Não divulgamos investimentos, mas recebemos [outros aportes]: geralmente o investidor vem a mim e diz que gosta muito não só a empresa faz, mas de quem eu sou e do que eu faço. E aí, a gente analisa cada caso [Candice e seu irmão atualmente retém cerca de 50% da startup].

Acho que um ponto principal para empreendedores é prestar atenção se o investidor tem a ver com a empresa e com seu modelo de negócio e de pensamento. Porque no fim do dia, quem vai ficar lá ligando a luz toda vez que ela se apaga é o empreendedor. Estou sempre aberta a receber investidores e revisar o que eles têm a oferecer, mas não dependemos de investimento para crescer.

S: Em um horizonte de longo prazo, o que você se enxerga fazendo, para além da Kickante e seus projetos atuais?

CP: Eu já faço muitas coisas além da Kickante, atuo em educação de empreendedorismo digital para as massas e quero continuar trabalhando sempre com isso. Quando você mora por tanto tempo nos Estados Unidos e vê a diferença de oportunidades no Brasil, conclui que isso não é justo. Por outro lado, você também você vê que o Brasil não vai mudar se continuar ajudando quem já tem ajuda.

Eu tenho um amor muito grande pela base brasileira, que é extremamente inteligente e sofrida. Quero seguir criando soluções e trabalhando muito para conseguir fazer com que conhecimento chegue a eles, por meio da Você Expert, e com ferramentas por meio da Kickante, para que eles possam tirar seus projetos do papel, crescer e alcançar tudo o que desejam.

Hoje, o trabalho que eu faço alcança uma parcela dessa população. Mas, ainda assim, é um público bem nichado. No longo prazo, espero poder ajudar muito mais pessoas, a base da sociedade do Brasil. Porque é só aí que realmente a gente vai ver inovação empreendedora acontecendo no nosso país de verdade. A gente precisa incluir todo mundo.


Raio X – Candice Paschoal, CEO e fundadora, Kickante

Um fim de semana perfeito tem…Um programa calmo. Passar tempo com meu filho, andar pelas ruas de Nova Iorque, ir a um museu com ele, sentar em um café, comer bolo e dar risada juntos. Fechar o dia indo a uma livraria, voltando para casa e lendo um livro novo.

Uma coisa simples, que você não vive sem: Não vivo sem me exercitar e me alimentar bem, porque preciso de muita energia para fazer tudo o que faço. Sou muito regrada nesse sentido.

Um prato favorito: Adoro comida vegana. Mas quando o assunto é comida típica brasileira, gosto muito de abará, vatapá, pratos da Bahia.

Uma música: Flor de Ir Embora, de Dorival Caymmi e Fátima Guedes.

Um livro: Onde Os Sonhos Acontecem: Meus 15 Anos Como CEO Da The Walt Disney Company, de Robert Iger.

Como você relaxa? Meditando em contato com a natureza. Se eu puder estar perto da praia, sentada em frente ao mar, isso me renova completamente.

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