fbpx
Compartilhe

Em um movimento inédito no segmento de femtechs no Brasil, as startups Feel e Lilit juntaram as forças. A consolidação das marcas prevê uma expansão da gama de produtos e serviços próprios e em parceria com outras startups focadas na jornada de bem-estar íntimo feminino.

Fundadas em 2020, tanto a Feel quanto a Lilit operam no segmento de saúde sexual feminina. A primeira é pioneira no desenvolvimento de produtos íntimos naturais e veganos como lubrificantes, enquanto a segunda lançou no país o primeiro vibrador desenvolvido por e para mulheres.

Com a fusão, ambas as marcas passam a existir sob o CNPJ da Feel. Marina Ratton permanece como CEO da Feel, enquanto Marília Ponte, ex-Endeavor e fundadora da Lilit, passa a ser COO da empresa na nova fase. O movimento tem raízes no encontro entre as fundadoras em meio à pandemia, quando ambas estavam no estágio de ideação de seus respectivos produtos.

Desde então, muita coisa aconteceu. As empreendedoras começaram parcerias comerciais em dezembro de 2020, e passaram a atuar em diversas frentes, incluindo a venda de produtos em ambos os sites, a recomendação mútua para varejistas e canais de venda, bem como ações conjuntas com influencers (as fundadoras rachavam a conta). Além disso, passaram a trabalhar em prol do segmento com a criação da Femtechs Brasil, associação que representa as startups atuantes em saúde e bem-estar feminino.

“Temos uma visão e uma perspectiva em cima da sexualidade que é muito sinérgica. Desde o começo das nossas empresas, temos trocado experiências, pontos de venda, oportunidades de investimento. As conversas ficaram mais intensas e estamos finalmente ‘casando’ depois de um longo tempo de namoro e noivado,” diz Marina, em entrevista ao Startups, acrescentando que a fusão vem de encontro à consolidação global de femtechs com o objetivo de fortalecimento do segmento.

A constatação de que tanto as consumidoras da Feel e quanto as da Lilit tinham em comum a necessidade de soluções para a “jornada da intimidade”, como definem as fundadoras, também foi um fator crucial para a fusão.

“Começamos a ver que a mesma menina que tem um tabu sobre o uso de absorventes na menstruação é a mulher que tem um tabu para se tocar no espelho e ter um momento de intimidade prazerosa, e é a mesma mulher que tem dificuldades em falar com o médico sobre ressecamento vaginal na menopausa. Todas tem múltiplas demandas ao longo da vida. Nossa consolidação reflete essa visão da mulher por inteiro, com necessidades que vão muito além do quarto, e do prazer”, pontua Marília.

Trajetória de crescimento e planos de captação

Desde o lançamento de seu vibrador Bullet Lilit, que caiu nas graças de varejistas como Magazine Luiza e Amaro, a Lilit faturou R$ 1,7 milhão. A Feel não divulga cifras, mas diz que as vendas mensais tem crescido em cerca de 20% e a expectativa é dobrar o percentual este ano. Atualmente, o volume de produção da Feel – que já vendia através de canais como Renner e Beleza na Web e agora fechou com a marca Cantão – é quatro vezes superior ao de janeiro de 2021.

Tendo passado por uma rodada de investimento através da plataforma de equity crowdfunding Wishe Women Capital, a Feel captou R$ 550 mil. Mulheres representaram 84% do pool de inventores da empresa, que também participou da primeira turma do GB Ventures, programa de aceleração do Grupo Boticário.

Para o próximo semestre, uma das prioridades da empresa será levantar uma rodada pré-seed, algo que já estava nos planos de Marina antes do anúncio da fusão. A empreendedora não abre o valor que deve buscar, mas diz que está em negociações com um grupo de anjos e tem tido conversas com alguns fundos. “Eu ‘namorei’ a Marília desde 2020 e a gente agora está ‘casando’ com essa segurança. Levamos a mesma lógica para os nossos investidores, primeiro entendendo a tese deles para definir se este casamento também será feliz nos próximos anos”, diz Marina.

Sobre a atual conjuntura do mercado de capitais, Marina diz que o segmento de femtechs sempre enfrentou entraves. “Mulheres jovens falando de vibrador, lubrificante, de desconforto íntimo significa que as coisas são mais difíceis. Por outro lado, temos um fluxo de caixa saudável e conduzimos os negócios de forma muito sustentável. Não faríamos uma queima de caixa excessiva em marketing, por exemplo, nem se quiséssemos”, ressalta.

“Temos as premissas certas e estamos trabalhando com as pavimentações de crescimento corretas. A Feel já tem um histórico de investimento e estamos partindo para esta nova captação dentro de um playbook conservador e, considerando que esta é uma rodada pré-seed, estamos dentro das expectativas de fundos e os investidores no momento atual”, acrescenta Marina.

Um mercado em franco crescimento

As startups operam em um segmento (literalmente) quente, especialmente desde a emergência da pandemia. Dados da Associação Brasileira de Empresas do Mercado Erótico e Sensual (Abeme) revelam que o faturamento do setor em 2021 foi de R$2 bilhões, com mais de 1 milhão de vibradores comercializados. Vendas deste item em particular cresceram 50% entre março e agosto de 2020, e 12% em 2021. Em termos globais, o setor de sexual wellness deve arrecadar US$ 108 bilhões até 2027, segundo dados do instituto Allied Market Research.

Este crescimento se reflete nos números da Feel e Lilit, tanto em vendas quanto no aumento da base de consumidoras, que teve um aumento de 200% em menos de um ano. Segundo Marília, há uma oportunidade de expansão de produtos, mas também de serviços, tanto próprios quanto através de parceiras. A ideia aqui é atender a demanda de consumidoras por outros serviços e recomendações de profissionais da área de saúde íntima. Um exemplo de movimentações nessa linha é a recente colaboração com a Fertilid, startup de testes de qualidade ovariana.

Além disso, a produção de conteúdo para impulsionar a recorrência na compra está entre as prioridades de Marina e Marília na nova fase das empresas. As empreendedoras devem investir em conteúdo educacional para mostrar a utilização do produto. “Nossa expectativa é ser a Amazon da sexualidade, não no sentido de marketplace, mas vendendo os nossos produtos dentro dessa jornada de intimidade e complementando com o Amazon Prime, com vídeos proprietários de educação sexual com informações que hoje essas mulheres não têm onde acessar”, explica Marina.

Segundo Marília, as marcas devem ser preservadas por ora, e serão usadas de forma estratégica. Por outro lado, as fundadoras dizem que as consumidoras já tinham um certo entendimento de que ambas eram um negócio só. Além disso, um possível futuro rebranding não é visto como um entrave. “O mais importante é que temos duas marcas muito fortes, que lideram esse discurso no mercado de sexual wellness e saúde íntima e isso não é um complicador, muito pelo contrário”, completa.

OPINIÃO

Veja todas as opiniões