fbpx
Compartilhe

Quando a pandemia chegou no Brasil e as vendas pelo comércio eletrônico dispararam, Givanildo Pereira, hoje com 22 anos, deparou-se com um problema que impactava a vida de muitos moradores de Paraisópolis, onde vive até hoje: a dificuldade de receber os produtos comprados on-line na porta de suas casas. Localizado na zona sul de São Paulo, o bairro abriga uma das 5 maiores favelas do Brasil e enfrenta os gargalos de entregas por empresas que não atendem a região por medo, preconceito ou dificuldade de acesso.

O jovem decidiu, então, criar uma operação logística para entregar as encomendas aos moradores da comunidade. A Favela Brasil Xpress, como a iniciativa ficou conhecida, nasceu como empresa em setembro de 2020, mas já vinha se estruturando desde abril, quando Giva comandava uma rede de “presidentes de rua”, responsáveis por mapear e monitorar a distribuição de cestas básicas e outras doações para as famílias.

“Era difícil receber alimentos, seja de empresas ou pessoas físicas, porque elas tinham medo de trazer até Paraisópolis ou dificuldade de achar os endereços, já que muitas vezes não há uma progressão dos números nas ruas”, comenta Giva. Com o apoio de voluntários locais, ele começou a fazer a triagem, separação e entrega das doaçoes.

Essa dinâmica foi a base para a Favela Brasil Xpress trabalhar com os produtos que os moradores compravam no mercado digital. “Pegamos a rede logística dos presidentes de rua para fazer com que os itens chegassem às nossas casas”, explica o empreendedor. Para estruturar melhor o negócio, analisar a demanda e entender qual era a dificuldade dos e-commerces, a companhia contou com a ajuda de uma grande logtech nacional.

Crescendo com impacto

Em 1 ano de operação, a Favela Brasil Xpress movimentou 700 mil pacotes, que representam cerca de R$ 400 milhões em produtos, e faturou em torno de R$ 6 milhões. A startup já tem como parceiros a Lojas Americanas, Via Varejo, Riachuelo e Total Express, e em breve vai incorporar cerca de 10 novos marketplaces.

O processo é simples: o morador efetua a compra nos e-commerces parceiros, indica o CEP e adiciona um ponto de referência da sua casa. As marcas fazem a triagem em seus centros de distribuição e enviam os pacotes para um ponto estratégico em cada comunidade – normalmente é um lugar com acesso mais fácil à entrada e saída dos caminhões. A equipe da startup – formada 100% pelos moradores das favelas – identifica quem fez o pedido e faz a entrega.

Trabalhar com moradores das próprias comunidades é intencional e estratégico por 2 motivos. Primeiro porque eles conhecem a cultura e a estrutura do bairro, sem muitas dificuldades para encontrar as casas e os moradores. Além disso, a iniciativa fomenta o desenvolvimento econômico e social da região, gerando 350 empregos CLT até o momento e contribuindo para o aumento de renda das famílias.

“Queremos dar a oportunidade do 1º emprego para o jovem recém-formado ou do Ensino Médio se inserir no mercado de trabalho. Convidamos as pessoas para trabalharem conosco e fazemos a capacitação”, pontua Giva. Segundo o empreendedor, os colaboradores têm a oportunidade de subir de cargo dentro da empresa e, caso desejem, serem encaminhados para oportunidades nas companhias parceiras.

As entregas são feitas de moto, bicicleta, Tuk-Tuks, a pé ou com veículos elétricos. O transporte varia de acordo com a característica da comunidade – algumas têm relevos mais elevados e ruas mais estreitas. “Muitas vezes o jovem, principalmente das comunidades, não consegue tirar uma habilitação ou ter veículo próprio, então temos várias alternativas para que ele consiga trabalhar”, completa Giva. A startup, afirma o fundador, também está preocupada com a sustentabilidade, e hoje faz cerca de 30% de suas operações com bikes ou veículos elétricos.

A Favela Brasil Xpress está presente em 7 favelas nas regiões de Paraisópolis, Heliópolis, Cidade Júlia, Diadema e Capão Redondo, em São Paulo, e Vila Cruzeiro e Rocinha, no Rio de Janeiro. Em cada uma, a empresa faz cerca de 2.500 entregas por dia. O objetivo é chegar a 25 bases até dezembro e, no ano que vem, duplicar para 50 em regiões. Os bairros Coroadinho (São Luís, Maranhão), Casa Amarela (Recife, Pernambuco) e Jurunas (Belém, Pará) devem ser incorporados, além de bairros no Distrito Federal e Minas Gerais e outras favelas cariocas.

Para isso, a companhia levantou R$ 900 mil por meio da plataforma de crowdfunding DIVI hub. A captação foi a primeira do projeto Bolsa das Favelas, uma parceria entre a DIVI hub e o G10 das Favelas, bloco de líderes e empreendedores de impacto social das favelas que unem forças em prol do desenvolvimento econômico e protagonismo das comunidades.

Além da expansão, a startup vai investir na capacitação dos colaboradores e aumentar o número de bicicletas e veículos elétricos para fazer as entregas. “Também vamos fechar novas parcerias com empresas e construir uma torre de controle para monitorar todas as bases”, afirma Giva. Para 2022, a meta é entregar mais de 10 milhões de pacotes e gerar mais de 1.500 empregos.

“Hoje, a gente entrega os produtos que as pessoas compram no e-commerce – ou seja, é um dinheiro que está saindo das favelas. Mas queremos fazer o processo inverso: que os moradores coloquem produtos à venda no comércio digital”, diz o empreendedor. Segundo Giva, Paraisópolis tem cerca de 14 mil pontos comerciais e uma parcela muito pequena vende no online. A logtech vai buscar parcerias com empresas que ofereçam capacitações para ajudar os comerciantes a vender no e-commerce e a Favela Brasil Xpress cuidará da parte logística para que os moradores não se preocupem com a entrega dos pacotes.

Parcerias estratégicas

Recentemente, a Favela Brasil Xpress fechou uma parceria com o Google e Americanas S.A  para fornecer endereços digitais aos mais de 100 mil habitantes de Paraisópolis. A iniciativa permitirá que pessoas que não têm um endereço bem definido recebam um código de localização, aumentando a eficiência logística e o acesso a serviços básicos. “A dificuldade dos moradores sem endereço não é só receber encomendas em casa. Eles não conseguem fazer a inscrição do filho em uma escola, por exemplo”, destaca Giva.

A iniciativa, anunciada em maio de 2022, tem o objetivo de gerar 4 mil endereços até o fim do semestre e 30 mil até o fim do ano. O mapeamento será feito com o Plus Code, código universal de geolocalização criado pelo Google para identificar um local com precisão.

A Americanas integrou a tecnologia em sua plataforma de e-commerce, permitindo que o usuário informe seu endereço digital ao realizar uma compra no site. A gigante varejista também está expandindo o Americanas na Favela, programa que inclui comunidades no mapa do e-commerce, para mais de 50 microbases até 2023. A iniciativa, lançada em abril de 2021, já entregou mais de 615 mil pacotes em sete comunidades de São Paulo e do Rio de Janeiro, em parceria com o G10 Favelas e a Favela Brasil Xpress.

Apesar de serem poucas, outras inicativas estão surgindo a fim de resolver os gargalos de entregas de produtos de e-commerce comprados por moradores de favelas e periferias. No último mês, a Favela Holding se uniu à Luft Logistics para criar a Favela LLog, uma joint venture para fazer a operação logística da doação dos alimentos às famílias da favela. O mercado endereçável inclui as mais de 5 mil favelas onde atua a Central Única das Favelas (CUFA), parceira social do conglomerado de empresas liderado pelo empreendedor social Celso Athayde.

“A insegurança não se combate com segurança, e sim com convivência. Quando trazemos pessoas e empresas de fora e mostramos o potencial das favelas, conseguimos dar um passo à frente e criar oportunidades para os moradores”, argumenta Giva. “Daqui 1 ano, espero contar que conseguimos quebrar o muro invisível e a barreira do preconceito que existe no Brasil”, conclui o empreendedor.

OPINIÃO

Veja todas as opiniões