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Com mais de 50 anos de tradição na área da saúde, a NotreDame Intermédica, operadora com cerca de 7,7 milhões de beneficiários, está aumentado seus esforços para levar inovação para dentro do seu ecossistema. Depois de criar um Comitê de Inovação em 2020, a companhia está estruturando seu relacionamento com healthtechs por meio de aportes, projetos e parcerias comerciais a fim de melhorar a experiência do paciente e eficiência operacional.

Segundo Pedro Campos, líder de corporate venture capital e diretor de novos negócios da NotreDame, a virada de chave aconteceu há cerca de 2 anos. “A pandemia ajudou bastante. A a gente precisava seguir atendendo os pacientes com qualidade e a custos acessíveis, mas com mais capilaridade em um momento de lockdown. Isso abriu a nossa cabeça e incentivou as equipes a tirarem projetos do papel”, diz o executivo em entrevista ao Startups.

A primeira grande movimentação foi um aporte de R$ 10 milhões na NeuralMed, que usa inteligência artificial (IA) para otimizar o tempo de atendimento e a assertividade das decisões médicas. A transação foi anunciada em agosto de 2021 e garante à NotreDame uma participação societária de 9,29% na startup, além de uma cadeira no conselho para auxiliar no desenvolvimento de produtos.

A startup desenvolve um dashboard que interpreta as informações de laudos, exames e prontuários e identifica os pacientes crônicos. A tecnologia organiza essas pessoas em nível de criticidade e gera leads para a equipe de coordenação de cuidados tratar os pacientes da forma mais adequada em cada caso. A solução já está rodando na unidade de Jundiaí (SP) e, segundo Pedro, permitiu que a NotreDame dobrasse  o número de pacientes identificados como diabéticos.

“A IA demora menos de 2 minutos depois do fechamento de uma consulta para analisar o prontuário e sinalizar para os profissionais se o paciente é diabético ou não. É algo que potencializa o nosso trabalho”, afirma o executivo. Ele acrescenta que 1 mil novos pacientes foram encaminhados para participar de programas de coordenação de cuidado, reduzindo os casos de eventos críticos e diminuindo os gastos para a operadora.

Procurando healthtechs

O investimento na NeuralMed faz parte da estratégia de corporate venture capital da NotreDame, um projeto também criado em 2020 como uma célula dentro do Comitê de Inovação. No entanto, a companhia não tem feito muito barulho para falar sobre a iniciativa – o que, segundo Pedro, é intencional.

“Vamos interagindo com o mercado devagarinho, caminhando a passos bastante cautelosos”, afirma. O executivo diz que a empresa já analisou cerca de 80 startups e, nesse processo, encontrou apenas uma (a NeuralMed) que fizesse sentido para investir no momento. Isso porque a NotreDame aposta em um processo longo de curadoria.

Tudo começa pelo estudo do mercado para identificar potenciais parceiros. Encontrando uma healthtech que tenha sinergia, a operadora entra numa esteira de desenvolvimento de provas de conceito (POCs), em que testa as soluções e verifica o funcionamento do produto no dia a dia dos atendimentos. No caso da NeuralMed, as POCs foram feitas ao longo do 1º semestre de 2021 para só depois entrar na diligência. Se passar na diligência, a negociação é levada para o board da companhia aprovar o investimento.

O objetivo é aproveitar toda a base de 90 hospitais, 300 centros clínicos e beneficiários atendidos para testar e aprimorar as soluções. “Temos uma equipe de profissionais específicos, técnicos de enfermagem e enfermeiros 100% dedicados a auxiliar a startup a desenvolver o produto. É difícil fazer isso se tivermos 30 startups no portfólio, porque envolve um nível de engajamento e aproximação muito forte”, explica o executivo.

Pedro acrescenta que a companhia prefere evoluir com calma, bastante diligência e muita dedicação às poucas startups que investir. Sem dar muitos detalhes, ele adianta que hoje a NotreDame está em fase de diligência com uma healthtech e se o processo for bem-sucedido o aporte deve ser feito ainda este ano. Além disso, 8 provas de conceito estão em andamento.

Não há um orçamento específico para o braço de CVC e, segundo Pedro, “as transações são avaliadas no mérito de cada uma delas”. Ainda assim, os investimentos não devem variar muito dos R$ 10 milhões aportados na NeuralMed. “Uma empresa na série C já tem seu roadmap escrito em pedra, mas nós queremos participar do processo. Do lado oposto, uma startup que não tem absolutamente nada pronto vai demandar muita energia para construir o projeto”, diz o executivo.

As healthtechs que mais brilham os olhos do executivo são aquelas que resolvem ao menos uma das 5 vertentes que a NotreDame quer aprimorar. Data analytics, gestão de pacientes crônicos, relacionamento com o beneficiário final, autosserviço (atendimento domiciliar ou autoatendimento) e novas formas de oferecer saúde de qualidade (produtos ou modelos).

A NotreDame ainda não adquiriu startups como parte de sua estratégia de M&As (por enquanto comprou apenas hospitais, laboratórios e outros planos de saúde). E, aparentemente, não tem negociações previstas. Ainda assim, Pedro diz que a companhia está aberta para qualquer tipo de relacionamento com startups, desde que o negócio esteja alinhado com a missão de fornecer saúde de qualidade a preços acessíveis.

Parcerias estratégicas

Os projetos de inovação da NotreDame Intermédica se intensificaram depois da fusão com a operadora de saúde Hapvida, anunciada em fevereiro de 2021 e aprovada pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) em janeiro de 2022. 

Antes disso, a Hapvida já tinha criado um programa de inovação aberta para encontrar startups que pudessem ajudar a melhorar os processos da organização. Batizada de Explora, a iniciativa foi criada em 2020, com a primeira turma de selecionadas anunciada em 2021. As vencedoras fecharam parcerias estratégicas com a operadora e receberam R$ 16 mil cada para construírem provas de conceito e implementarem seus projetos piloto.

Com a fusão, as healthtechs que forneciam soluções para a Hapvida naturalmente passaram a fazer o mesmo para a NotreDame. Entre elas, a Zetta, healthtech que desenvolve algoritmos, análise de dados e inteligência artificial aplicados à gestão de saúde; a plataforma de inteligência de dados Cinnecta; e o app Avatar da Saúde, que auxilia o usuário a manter hábitos e estilos de vida saudáveis com orientações personalizadas.

“A NotreDame tem mais de 50 anos de tradição em saúde. Vemos a conexão com as startups como uma oportunidade de continuarmos nos reinventando e ampliar o leque de soluções para assistência clínica de qualidade”, afirma Pedro. A NotreDame Intermédica também é parceira da Conexa, plataforma de cuidado integrado que gerencia cerca de 20 milhões de vidas com a ajuda de 70 mil profissionais de saúde, e da hCentrix, que faz a análise do risco assistencial com IA.

Todo o setor precisa inovar

Pedro argumenta que um dos grandes problemas da saúde no Brasil é a dependência do setor nas instituições físicas. “Enquanto não conseguirmos aumentar a penetração da telemedicina e de soluções de autoatendimento e atendimento domiciliar, o país vai continuar sofrendo com os custos da inflação médica. Mas isso demanda muita eficiência operacional”, afirma. 

O executivo ressalta a importância de uma inovação na regulamentação, e diz que enquanto setores como fintechs e insurtechs recebem mais oportunidades de sandbox regulatórios, o setor da saúde ainda carece dessas alternativas. “Embora ainda tenha um controle no sandbox, ele dá mais liberdade de testar novas soluções e ofertas de serviço. A regulação em saúde suplementar ainda é bastante rígida – e testar novas abordagens e dar mais flexibilidade não deixa de ser uma forma de inovação”, conclui Pedro.

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