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Tirar uma ideia do papel e colocar uma empresa de pé é só o 1º desafio para quem decide montar uma startup. Com a operação ganhando escala, a empresa se depara com novos obstáculos para se manter viva em um mercado altamente competitivo e dinâmico. Neste cenário, inovar não é uma opção, é uma necessidade. Pois é, nem uma startup escapa dessa sina!

No entanto, inovar no Brasil é um caminho tortuoso. E, para as mulheres, ele é ainda mais espinhoso. Segundo mapeamento feito pela Associação Brasileira de Startups (Abstartups) em 2020, os homens foram a maioria entre quem criou uma startup no país, representando 59,2% do total; enquanto as mulheres respondem por 12,6%. Os números foram baseados em dados de mais de 5 mil startups associadas.

Diante deste cenário, o acesso a capital se mostra uma das principais dificuldades de mulheres empreendedoras para inovar no país, na opinião de Rafaela Frankenthal, cofundadora da SafeSpace, plataforma criada por 4 mulheres para ajudar a resolver problemas no ambiente de trabalho, como assédio, má conduta e relações de poder.

Na foto: Giovana Sasso (à esq), Rafaela Frankenthal, Claudia Farias e Natalie Zarzur, cofundadoras da SafeSpace. Crédito: Divulgação.

“O mundo é muito pautado em networking e indicação, o que restringe. Fomos a única empresa fundada por mulheres no país a levantar dinheiro em 2020”, comenta. O investimento em questão, de valor não divulgado, foi obtido em rodada liderada pelo fundo Maya Capital e contou com o apoio de 11 investidores-anjo.

O número ínfimo do Brasil está, infelizmente, inserido em uma realidade global. Dados do Crunchbase indicam que, em 2020, apenas 2,3% dos investimentos de venture capital feitos ao redor no mundo foram destinados a empresas fundadas por mulheres. Uma queda em relação a 2019, quando o percentual foi de 2,8%. O volume de investimento também caiu, 27%, somando US$ 4,9 bilhões destinados a mais de 800 startups criadas por mulheres. A leitura é que, com o distanciamento, os contatos entre pessoas que já se conheciam antes da pandemia foram reforçados. E como as mulheres são a minoria dentro do mundo de quem assina os cheques, as fundadoras ficaram em desvantagem.

Mudanças de hábitos

Aos poucos, movimentos para mudar esse cenário vão acontecendo. Na Maya Capital, gestora fundada por duas mulheres – Monica Saggioro e Lara Lemann -, por exemplo, o processo de escolha das startups a serem investidas foi desenhado para evitar viéses na hora das entrevistas.  “Tentamos criar um processo de seleção mais neutro possível, fazendo as mesmas perguntas para todo mundo. Hoje temos no portfólio pelo menos uma fundadora em 4 de cada 10 investidas”, disse Monica em recente entrevista ao Startups. O portfólio da Maya conta hoje com 27 companhias como Gupy, liderada por Mariana Dias, e a  SafeSpace.

Além da dinâmica de escolha de quem receberá um cheque, a gestora criou um programa para ajudar mulheres a empreenderem por meio do compartilhamento de experiências e do exemplo, o Female Force. “Nos inspiramos muito no All Raise. Um dos fatores que fazem com que as mulheres não empreendam é a falta de referências, de exemplos”, disse Monica.

Desenvolvedores e desenvolvedoras, cadê vocês?

A falta de talentos com skills digitais também é um desafio apontado pela investidora-anjo e mentora de mulheres empreendedoras, Flávia Mello – que entrou nesse mundo com a SafeSpace como sua 1ª investida. Para se ter dimensão, um estudo realizado pela PwC em 2020 com 3.501 CEOs de 83 países revela que 74% deles estão preocupados com a disponibilidade de skills digitais.

“A pandemia acelerou a digitalização das empresas, acompanhando o comportamento do consumidor. Então, os perfis de cientistas e desenvolvedores/desenvolvedoras são muito disputados por companhias de todos os segmentos, e a startup que está começando fica sem opção de profissional do mercado”, avalia.

A investidora-anjo Flávia Mello. Crédito: Divulgação

Flávia ressalta ainda que esse é um momento difícil para desenvolver uma solução proprietária do zero, principalmente por não existir no Brasil incentivo privado de empresas para formarem profissionais, nem interesse governamental.

Além de investir em empresas nascentes e liderar um grupo de encontros (Sororitê) para troca de experiências entre startups lideradas por mulheres, Flávia revelou ao Startups que vem novidade por aí. “Estou começando a pensar no desenvolvimento de uma solução para mulheres e buscando desenvolvedoras para criar uma startup daqui há 2 meses”.

Mais oportunidades que desafios

Por outro lado, o competitivo ecossistema de empreendedorismo traz mais oportunidades que desafios na visão de Manoela Mitchel, fundadora da Pipo Saúde – corretora com foco na gestão de saúde. “Sempre tem alguém fazendo o que você faz e um ponto de partida em buscar se diferenciar já dá um gás para oferecer algo melhor”, diz, lembrando que no mercado você sempre estará lutando contra o “status quo”.

Manoela Mitchell, fundadora da Pipo Saúde. Crédito: Marcella Ferrucci.

Manoela deixou o mercado financeiro, onde atuou por 7 anos, para empreender por conta própria. Em 2019, surgiu a Pipo Saúde, com o propósito de ajudar empresas a escolher o plano de saúde ideal para os seus funcionários e a fazer a gestão desses benefícios.

Um ano depois, um aporte de R$ 20 milhões, liderado pelos fundos Monashees e Kaszek para ganhar impulso. Hoje a startup possui 100 funcionários, 90 clientes empresariais e cuida de 10 mil vidas.

São muitos os desafios para inovar no país. Resta saber se, com o novo Marco Legal das Startups, aprovado pelo Senado em fevereiro, as startups terão um ambiente mais propício para inovar e se desenvolverem, independentemente do sexo dos envolvidos.

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