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Até os grandes bancos perceberam a necessidade de pensar fora da caixa. Com o avanço do mundo digital e surgimento de startups disruptivas, como foi o caso da Stone, Nubank, Creditas e PicPay, as instituições financeiras também precisaram inovar para atrair novos clientes, aumentar o portfólio de produtos e se manter competitivas.

Com o Santander, não foi diferente. Em julho do ano passado, o banco anunciou a abertura de um novo centro de pesquisa e desenvolvimento em São Carlos, interior de São Paulo, cidade que está se configurando como um polo de inovação no Brasil e em toda a América Latina. São 179 startups e 17 espaços de inovação e coworking, de acordo com o “Report Sanca Hub 2020” elaborado pelo Ecossistema de Empreendedorismo, Tecnologia e Inovação da região, em parceria com a Liga de Empreendedorismo São Carlos.

A unidade foi instalada no Onovolab, centro independente de inovação que conecta corporações com startups e universidades, com o objetivo de empregar 300 especialistas em tecnologia para desenvolver novas soluções e acelerar as ferramentas digitais usadas pelo banco e seus clientes. A meta foi alcançada em outubro.

“Ter o Santander por aqui gera forte impacto na região, deixando cerca de R$ 100 milhões por ano na cidade, além de movimentar os talentos e atrair pessoas de fora”, diz Anderson Criativo, diretor-executivo do Onovolab. Segundo o executivo, o acordo reforça que cidades do interior têm tanto – ou até mais – atrativos para as grandes empresas, com foco em retenção de talentos, inovação e tecnologia de ponta.

Além do Santander, os mais de 21 mil metros quadrados do Onovolab contam com Movile e Luiza Labs, braço de tecnologia e inovação do Magazine Luiza, entre seus residentes, e apoia empresas como Cielo, Mapfre, Philip Morris e Ambev.

Inovação de dentro para fora

Para fomentar ainda mais a inovação, o Santander decidiu lançar, em julho de 2021, a sua própria “startup”, que concentra todos os ativos de tecnologia do banco em uma única empresa. Batizada de F1rst, a companhia, com sede em São Paulo e presença também em São Carlos, abriga as tecnologias para processamento de transações, arquitetura e desenvolvimento. 

“A startup tem como vantagem o apoio de um grande grupo como o Santander, o que passa segurança para os clientes”, diz George Garrido, superintendente de tecnologia da F1rst. A empresa nasceu com mais de 3 mil funcionários diretos e 4 mil terceirizados, que trabalham para prover tecnologia de ponta para todo o ecossistema do Santander.

É de lá que o banco desenvolve e aprimora o app Way, plataforma de gerenciamento de cartões do Santander; os caixas eletrônicos e o Internet banking, solução online de gestão financeira. “O negócio deixou de ser uma simples prestação de serviço e passou a fazer parte da estratégia da instituição, trabalhando na melhoria dos serviços, agilidade de processos e criação de novas tecnologias.” No guarda-chuva da empresa estão os 2 centros de geração digital, em Interlagos (SP) e Jurubatuba (SP), o data center de Campinas (SP) e os dois polos de inovação, um em Belo Horizonte (MG) e, é claro, em São Carlos.

Segundo George, o objetivo é fazer da F1rst uma das maiores e melhores empresas de TI para se trabalhar no Brasil, com foco em diversidade e desenvolvimento de talentos. A missão foi reforçada por parcerias com o departamento de computação da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) para formação e contratação de profissionais indígenas, entre eles, o programa Estação Indígena, e pela iniciativa Estação Code Girls, que contratou 50 mulheres para trabalharem na área de TI da unidade em São Carlos.

As vagas foram destinadas a mulheres que cursam escolas técnicas, profissionalizantes ou universidades do município paulista, e que estejam matriculadas em algum curso na área de Tecnologia da Informação. Elas participaram de 90 dias de capacitação e mentoria em desenvolvimento front e back-end, automação de testes, desenvolvimento android, iOS e agilidade de ciência de dados.

“É uma oportunidade para pessoas quase no nível 0 de experiência já começarem como funcionárias. Depois do período de experiência, há uma avaliação final, e aquelas que apresentarem os melhores resultados, seguirão conosco”, diz George. O objetivo é chegar a 38% de mulheres na área de tecnologia até o final do ano. O executivo antecipou ao Startups que a expectativa é, em 2022, repetir o programa na capital paulista. 

Para Anderson, do Onovolab, as iniciativas ajudam a materializar o que já avançou – e o que ainda falta avançar – em termos de diversidade e inclusão. “É um processo que não muda do dia para a noite. Mas essas iniciativas mostram o que já conquistamos e cria novas oportunidade”. 

De olho nas startups

O Santander tem reforçado seus investimentos no ecossistema de startups no últimos tempos. Em julho, a instituição adquiriu 2 empresas do setor automotivo, reforçando a atuação no segmento no qual já está presente com o Webmotors: a Solution4fleet, plataforma de locação e assinatura de veículos, e a Car10, marketplace que reúne mais de 8 mil oficinas e serviços automotivos. Diversificando os mercados de atuação, o banco também comprou a Apê11, proptech que conecta vendedores a compradores de imóveis residenciais, assumindo 90% de participação no capital social da companhia.

Assim como outros gigantes financeiros, o Santander também já está de olho nas fintechs, mas afirma se posicionar de um jeito diferente dos grandes bancos. “Não vemos mais as fintechs com medo. Cada player tem o seu espaço e valor”, diz George, argumentando que o Santander “tem conseguido oferecer resultados e agilidade num nível semelhante – ou até superior – que muitas fintechs”.

“A linguagem da fintech é muito voltada para o público jovem, então, nosso grande desafio é comunicar para o público que não somos apenas um banco”, diz George. “Somos uma mega fintech, com várias empresas e soluções no ecossistema. O trabalho é mostrar que, como conglomerado, temos taxas mais atrativas, grande volume de clientes e melhores resultados, além de uma série de outros produtos e serviços que extrapolam o financeiro”, completa.

Globalmente, o Santander tem injetado dinheiro em fintechs por meio de seu fundo de investimento, o Mouro Capital – antigo Santander Innoventures. No ano passado, a brasileira a55, que atua em crédito para pequenas e médias empresas usando receitas como garantias, levantou US$ 7 milhões em uma rodada de investimento que contou com US$ 5 milhões do fundo.

Para ampliar o portfólio, o banco adquiriu, em abril de 2020, 50,1% das ações da fintech inglesa Ebury, por aproximadamente 400 milhões de euros. A startup opera como uma plataforma de pagamentos, câmbio e gestão de fluxo de caixa, e chega com o objetivo de ajudar pequenas e médias empresas a expandirem seus negócios internacionalmente.

Briga de gigantes

Apesar de a empresa não se dizer intimidada pelas fintechs, algumas delas já começaram a desafiar o ranking dos 5 maiores bancos do país, formado por Itaú, Bradesco, Santander, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal.

O principal concorrente, obviamente, é o Nubank, que, às vésperas do IPO na NYSE, tem como meta levantar mais de US$ 3 bilhões em sua oferta e somar um valor de mercado acima de US$ 50 bilhões. Se as expectativas se confirmarem, a companhia se tornará mais valiosa do que o Itaú, hoje considerado o maior banco da América Latina.

E não precisa ser uma fintech do porte do Nubank para dar uma sacudida no mercado. O C6 Bank, por exemplo, mostra ter um futuro promissor. Lançado em 2019 por ex-sócios do BTG Pactual, o banco digital conseguiu 1 milhão de clientes nos primeiros 6 meses de vida e, em 2 anos, já havia multiplicado o número por 10, com um valuation acima dos US$ 2 bilhões.

De acordo com a pesquisa global “Customers in the spotlight – how fintech is reshaping banking”, da PwC, 76% dos bancos, ou 3 em cada 4 instituições, se sentem ameaçadas pelo avanço das fintechs. “Isso acontece, pois as fintechs se diferenciam pelo atendimento ao consumidor, ao oferecer meios não tradicionais de comunicação, além de flexibilizar serviços normalmente oferecidos pelos bancos, como empréstimos e pagamentos”, diz a PwC, em nota.

Atento a essas movimentações, o Santander decidiu entrar na onda dos negócios online. Em 2017, comprou a fintech ContaSuper, que mudou de nome e virou a Superdigital, uma conta digital global que promete serviços financeiros sem burocracia. A plataforma já realizou mais de 70 milhões de transações ao redor do mundo e abriu mais de 1,9 milhões de contas.

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