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Fazendas verticais: um novo olhar para a produção e consumo de alimentos

Startups usam a tecnologia a favor da sustentabilidade e da agricultura urbana suprindo demanda não coberta pelas grandes empresas

Por Fabiana Rolfini, em 17 de junho de 2021

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É um tanto quanto assustador parar para pensar que a população mundial atingirá 9,7 bilhões de pessoas em 2050, não é mesmo? Essa é uma estimativa publicada pela ONU, que representa um aumento de 26% em relação aos 7,7 bilhões atuais. Até 2100, o número de habitantes na Terra pode chegar a 11 bilhões, com a maioria deles vivendo em cidades.

Pois é. Como vai ficar a questão climática? E para alimentar tanta gente? São questões que geram preocupação e para as quais ainda não temos respostas. O lado positivo é que elas abrem oportunidades para startups usarem a inovação e a tecnologia a favor da sustentabilidade, passando, obviamente pela agricultura. E não só no campo. Mas também nas cidades. Bem-vindo, bem-vinda à era da agricultura urbana.

E como estamos falando em cidades, com prédios e tudo o mais, o movimento é de criação das chamadas fazendas verticais. Pelo mundo afora, elas já movimentam US$ 781 milhões ao ano e já somaram U$ 1 bilhão em rodadas de investimento captadas desde 2015, segundo o relatório IDTechEx “Vertical Farming: 2020-2030”, que prevê um crescimento anual de 6,85% no segmento. Estados Unidos, França, Alemanha e Dubai são alguns dos países com fazendas verticais consolidadas por startups como InFarm, Plenty, Nordic Harvest, dentre tantas outras.

No Brasil, abrigamos a maior fazenda urbana vertical da América Latina. Em um galpão de 750 m² localizado na cidade de São Paulo, a Pink Farms tem literalmente colhido grandes frutos (tum tum psss). Com 3 anos de vida, a agtech já levantou R$ 8,8 milhões em 3 rodadas de captação, sendo as 2 primeiras por meio de investidores (SP Ventures, Capital Lab e anjos) e a mais recente, de R$ 4,8 milhões, via crowdfunding, pela plataforma SMU.


Geraldo Maia, fundador e presidente da Pink Farms no galpão da empresa em São Paulo

Os recursos serão usados para  o desenvolvimento de novas culturas (hoje são 15 produtos), marketing e na ampliação do time de engenharia para projetos de fazendas maiores. Segundo o fundador e presidente da empresa, Geraldo Maia, a próxima fazenda, prevista para 2022, também será estabelecida em Sampa e será 40x maior que a primeira.

Apesar dos investimentos recebidos, Geraldo pondera que esse mercado no Brasil é muito novo, então conseguir capital ainda é um grande desafio. “As próximas rodadas, pensamos em fazer fora do país. Aqui ainda precisamos mudar a mentalidade para esse tipo de negócio”, afirma. Ao mesmo tempo, é um setor que traz oportunidades. “O mercado é muito carente de produtos de qualidade e não tem uma marca forte. Queremos ser a maior marca de consumo na América Latina nos próximos 3 a 5 anos”, acrescenta. A expectativa de Geraldo é de fechar 2021 com o triplo do faturamento do ano passado. No material da rodada na SMU, a companhia informou aos investidores ter registrado receita de R$ 346 mil até novembro/20.

Os clientes da Pink Farms hoje são restaurantes, o varejo e redes de mercados. Até o fim do ano, a empresa espera criar uma plataforma própria de e-commerce para vender suas hortaliças ao consumidor final.

Um sistema de automação controla todas as variáveis de plantio, como temperatura e umidade, independente de clima e época do ano. Também aplicam-se técnicas de hidroponia, um tipo de cultura sem solo e sem uso de agrotóxico. A economia com água nos processos chega a 95% e com fertilizantes, 60%.

Fazendas verticais em qualquer lugar

E se você pudesse criar uma fazenda vertical em sua própria sala? Parece loucura, mas é possível. Essa é a ideia da recém-criada Grown. Transformar áreas improdutivas nas grandes cidades em fazendas verticais, seja um ambiente interno de uma casa, uma estação de metrô ou um galpão.

Deny Zatariano, fundador da startup, teve o insight de criar a empresa ao concluir que fica insustentável manter nossos formatos atuais de produção agrícola: alto consumo de água potável, emissão de CO2, dentre outros fatores agressores ao meio ambiente. Antes disso, ele foi diretor de criação de uma agência de propaganda em São Paulo durante 7 anos.


Deny Zatariano, fundador da recém-criada Grown

“Ao criar uma fazenda vertical em um ambiente interno você olha para um formato de cultivo de alimento diferenciado. Por prateleiras, com clima e umidade controlados, sem uso de pesticidas e o produto já sai pronto para o consumo, sem a chance de perder nutrientes”, diz.

Com apenas 1 mês de vida, a Grown está em conversas com potenciais primeiros clientes, incluindo um grande varejista e algumas construtoras. A companhia contou com investimento inicial do próprio Deny e de um investidor-anjo, e agora está em busca de mais recursos para poder oferecer seu pacote de expertise, tecnologia e assessoria para montar fazendas verticais na cidade de SP, seja para o consumidor final, para mercados ou empresas.

Colhendo e comendo o que plantou

Se a pandemia da Covid-19 foi cruel para muitas empresas em 2020, para outras foi responsável por alavancar os negócios. As mudanças dos hábitos de consumo e o maior tempo em casa atraíram ainda mais clientes para a Yes We Grow, startup de agricultura urbana fundada em 2019. De um ano para outro o número de clientes aumentou 20x, para 6 mil.

“As pessoas estão buscando a reconexão com a natureza e se interessam cada vez mais pela agricultura doméstica. A pandemia foi só um gatilho para isso”, diz João Levy, co-fundador da empresa. No portfólio da startup, diversos kits de brotos e de mudas, vasos, regadores até adubos e fertilizantes para que as pessoas possam plantar e colher com facilidade tanto hortaliças como plantas decorativas em casa.

No início deste ano, a Yes We Grow atraiu a atenção dos grupos de investimento anjo Anjos do Brasil Gávea Angels e também de anjos independentes. Foram R$ 3 milhões levantados em sua 3ª captação desde o início das operações, em 2019 – naquele ano ela captou R$ 1 milhão em duas rodadas, uma de R$ 300 mil com alguns empreendedores e uma outra de R$ 700 mil. Os recursos da nova captação serão usados para dar escala nacional à operação.


Na foto: Rafael Pelosini (à esq), André Moraes e João Levy, sócios da Yes We Grow

Para Rafael Pelosini, fundador e presidente da startup, ainda há muito o que explorar. “Fizemos agora um produto que é um adubo em cápsula que se esgotou em apenas 1 semana e meia. Há uma lacuna tão grande nesse mercado que nem conseguimos medir, o consumidor nem sabe ainda o que ele quer”, comenta. A novidade a que se refere são cápsulas 100% vegetais que liberam e espalham os nutrientes na terra de forma gradual e constante.

Com um mercado que ainda engatinha, mas altamente promissor, os cofundadores João e Rafael reforçam a importância e necessidade de transformação na regulamentação do agronegócio, mais cedo ou mais tarde. Eles defendem uma nova normativa agrícola urbana, principalmente por conta da complexa área logística no Brasil no que se refere a produtos vivos. “É preciso distinguir a agricultura urbana da rural e da extensiva. Queremos ajudar nessa mudança, mas receamos o quão demorado possa ser esse processo”.

O desperdício global de comida também é um problema que motiva o trabalho dessas startups. Estima-se que 931 milhões de toneladas de alimentos, ou 17% do total de alimentos disponíveis para os consumidores em 2019, foram para a cesta do lixo de domicílios, varejistas e restaurantes e de outros serviços alimentares, de acordo com o relatório da ONU “Índice do Desperdício de Alimentos”, lançado em março pelo Programa das Nações Unidas para o Meio-Ambiente (PNUMA) e a organização inglesa WRAP (The Waste and Resources Action Programme).

Para se ter dimensão do problema, o peso do desperdício mundial de alimentos equivale a quase 23 milhões de caminhões de 40 toneladas totalmente carregados que, se enfileirados, poderiam dar sete voltas na Terra. Os dados foram obtidos de 54 países, entre eles o Brasil, com colaboração da Embrapa Alimentos e Territórios.

Mercado imobiliário

Toda essa experiência e conectividade que as pessoas estão tendo dentro de suas casas também impacta diretamente o mercado imobiliário, que descobriu novas formas de tornar a relação morador e residência ainda mais proveitosa.

Nascida em 2009, a Vitacon tem aplicado o conceito de fazenda urbana em seus empreendimentos. No ON Melo Alves, prédio com studios em construção no bairro paulistano dos Jardins, uma horta compartilhada será acessível a todos os moradores.

“Entregamos esse espaço já com plantio feito, com espécies determinadas, hortaliças e leguminosas. A manutenção da horta fica por conta da administração do condomínio, mas os moradores, que podem colher o que está sendo produzido, também podem ajudar na preservação do espaço”, conta Alessandra Miura, diretora de incorporação da Vitacon.

Segundo ela, o empreendimento inclusive recebeu em 2019 a certificação internacional Fitwell voltada ao bem-estar. Isso graças a, além da horta compartilhada, o uso de materiais naturais em sua construção, a proximidade do prédio a transporte público de qualidade, feiras públicas, parques e etc.

Não restam dúvidas de que há muitas oportunidades a serem exploradas pelas startups na equação inovação + sustentabilidade. É um caminho sem volta que já abala as estruturas de grandes corporações já bem estabelecidas suprindo demandas que não conseguem cobrir.

Jornalista com 10 anos de experiência no mercado de TI corporativa dedicados à apuração e produção de reportagens sobre tecnologia, negócios, finanças e carreira, incluindo a cobertura de eventos internacionais. Tem passagens por veículos e empresas de mídia de destaque do segmento, como TI Inside e IT Mídia.

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