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O mês de julho trouxe um marco especial para a Gerdau quando o assunto é inovação. Há exatos dois anos, a gigante do aço anunciava o Gerdau Next, área de novos negócios que tem servido não só para trazer novas fontes de receita, mas também para aumentar a eficiência da atividade central da companhia. Com iniciativas que incluem um braço de investimento e uma aceleradora, a empresa prepara o próximo ciclo de fomento a startups, focado em logística.

Desde a criação da nova área de negócios liderada pelo ex-Cosan Juliano Prado, a Gerdau gerou mais de R$ 1 bilhão em novas fontes de receita só no primeiro ano de operação, além do fortalecimento do negócio central de aço. Um grupo de nove empresas que emergiram nos últimos 24 meses são responsáveis por este resultado. Destas, três foram criadas através de uma abordagem de venture builder, enquanto as outras são joint ventures com empresas como a Shell, que teve sua parceria com a Gerdau aprovada recentemente pelo CADE. Além disso, a empresa conta com uma carteira de empresas apoiadas por seu braço de investimento.

“Ao longo dos últimos dez anos, no mínimo, a Gerdau vem passando por um processo muito forte de transformação cultural, digital, com um mindset de inovação aberta muito presente na estratégia. Com a Gerdau Next, desenvolvemos um portfólio de negócios complementares ao aço, buscando também sinergias entre estes negócios”, diz Juliano Prado, vice-presidente da Gerdau e responsável pela Gerdau Next, em entrevista exclusiva ao Startups.

Constituída como uma empresa separada da nave-mãe, o escopo da Gerdau Next compreende negócios no Brasil, na América Latina e na América do Norte. A atuação tem foco em três segmentos estratégicos: construtech, que compreende as diversas inovações no setor da construção civil; mobilidade, que passa por um interesse em logística; e sustentabilidade, que inclui o trabalho com energia renovável, reciclagem, e economia circular.

Investimentos e aceleração

Na frente de corporate venture capital, com a Gerdau Next Ventures (anteriormente Paris Ventures) a empresa conta com US$ 80 milhões para investir. A lista de startups que receberam aportes realizados pelo braço de investimentos compreende a Third Sphere, Instacasa, Cubbo, Docket, 3DEO e Tul. Além disso, a gestora de venture capital ONEVC, que é focada em empresas early-stage e a Terracotta Ventures, especializada em construtech, receberam aportes do braço de investimentos da Gerdau.

Segundo Juliano, o time da Gerdau Next Ventures considera cerca de 1500 oportunidades por ano. “Não me refiro a só consultar o site dessas empresas, e sim conhecê-las, fazer um reunião por Zoom, no mínimo. A ideia é avaliar, analisar e buscar uma aderência à nossa estratégia e uma relação de ganha-ganha entre as duas empresas”, pontua.

Sobre a atual austeridade em investimentos, Juliano diz que a Gerdau sempre foi criteriosa em relação a como emprega seu capital. “Cada real ou dólar investido importa para nós. Os investimentos passam por um processo ágil e simplificado, mas são baseados em critérios e somos muito objetivos nisso. Nada muda para nós nesse sentido”, ressalta.

“Continuamos acreditando muito nas verticais de foco que estabelecemos, e no [impulsionamento do] próprio negócio do aço, bem como na atuação da Gerdau Next nas Américas. Então, independente do que venha a acontecer no cenário macro, seja em termos de recessão ou cenário de eleições, a Gerdau vai continuar investindo fortemente em novos negócios”, frisa o VP.

Considerando a trajetória da empresa em investimentos nos últimos dois anos – só em 2021 foram seis deals, e este ano dois foram anunciados e a empresa aumentou participações em outros dois negócios existentes – o braço de investimentos não deve mostrar sinais de desaceleração.

Juliano Prado, vice-presidente da Gerdau e responsável pela Gerdau Next

“Esse é um processo contínuo, não temos uma descontinuidade [em investimentos] em vista. Se serão três ou seis [novos investimentos este ano], vai depender muito da oportunidade do mercado, do fit estratégico, da nossa capacidade de encontrar startups que façam total sentido para os dois lados, tanto para o empreendedor quanto para nós. É muito mais um foco na qualidade, de sinergia, dos ativos em si do que quantidade”, ressalta.

A Gerdau Next também está preparando o novo batch de seu programa de aceleração, com foco em logística. Esta será a terceira edição desde 2020: naquele ano, a companhia teve a turma inicial de construtech, depois uma de prédios sustentáveis e cidades inteligentes, nos Estados Unidos, no ano passado.

“Vamos explorar temas como gerenciamento e operação inteligente de armazéns, uso de dados e IoT não só para rastreamento, mas para toda a otimização dos processos de logística e ecossistemas de serviços, incluindo last mile delivery”, diz Juliano sobre a aceleração de logtechs, acrescentando que a ideia é buscar soluções que alavanquem os ativos de logística já existentes da Gerdau além de impulsionar os negócios existentes.

De acordo com Juliano, os temas das acelerações estão inter-relacionados e vem de encontro às ambições da companhia de agregar valor ao core business e ao ecossistema como um todo. “[O trabalho com startups] é uma forma de não somente mapear com muito mais profundidade o que acontece no mercado, mas mostrar como podemos somar forças, como mostrar a marca Gerdau super interessada em fazer novas parcerias estratégicas”, afirma, acrescentando que a empresa também tem intensificado o uso de startups como fornecedoras e já fez negócios com cerca de 40 delas nos últimos 24 meses.

Potencial de disrupção

Nos últimos dois anos, a Gerdau Next criou um portfólio de nove empresas, em casa ou via joint ventures. Sobre novos negócios no horizonte, Juliano diz que a Gerdau tem 32 negócios em análise, negociação ou due diligence.

Entre as companhias criadas ao longo dos dois últimos anos, estão a operadora logística G2L. A empresa começou como transportadora rodoviária, servindo a própria Gerdau. Hoje, tornou-se uma empresa multimodal, com atuação em transporte ferroviário e cabotagem, já atendeu mais de 200 empresas e tem um faturamento de cerca de R$ 1,4 bilhão. A G2Base, outra companhia criada pela Gerdau Next, atua no processo de gestão e execução de fundação de obras, e já tem mais de 20 obras de grande escala para mostrar.

A unidade também tem trabalhado no desenvolvimento de materiais avançados, como o grafeno – que é o foco de uma das empresas criadas internamente, a Gerdau Graphene. Esta unidade desenvolve aplicações e produtos com base no material a partir de trabalhos em pesquisa e desenvolvimento junto a instituições como a Universidade de Manchester, na Inglaterra, e com o cientista Andre Geim, cujos experimentos com grafeno renderam o Nobel da Física em 2010.

Além disso, as joint ventures do portfólio conta com empresas ativas em áreas como construção. “Sao empresas ainda pequenas mas que, na nossa opinião, tem um potencial de disrupção muito grande quando consideramos o segmento como um todo e como elas vem trazendo soluções ágeis para o mercado”, aponta Juliano.

Entre as empresas do segmento de construtech, estão a catarinense Brasil Ao Cubo, cujo processo possibilita a construção de uma casa de alto padrão em 50 dias versus o processo de tradicional de construcão, de cerca de 18 meses. A empresa atualmente está trabalhando na expansão do Hospital Albert Einstein, em São Paulo: com mais de 100 leitos, a obra deve ficar pronta em cerca de quatro meses no total.

Nos Estados Unidos, a Gerdau fechou com a Plant Prefab, que tem um processo semelhante para acelerar obras de alto padrão: muitas mansões em Santa Monica, cidade da Califórnia, por exemplo, são construídas usando o método da empresa. “Ambas das empresas estão em um processo de desenvolvimento de novas fábricas em regiões diferentes, e estão numa curva rumo a um ponto de inflexão que vai habilitar um crescimento exponencial”, ressalta o VP da Gerdau Next.

A lista de joint ventures da Gerdau inclui empresas como a Juntos Somos +, com a Votorantim Cimentos e Grupo Tigre. Um dos maiores marketplaces de materiais de construção do Brasil, a plataforma atende mais de 100 mil lojas de bairro em território nacional e já movimenta mais de R$ 9 bilhões em volume transacionado. Em energia renovável, a JV com a Shell anunciou dois parques solares e deve desenvolver projetos também em energia eólica.

Apoio da alta liderança

Quando lançou a Gerdau Next Ventures, o discurso da empresa era de que 20% da receita viria de fontes além do negócio tradicional de aço em uma década. Segundo Juliano, essa aspiração evoluiu: mais do que estipular um percentual de novas receitas, a prioridade da área de novos negócios é promover a evolução da empresa via sinergias entre as empresas do portfólio, bem como do setor.

“Os 20% deixam de ser um percentual tão relevante quando se pensa, por exemplo, em logística. Temos uma empresa de logística, que já está entre as top dez do mercado, que mostra nossa relevância e que muito provavelmente vai entrar entre as top cinco do mercado no curto prazo”, pontua o executivo.

“Pode ser que tenhamos uma venda parcial para um terceiro ou trazer um investidor que agregue muito valor para uma determinada companhia do nosso portfólio. A questão não é de se prender ao número da receita que vamos buscar em cinco ou dez anos, e sim como seremos relevantes ou estamos construindo esse portfólio de forma relevante nas áreas na mobilidade, construtech e sustentabilidade”, acrescenta.

O apoio da alta liderança – que na Gerdau começa pelo CEO, Gustavo Werneck, que convidou Juliano para tocar a nova frente há dois anos atrás – é fundamental para que iniciativas como o Next tenha sucesso, diz o executivo. “Acredito na transformação através da diversificação de negócios, e se a alta liderança estiver comprometida e engajada, ela vai funcionar. Não é uma coisa que tem que ser puxada por um determinado CEO ou por um vice presidente, que é o meu caso. A companhia inteira acredita nesse negócio, e, com isso, a gente consegue motivar, engajar os diversos líderes da organização e o mindset muda”, destaca.

Ao falar sobre as expectativas para o próximo ano, Juliano diz que espera ampliar e rentabilizar os negócios produzidos ou investidos pela Gerdau Next, com a ajuda de um time de 25 pessoas e uma rede de mais de 1500 profissionais nos diversos novos negócios.

“Temos muita coisa no prato, mas a realização acontece por meio do meu time. O desafio aqui é saber escolher as pessoas certas nas posições certas, conseguir motivar essas pessoas no processo de criação, desenvolvimento do portfólio nos altos e baixos que acontecem em qualquer lançamento de um novo negócio. Parece clichê, mas 99% do meu resultado está nas mãos da minha liderança e do time que bota a mão na massa para fazer isso acontecer”, conclui.

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