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Em um pouco mais de um ano desde a sua fundação, a Octa avança a passos largos rumo à transformação da indústria do desmanche. Capitalizada após a conclusão de uma rodada seed, a empresa sofistica sua proposta de circularidade da cadeia automotiva que atende companhias com grandes frotas de veículos, como Enel e Mobi Brasil.

A Octa é liderada por Arthur Rufino, ex-CEO da JR Diesel, uma das principais empresas da América Latina de desmontagem e reciclagem de veículos, e Daniel Oelsner Lopes, sócio da Fisher Venture Builder. A empresa opera em um mercado ainda envolto por desafios, como a informalidade e a atividade criminosa associada a desmanches mas que, em seu potencial total, vale aproximadamente R$ 40 bilhões.

O interesse na tese da empresa, que propõe profissionalizar o setor de desmontagem veicular com plataformas digitais chamou a atenção dos investidores. A startup criada em dezembro de 2020 levantou R$1 milhão de 11 anjos da rede da Fisher em maio de 2021 e acaba de anunciar R$ 8 milhões em um aporte liderado pela Vox Capital, em que os anjos fizeram follow-on. Em janeiro deste ano, a startup também foi selecionada para o Black Founders Fund, iniciativa de investimento e aceleração do Google para empresas com fundadores negros.

A proposta da Octa visa endereçar as ineficiências do setor de desmontagem no Brasil, que atualmente tem a frota de veículos mais velha dos últimos 25 anos, segundo estudo do Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores (Sindipeças). A startup estima que apenas 10% dos veículos que não cumprem mais a sua função – por estarem inativos, batidos, queimados ou sucateados – são corretamente reciclados, ao passo que o percentual supera os 80% em mercados como Estados Unidos e Europa.

“Nosso objetivo é fechar a circularidade automotiva, que é basicamente garantir que os veículos dessas frotas tenham uma vida útil ampliada, com a garantia de uma manutenção saudável de baixo custo”, diz Arthur, em entrevista ao Startups. Ao mesmo tempo, a empresa se posiciona como um ator importante na redução de roubo de veículos e da redução de emissões de CO2 da cadeia.

Como a Octa opera

O modelo de negócios da startup inclui a venda ativa de veículos para centros de desmontagem veicular (CDVs) e uma frente de venda de peças usadas certificadas para manutenção que será lançada ainda este ano.

Em seu curto tempo de existência, a Octa já começa a ver os resultados de sua atuação. Desde que lançou o Octa In, sua solução de intermediação de venda de veículos de frotistas para os CDVs, a empresa gerou mais de R$2 milhões em transações. Segundo a empresa, cerca de 650 toneladas de metais foram recicladas através da desmontagem fora do mercado informal.

“Tivemos um processo muito rico de descobertas com os frotistas [após o lançamento do Octa In]. Para as grandes locadoras ou montadoras que tem locação de seus próprios veículos, a utilização de peças usadas é muito estratégica pois possibilita a eles repensar a gestão de estoques de peças para a manutenção das frotas e ao mesmo tempo, se beneficiar da redução do custo destas peças”, diz Arthur.

Os cofundadores da Octa, Arthur Rufino e Daniel Oelsner Lopes. (Brunno Fernandes/Agência IIMAN)

Próximos passos no roadmap da Octa incluem o lançamento do Octa Re, um marketplace de peças usadas com garantia, que tem como objetivo fechar a circularidade dos clientes e está em reta final de validação. O Octa CDV, que atuará como uma plataforma de gestão para centros de desmontagem e montadoras e garantirá a rastreabilidade e qualidade das peças, também está entre as prioridades para os próximos meses.

“A ideia é que as empresas vendam o veículo para nós, comprem peças usadas de nós, e ao mesmo tempo gerem uma redução significativa de emissões em reuso, remanufatura e reciclagem, além da ampliação do mercado formal de desmontagem e a consequente redução no roubo de veículos”, explica o CEO da Octa.

Em termos de projeção de crescimento para 2022, a startup quer expandir seu ecossistema de mais de 100 empresas – incluindo frotistas e CDVs – em cinco vezes. Com o aporte da Vox, a companhia também vai aperfeiçoar suas plataformas de tecnologia e acelerar as contratações: o time atualmente tem 15 profissionais, número que deve dobrar até o fim do ano.

Além disso, Arthur diz que o impacto ambiental da empresa será ainda mais expressivo nos próximos meses. Atualmente, a Octa diz ter evitado a emissão de 800 toneladas de CO2 com o reuso de peças e reciclagem de mais de 650 toneladas de metais. Ainda em 2022, a companhia pretende reciclar e viabilizar o reuso de cerca de 3.000 toneladas de metais de veículos fora das estradas.

Por outro lado, o modelo da Octa enfrenta desafios. Entre eles, está a promoção de uma mudança de mentalidade no próprio setor, em especial entre potenciais clientes. “Temos muita clareza do problema do frotista, mas quando falamos em CDV, veículo em final de vida, as pessoas sequer conhecem estes conceitos. Um grande desafio é como achar os termos corretos para tornar a comunicação mais fluida e redesenhar o mercado”, diz Arthur.

Além disso, há a questão da burocracia, em entes como o Detran, que precisa dar baixa em veículos antes que eles possam ser desmontados para a reutilização de peças, em processo que nem sempre é rápido ou simples.

“É uma questão de hackear este sistema, encontrar formas de usar o governo contra a corrupção e a favor do fomento que a gente precisa,” diz o empreendedor. “A Octa tem este desafio de responsabilizar pela autorregulação do mercado, ao invés de só ficar esperando que as coisas se resolvam sozinhas.”

Rumo à Série A

Depois de fechar sua primeira rodada, a Octa colocou seu primeiro produto em pé. Segundo Arthur, além de capital, a rede de anjos que apoiou a Octa como pessoas físicas – que incluem Fernando Albuquerque, sócio de empresas como a RE/MAX, de franquias imobiliárias e da Petland; Álvaro Taiar, ex-PwC e CPO da startup norte-americana RockSpoon; Jan Gunnar Karsten, ex-CEO do family office Julius Baer e Antônio Castro, executivo da Petrobras – aportou smart money, que inclui o acesso à uma vasta rede de relacionamentos.

“Além das conexões que eles trazem para a mesa, [estes anjos] trouxeram validações e uma visão de oportunidades muito importante”, diz Arthur. Com o aumento no volume de veículos transacionados pela sua plataforma inicial e faturar em setembro de 2021, a Octa abriu a captação da segunda rodada, em outubro. Antes disso, a empresa teve o aporte do Google, de valor não divulgado.

“Este movimento [da rodada seed] não estava no roadmap, mas [captamos] porque rapidamente entendemos que existiam oportunidades latentes, que precisávamos endereçar mais rápido do que pensávamos”, pontua Arthur.

O CEO da Octa acrescenta que os relacionamentos viabilizados pelos investidores iniciais se provaram ainda mais valiosos à medida em que a startup se preparava para fazer sua primeira rodada institucional.

“Percebemos depois o quão importante essa rede de anjos foi em termos de credibilidade para os fundos de VC e também fazer apresentações. Alguns destes anjos são LPs em fundos que falaram conosco, e fomos muito bem recebidos em algumas destas gestoras por conta disso”, ressalta.

Segundo o empreendedor, a dinâmica para o aporte seed foi bem diferente das captações anteriores da Octa. “É um outro nível de questionamento, muito conectado com uma visão de Series A: o fundo quer saber se a gente vai chegar lá e de que forma, com um captable em que a participação do founder principal se mantém acima dos 55-60%”, pontua Arthur.

E quando a Octa fará sua Série A? Arthur estima que a próxima captação deve acontecer em um período entre 12 e 18 meses. A esta altura, a Octa deve buscar capital para desenvolver a frente de crédito para CDVs, e fazer aquisições de soluções complementares, primariamente empresas de software de nicho, em áreas como análise de documentos e orçamentos, para tornar a ferramenta principal mais robusta.

“Daqui a um ano, quero estar discutindo quais foram nossas aquisições, além de ótimos problemas, como a expansão do time. Quero falar sobre a entrega tecnologias mais consistentes de rastreabilidade de peças e trazer montadoras para isso, garantindo que toda a cadeia esteja participando da economia circular automotiva,” diz o empreendedor.

Dado o aumento de esforços de empresas em agendas como meio ambiente, social e governança (ESG), Arthur diz a evolução na receptividade das empresas envolvidas na cadeia tem sido significativa nos últimos anos.

“[A visão de economia circular no setor] não é mais um sonho distante. Veremos empresas dando as mãos para fazer isso acontecer, seja por puro altruísmo e acreditar que isso é melhor, ou por ordens da matriz. Não importa se será um movimento autêntico ou não: o que importa é garantir a circularidade legal,” conclui.

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