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R$ 1,05 milhão em 20 horas. Este foi o valor que a Health ID levantou na sua oferta pública na CapTable, atraindo 220 investidores para sua proposta de exames laboratoriais em casa – um conceito chamado At Home Lab Tests.

A empresa chamou a atenção dos investidores com a proposta de simplificar a jornada do cliente na realização de check-ups de saúde e exame laboratoriais. A startup assegurou o registro exclusivo junto à Anvisa do método de coleta DBS (Dried Blood Spot), que permite aos pacientes fazer a coleta de sangue em casa, sem a necessidade de ir ao laboratório – e consegue fazer a leitura das amostras de sangue seco com maior precisão.

Pelo kit de autocoleta, as amostras de sangue são retiradas por meio de uma lanceta descartável, com a qual o usuário perfura o dedo e pinga gotas do próprio sangue em um papel especial, que é enviado de volta à Health ID para análise.

Apesar do material de autocoleta não ser desenvolvido in-house – é o mesma usada no exterior por marcas como a Everlywell – a tecnologia utilizada na análise das amostras é. A companhia desenvolveu e validou com médicos – contando com dois PHDs em seu time de P&D – uma plataforma própria para a análise e entrega dos resultados dos exames.

Com base nos números e um questionário sobre os hábitos de vida do paciente, a plataforma cruza as informações e desenha um perfil de saúde, antecipando parte do trabalho médico. Por meio deste perfil – a Health ID do usuário – são mostrados potenciais riscos de saúde (cardíacos, diabetes, hipertensão). Além disso, a empresa planeja buscar homologações adicionais para seus exames, incluindo diagnósticos para condições como hipertireoidismo.

Segundo o fundador e presidente da startup, Eduardo Della, o objetivo com o produto é tornar a jornada do paciente mais prática, criando “atalhos” para o processo dos exames. Geralmente, fazer um exame laboratorial envolve primeiro ir no médico, pegar uma requisição, então fazer a coleta no laboratório, voltar no médico e então ouvir a leitura do profissional. Mais recentemente, a Beep e a Labi trouxeram a facilidade de mandar um profissional para fazer a coleta na casa do cliente, tendência que foi seguida por laborátórios como DASA e Lavoisier.

“Nosso objetivo não é substituir o médico, mas sim ajudar a tornar a experiência mais prática para todas as partes envolvidas”, afirma Eduardo. “O médico pode fazer uma consulta à distância, enviar um kit de autocoleta para a casa do paciente, receber os resultados, e caso necessário, agendar uma consulta presencial”.

Além disso, as vantagens listadas por ele são uma forma de mitigar o preço um tanto salgado do exame, que fica na média dos R$ 120 – para fins de comparação, é possível fazer um exame laboratorial “tradicional” por não mais de R$ 30.

“É uma tecnologia importada, então é um custo diferente, mas esperamos que com maior escala possamos reduzir este valor”, salienta Eduardo. Além disso, a startup está envolvida no desenvolvimento de um protótipo próprio do papel de coleta do sangue, o que pode ajudar neste plano.

Investimento em expansão

Do aporte levantado na CapTable, um terço será investido na expansão do produto. E para ganhar tração no mercado, a Health ID tem seus alvos definidos: farmácias, laboratórios e operadoras de saúde. “Neste primeiro momento vamos focar no B2B para ganhar escala”, aponta Eduardo.

Nas farmácias, a healthtech quer aproveitar a recente guinada das redes em se tornar centros de serviços em saúde. Atualmente, o Brasil conta com aproximadamente 90 mil farmácias registradas, e cerca de 10% deste número conta com consultórios internos, oferecendo serviços como aplicação de vacinas e exames.

“As farmácias estão cada vez mais interessadas em se tornar um hub de saúde para seus clientes”, aponta Eduardo, revelando que atualmente duas redes já oferecem em suas lojas o serviço de exame rápido com a Health ID: a Pague Menos, com cerca de 1300 lojas (com 900 consultórios) e forte presença nas regiões Norte e Nordeste; e a Panvel, que tem sua força na região sul, em uma rede de aproximadamente 600 unidades e cerca de 250 consultórios.

Foto de Eduardo Della, founder e CEO da Health ID - Startups
Eduardo Della, founder e CEO da Health ID. Foto: divulgação

No ramo de operadoras de saúde, o foco da Health ID é inserir seus testes nos processos de onboarding para novos pacientes. Segundo explica Eduardo, em vários planos de saúde a única checagem realizada é por meio de um questionário, o que dá poucos dados concretos sobre o usuário. Além disso, em planos que oferecem exames laboratoriais tradicionais em seus onobardings, a taxa de engajamento é muito baixa: cerca de 12%.

“Com o Health ID, operadoras podem enviar um kit e definir o perfil do cliente com maior precisão. Isso vale ouro para elas”, destaca. Atualmente, a healthtech já conta com um cliente de renome utilizando os autoexames para admissão de clientes: a NotreDame Intermédica, que recentemente fundiu operações com a Hapvida.

Em relação aos laboratórios, o CEO ressalta que o plano não é concorrer e sim ajudá-los a ampliar seu leque de produtos, oferecendo uma modalidade menos invasiva que a coleta intravenosa. “Hoje o setor de exames virou uma disputa de preços, e alguns laboratórios estão buscando alternativas para agregar valor”, explica. A startup já firmou um contrato com a rede Hermes Pardini, que oferecerá os exames a seus clientes.

Um conceito em alta lá fora

Conforme explica Eduardo, o conceito de exames em casa é algo que está engatinhando no Brasil, mas que lá fora – especialmente dos Estados Unidos – já está se popularizando, com startups como Everlywell e Let’s Get Checked puxando a frente.

Segundo dados do TechCrunch, a Everlywell (que utiliza o mesmo modelo de exames que a Health ID), registrou um crescimento de 300% nos dois anos de pandemia, chegando a um valuation de US$ 2,9 bilhões no ano passado.

“O mercado norte-americano se abriu novamente para a ideia de autoexames laboratoriais nos últimos anos, depois de passar alguns anos traumatizado pelo caso da Theranos“, aponta o CEO, fazendo referência ao caso da startup que prometeu revolucionar o mercado de exames no início dos 2010s, chegando a ser avaliada em US$ 10 bilhões, mas que não passou de uma fraude – com direito à CEO Elizabeth Holmes indo parar no banco dos réus.

O plano da Health ID é puxar a frente deste mercado no Brasil. “É um oceano azul ainda, por isso aproveitamos o momendo para buscar investimentos e escalar”, afirma Eduardo. A expectativa da healthtech é comercializar de 8 a 10 mil kits até o final de 2022, e chegar a uma meta de 3,5 mil kits vendidos todo mês no ano que vem.

Em 2021, a healthtech teve uma receita de R$ 1,8 milhão, um crescimento de 50% na comparação com 2020. Na rodada da CapTable, ela foi avaliada em R$ 21 milhões.

Healthtech recordista

Para a CapTable, o resultado com a Health ID mostra o crescente interesse do público nas startups de saúde – segundo o cofounder da plataforma, Guilherme Enck, a preferência dos investimentos ainda está nas fintechs. Contudo, a rodada bateu recordes, se tornando a única captação com valor superior a R$ 1 milhão concluída em menos de um dia no Brasil em 2022, entre todas as plataformas de oferta pública.

“O segmento de saúde está gradualmente sendo visto com mais carinho pelos nossos investidores, ainda mais depois da pandemia, e nosso trabalho é partir atrás de startups que se encaixem no perfil da plataforma”, destaca Enck. Atualmente a CapTable conta com 4 healthtechs na sua carteira de 52 startups investidas.

Com a recente ampliação dos limites de captação aprovada pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), Guilherme espera expandir as possibilidades de investimento para startups de saúde, chegando aos dois dígitos de milhões. “Com essa flexibilização, podemos trabalhar em mais categorias de healthtech, e até mesmo atender empresas em diferentes estágios de maturidade. Ampliamos o leque de opções”.

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