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Aproximar as pessoas dos seus direitos: foi com esse objetivo que Gilmar Bueno fundou a Unicainstancia, legalfintech que compra a briga do consumidor com fornecedores de serviços como telefonia celular, e adianta indenizações relativas a casos de cobranças indevidas.

Engenheiro de produção formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Gilmar não é um empreendedor de primeira viagem. Já atuou em fotografia e eventos, desenvolveu uma plataforma focada na aproximação do público universitário com empresas e até um marketplace de repúblicas. Depois de assistir às dificuldades que sua mãe enfrentou na Justiça, teve a ideia de criar seu empreendimento atual, durante o recesso da faculdade em meio ao auge da pandemia de Covid-19.

Em um papo com o Startups, Gilmar falou sobre sua trajetória empreendedora, motivação, diversidade, grandes mudanças e ambição. Veja, a seguir, os melhores momentos da conversa.


Startups: Você fundou uma empresa em meio ao agravamento da pandemia da Covid-19. Como foi o processo de colocar a Unicainstancia em pé e fazer o negócio ganhar tração em um momento tão conturbado?

Gilmar Bueno: Brinco com a minha sócia que o único CNPJ aberto em maio de 2020 no Rio de Janeiro foi o nosso. Infelizmente, aquele foi um dos meses em que as mortes por Covid-19 chegaram ao seu ápice no Brasil. Ao mesmo tempo, estávamos abrindo a empresa e tivemos receio, mas também adotamos algumas estratégias. Por exemplo, a gente evitava acompanhar muito os jornais, porque era muita notícia triste. E a gente sempre ouve dizer que não existe um empreendedor pessimista, então evitávamos uma carga negativa. Ainda estávamos na faculdade, em recesso, e nos isolamos não só fisicamente, mas também dentro do nosso conteúdo e do que precisávamos fazer: foi uma abordagem tudo ou nada.

Eu e a Sara [Raimundo, co-fundadora e COO da Unicainstancia] já tinhamos pedido demissão antes da pandemia. Aquele momento foi muito de tentar aproveitar a oportunidade, buscar uma luz em meio a tanta escuridão. Felizmente, estávamos preparados fisicamente, pois estávamos nos cuidando, e também preparados financeiramente, pois tínhamos buscado uma reserva quando estávamos em trabalhos formais. Também tínhamos um preparo emocional, por já termos empreendido antes. Mas se não tivéssemos nos preparado nesses três aspectos, provavelmente não teríamos conseguido imprimir a energia que é necessária para criar uma empresa num cenário de insegurança como o que surgiu com a pandemia.

S: Qual foi a sua motivação pessoal para criar a Unicainstancia?

GB: Segui o caminho das exatas na universidade, e acabei empreendendo no direito. Mas a minha trajetória mistura muitas coisas: já fui fotógrafo, fiz três anos de teatro, e empreendi em várias outras frentes incluindo um marketplace de repúblicas estudantis, uma consultoria para empresas acessarem o ambiente universitário, e uma empresa de eventos.

Minha motivação pessoal para criar a Unicainstancia veio de dentro de casa, de duas mulheres negras. Uma é a minha mãe, que enfrentou um problema de justiça com uma operadora de telecomunicações quando eu estava cursando a matéria de empreendedorismo na faculdade, na Universidade Federal do Rio de Janeiro, no curso de engenharia de produção. Eu a estimulei muito a entrar na Justiça, e ela teve uma experiência muito ruim e ficou muito triste, dizendo que não faria isso novamente.

Como eu já tinha empreendido em outros momentos, já sabia que problemas podem guardar grandes oportunidades. O início da Unicainstância, na verdade, é o início da minha investigação para tentar compreender as dores da minha mãe dentro do acesso aos direitos dela. A outra inspiração é a minha avó, que ao invés de ler fábulas pra mim, lia jornais, então sempre tive um interesse pela ética e pelos direitos, e como o acesso a eles afeta o nosso dia a dia.

S: Por qual motivo você escolheu uma mulher para ser sua co-fundadora?

GB: A Sara me impressiona a cada dia – não pelos aspectos técnicos, porque eu já sabia que ela era muito competente no que se propunha a fazer, mas pela sensibilidade dela em me compreender. Não é só sobre ela ser uma mulher, mas sim sobre ser uma mulher preta. Convidá-la foi a melhor decisão que tomei, e foi uma decisão intencional.

Acho que buscar o caminho da diversidade e da inclusão passa por intencionalidade, ação e de fato contratar mais pessoas pretas. Eu quero contratar mais mulheres, mais pessoas LGBTs. A Unicainstancia tem mais de metade de mulheres no time. Claro, é um time enxuto, não somos uma Ambev, mas isso representa alguma coisa. Sobretudo, representa intencionalidade.

Outro dia, um outro fundador me disse que era muito legal ver a Sara e eu juntos, porque parecia que somos parceiros – o que é verdade. Se você está empreendendo em um ambiente onde não tem muitos iguais, onde muitas vezes você vai sentar numa mesa e você vai ser o único ou a única, ter alguém ali do seu lado que te compreende é fundamental. Felizmente, a gente tem tudo isso. A gente tem essa parceria, de ambos os lados.

O CEO e co-fundador da Unicainstancia, Gilmar Bueno (Júlia Passos)

S: Você está de mudança do Rio para São Paulo. Por que você tomou esta decisão?

GB: [A mudança] é um passo estratégico para a Unicainstancia. Além disso, consigo compreender algumas coisas nesse jogo do venture capital. A primeira delas é que, querendo ou não, é um mercado fechado e que muito provavelmente vai investir em pessoas já conhecidas por eles próprios. E essa rede está, sim, concentrada em São Paulo. Por outro lado, se vejo que a empresa vai se desenvolver, caso eu aprenda determinada habilidade, estiver em determinado local ou me posicionar de determinada forma, vou fazer isso sem problemas.

E a Unicainstancia começou na pandemia de forma totalmente remota, construimos o time desta forma. Temos pessoas do Pará, Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia, Santa Catarina e de Minas Gerais: não dá para dizer para estas pessoas todas largarem tudo e irem para o Rio, ou São Paulo. Então, a decisão [da mudança] não vai impactar o nosso time, porque todos já trabalham remotamente.

S: Você tem 29 anos de idade. Como é ser um jovem negro empreendendo no ambiente de startups brasileiro?

GB: É um sonho realizado. Sempre tive vontade de empreender, independente da cor da minha pele, e estou fazendo tudo o que um dia imaginei que faria no início da faculdade. Mas também é desafiador. Tem muita responsabilidade envolvida, até mesmo pelo fato de terem poucos empreendedores negros, acaba que me é exigido que eu consiga representar uma boa parte da população, que não é representada dentro desse nicho. Também me é demandado que eu tenha um posicionamento praticamente sobre tudo, quando isso não é cobrado, por exemplo, de empreendedores brancos.

Apesar de ser um dos poucos representando muitos, sei que não estou sozinho. E também é gratificante ser visto como um exemplo para que outras figuras que também têm vontade de empreender também consigam fazer isso. As fases que atravessei como empreendedor me trouxeram mais maturidade, e ser uma referência é uma missão que abracei.

Tenho vontade de empreender, ter um sucesso financeiro e profissional e de conseguir mais do que ser uma figura de representatividade positiva. Quero poder contribuir diretamente com outros empreendedores negros. É uma decisão e uma vontade que eu tenho de não só representar, mas também estimular outros, e fazer com que o caminho dos próximos seja mais fácil que o meu.

S: Você percebe alguma melhora recente nas condições para que pessoas negras possam ter sucesso no ambiente de startups no Brasil?

GB: Vou dizer que as coisas estão melhorando, mas, ao mesmo tempo que recebo um apoio – seja através de um programa que vai me conectar a mentores que eu não teria acesso, ou que vai me dar um investimento, promover uma parceria ou me dar créditos para usar determinada plataforma – tudo isso infelizmente será sempre recortado pelo que vejo ao meu redor.

Na prática, é muito complicado ser um empreendedor negro e ver que estou recebendo apoios e, ao mesmo tempo, saber que homens pretos, muito parecidos comigo, estão sendo mortos. Vejo que tem gente no setor de venture capital e de startups se movimentando [para promover mudanças], com certeza. Mas, ao mesmo tempo, é muito difícil ser um homem negro consciente racialmente, e ver que uma pessoa como eu está sendo torturada dentro de um carro da polícia, por exemplo. Eu vejo o apoio que recebo, e que pessoas como eu também recebem. Mas também não consigo ignorar esse outro lado.

S: Pensando em um cenário em que você terá atingido seus objetivos em termos de realização profissional, financeira, com uma ou mais saídas, e influência, como você enxerga sua vida futura?

GB: Realmente tenho vontade de fazer uma saída, alcançar um crescimento arrebatador – e a gente está trabalhando todos os dias para atingir esse objetivo. Caso tudo isso ocorra, quero seguir empreendendo. Eu realmente gosto do que faço e estou vivendo meu sonho. Adoro conversar com gente para contratar, dar feedback, pensar em parcerias.

Também penso muito em seguir estudando. Já morei fora do Brasil duas vezes, já tive bolsas de estudos nos Estados Unidos. Penso também em fazer um MBA fora, até mesmo por uma questão estratégica, já que [investidores] de venture capital investem em quem conhecem. Não estou aqui para apoiar isso, mas estou aqui para lidar com essa realidade, e por isso devo buscar uma formação ainda mais gabaritada.

Passei por um colégio muito tradicional no Rio de Janeiro, o D Pedro II, que já formou quatro ex-presidentes, e também passei pela principal escola de engenharia de produção desse país, a UFRJ. Penso muito em giveback, pensando em pessoas pretas, homens e mulheres. Penso muito em formas de facilitar o empreendedorismo em tecnologia para alunos de escola pública, para que eles possam empreender por opção, por decisão, e não por necessidade. Penso em como fazer com que pessoas saiam da universidade pública e não queiram apenas fazer um concurso público, mas sim criar empregos – e como fazer com que tudo isso chegue em pessoas pretas.

Venho de uma realidade vivida entre o Complexo da Penha, o Complexo do Alemão e o Complexo da Maré – a casa dos meus pais fica entre os três. Então, penso muito em voltar para esses locais e falar para garotos como eu fui, que moram entre conjuntos de favela extremamente perigosos no Rio de Janeiro, que é possível empreender também. Mas eu não quero só falar: eu quero contribuir.


Raio X – Gilmar Bueno, CEO, Unicainstancia

Um fim de semana ideal tem…Como bom carioca, adoro o sol e praia. Pensando em um domingo, acordo cedo, tomo café, faço um ritual de autocuidado. Vou à praia, ando de bicicleta, entro no mar, ouço música. Posso fazer isso sozinho, ou com vários amigos. Volto para casa, leio um livro, vejo um bom filme, tomando um bom vinho.

Uma coisa simples, que você não vive sem: Caminhar.

Uma música: Toda a discografia dos Racionais MCs, ou do Jorge Aragão.

Um filme: Django Livre, de Quentin Tarantino.

Um livro: Do Zero ao Bilhão, de Daniel Bergamasco. Tem histórias engraçadas, constrangedoras: me diverti com este livro. Fala-se muito do mercado de venture capital, de empreendedorismo, mas ninguém ainda tinha escrito um livro sobre nós, as pessoas que estão fazendo história.

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